Não foram os maiores, ficaram como os melhores. Os Jogos Olímpicos de 2012, organizados por Londres, ficaram para fora como um dos mais importantes legados para as gerações futuras e funcionaram em termos internos como um boom em termos de condições de trabalho, investimento e resultados desportivos (um pouco como a Espanha, após a edição de 1992 em Barcelona). Ao todo, a Grã-Bretanha teve um total de 65 medalhas entre as quais 29 de ouro, ficando apenas atrás dos tradicionais Estados Unidos e China mas à frente de países com muito mais peso na competição como a Rússia, o Japão, a Alemanha ou a Austrália. Entre todos os triunfos, houve um especial numa modalidade especial e por uma atleta especial: a campeã do heptatlo, Jessica Ennis-Hill.

“As pessoas perguntam-me como é a Jessica Ennis-Hill. Acham que é uma espécie de unicórnio enigmático”, disse numa conversa recente no The Telegraph, desmistificando um mundo de sucesso e conquistas que chegou agora a uma app de fitness com o seu nome, Jennis. Para trás ficou o sonho de um dia ser cozinheira, seguindo um gosto que ganhou quando era pequena dos petiscos típicos da Jamaica feitos pelo pai, e um carreira de sucesso que além do ouro (2012) e da prata (2016) olímpicas, teve ainda vitórias em Mundiais ao Ar Livre (três), Mundiais em Pista Coberta (uma) e Europeus ao Ar Livre (um), entre muitos outros triunfos internos e internacionais.

Pelo meio, Jessica, nascida e criada em Sheffield, enfrentou um outro desafio, descrito pela própria como o maior que teve na vida – e que reforçou ainda mais o papel de exemplo e referência para as gerações mais jovens. “Teria de estar a mentir se dissesse que não havia dias em que pensava ‘Não sei se quero mesmo fazer isto porque é muito, muito complicado’. Pensei que já tinha sido campeã olímpica… Será que queria todo aquele stress outra vez? Tive de me libertar de tudo isso. Não quero olhar para trás e pensar ‘Talvez'”, contou a propósito da maternidade e do facto de, dois anos depois, já estar de regresso aos grandes palcos (e resultados).

“A minha vida toda foi treino, competições, horários e chegou a altura em que pensei que tinha cumprido todos os meus sonhos no atletismo e que tinha de começar uma nova carreira, do zero. Quando somos atletas, temos de estar 100% focados naquilo, porque se trabalha muito tempo para aqueles momentos das grandes competições. Nem mesmo quando me lesionei, e tive lesões graves, pensei em desistir. A única vez em que ponderei ou que tive dúvidas foi quando parei para ter o meu primeiro filho. Os Jogos de 2012 foram a maior experiência que vivi, com muita pressão mas algo que nunca imaginei. Depois fiquei grávida”, começou por contar no painel “Um guia para ser um vencedor nos negócios”, na manhã desta terça-feira no Sports Trade da Web Summit.

“Os atletas querem sempre subir um degrau para serem melhores do que os outros. Havia um pouco a ideia de que com a paragem o corpo ia mudar mas nunca pensei muito. Quando tive o meu primeiro filho, ainda tinha o objetivo de ir aos Jogos de 2016, quando tive a minha filha estava na fase de transição mas acabou por ser uma motivação para criar a app Jennis. A gravidez acabou por me dar mais motivação para manter os meus projetos, que não visam tanto o público que tinha como atleta mas um público que estou a tentar criar”, acrescentou, explicando que uma das partes da aplicação de fitness que criou passa também pela ginástica pré e pós parto para poder também partilhar a experiência que foi tendo nos últimos anos.