Depois de terminado o leilão. Depois de saírem os últimos visitantes. Depois de fechadas as portas da Estufa Fria. Aí, sim, foi possível descansar por uns momentos e fazer o balanço do que foi mais um evento organizado pela Capiti, numa parceria com o The Spot Market. Nesse 12 de outubro (dois dias depois de se celebrar o Dia Mundial da Saúde Mental), graças ao leilão feito pelo Palácio do Correio Velho, as 30 peças de Urban Art, cedidas por 30 artistas (numa outra parceria, com a Galeria Under Dogs) angariaram cerca de 24 mil euros, que vão permitir que mais 20 crianças possam ser acompanhadas, durante um ano, na área do neurodesenvolvimento. Mais uma prova superada, mais um respirar de alívio.

“A Capiti surgiu de uma necessidade específica sentida pelo Dr. Nuno Lobo Antunes, diretor clínico da PIN – Centro de Desenvolvimento. Por vezes, recebia famílias que traziam os seus filhos à primeira consulta, era-lhes feito um diagnóstico e um plano de tratamento, mas depois não regressavam”, explica Mariana Saraiva, presidente da CAPITI. O neuropediatra percebeu que era uma questão de não terem dinheiro para pagar os tratamentos, dispendiosos e morosos. “Há três anos que trabalhamos com essas famílias, para que tenham acesso a tratamentos na área do neurodesenvolvimento, em clínicas parceiras com o PIN”. Já acompanham 100 crianças em cinco clínicas parceiras: a PIN – Progresso Infantil em Lisboa e no Porto, Psikontacto em Coimbra, a Oficina dos Mimos em Albufeira e a Clínica Fisio S. Brás em São Brás de Alportel. “Queremos estar próximos das famílias, até para não terem de se deslocar.” O objetivo é, igualmente, acompanhá-las ao longo de todo o período de tratamento que dura, em média, três a quatro anos.

O primeiro passo

O processo dá-se início com o preenchimento de uma ficha de candidatura, através da qual se percebe a realidade da família e se identifica o seu grau de carência. “É nessa avaliação que definimos o escalão de apoio, que pode ir dos 90% aos 30%. Não apoiamos a cem por cento, pois sentimos que é importante que haja esse envolvimento da família”, explica Mariana Saraiva.

Esta IPSS focou-se nas perturbações do foro do neurodesenvolvimento, do comportamento e de desenvolvimento, como as perturbações do espectro do autismo, de ansiedade e humor, da aprendizagem, do comportamento, do luto, dependência da internet, síndromes genéticos, entre outros. “É muito importante que as famílias peçam ajuda o mais depressa possível. O diagnóstico precoce é essencial. Quanto mais rápido for feito, mais facilmente a criança reage a estímulos exteriores. Temos visto que há uma evolução muito mais rápida em crianças mais pequenas”, explica a presidente da Associação. O seu foco está bem determinado, bem como a sua razão de existência: “é imperativo que a Capiti exista. Há cada vez mais famílias com estas perturbações, mas com dificuldades em pagar os tratamentos. A falta de intervenção cria um impacto negativo, quer no núcleo familiar, quer na escola e, mais tarde, na sociedade. Queremos que tenham todas as oportunidades que merecem e sabemos que os apoios públicos não cobrem todas as necessidades.”

Reinventar estratégias de financiamento

“Temos de nos reinventar para angariar fundos. Aqui, a criatividade é muito importante pois, como nós, existem mais de 4500 instituições em Portugal com causas igualmente meritórias. Os parceiros e os mecenas não podem apoiar todas, pelo que tentamos pedir da maneira certa às pessoas certas”. Concentram, assim, a maior parte dos seus esforços uma vez por ano, por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro). Este ano realizou-se dois dias depois, mas não perdeu visibilidade por isso, tendo recebido, inclusivamente, a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

O voluntariado é outra forma que permite a este tipo de instituições manterem-se ativas e produtivas. “Sou voluntária há mais de dez anos e gosto muito. Encaro como um trabalho igual a todos os outros que tive anteriormente, com o mesmo compromisso e sentido de responsabilidade”, revela. Para já, gerem uma equipa de 20 voluntários, na zona de Lisboa, Coimbra e Porto, e, recentemente, contrataram a meio tempo uma administrativa e uma assistente social. Crescer devagar, de forma estruturada e de maneira a ter representantes Capiti em cada uma das clínicas parceiras, é um dos objetivos definidos. Outro, é chegar às 120 crianças em quatro anos. “Mas queremos apoiá-las no tempo total do seu tratamento e fazê-lo da melhor forma: saber se pedem todos os apoios a que têm direito, quando faltam, procurar saber porquê e de que forma podemos ajudar”.

Mostrar o que não se vê

“O maior desafio é dar visibilidade a perturbações que são invisíveis”, refere Mariana Saraiva. “As doenças de saúde mental são invisíveis. Fazemos um apelo aos pais para estarem atentos e não terem receio de pedir ajuda. Estamos cá para isso”. E para quem quer ajudar, saiba que a melhor recompensa é ter a noção de que, “ao apadrinhar uma criança, se está a realizar o sonho da sua família , que é o de iniciar o tratamento do seu filho”. E ter a certeza de que – e os voluntários da Capiti sabem-no bem – “quanto mais se dá, mais se recebe”.

Saiba mais sobre este projecto em https://observador.pt/seccao/feeling-the-movement/