Pode marcar, pode não marcar. Pode assistir, pode não assistir. Uma coisa é certa: desde o empate a dois com o Atl. Madrid no arranque da Liga dos Campeões, quando Cristiano Ronaldo está em campo, a Juventus ganha. Ganha nem que seja pela margem mínima, como aconteceu nos últimos cinco encontros entre Serie A e Champions. E esse tem sido o principal foco de análise ao conjunto orientado por Maurizio Sarri: quando conseguirá a equipa chegar ao ponto em que ganha de forma convincente, sem estar sujeita a sofrer o empate nos últimos minutos?

Os testes têm sido vários. Com laterais mais defensivos, com elementos de cariz mais ofensivo que recuam mas que funcionam quase como alas. Com duplo pivô no meio-campo, com uma só referência e dois médios interiores. Com jogadores mais de ala a procurar o jogo por dentro, com jogadores que começam no corredor central e que tentam combinar por fora em triângulo pelos flancos. Com dois avançados assumidos, com um ‘9’ e um segundo dianteiro a jogar mais nas costas. Apesar das vitórias, que asseguram a liderança do Campeonato e o primeiro posto na Liga dos Campeões, Sarri parece ter mais dúvidas do que certezas. E isso chega também ao português.

Em Moscovo, frente ao Lokomotiv, Ronaldo estava naquela que assumiu ser a sua praia: os jogos da Champions, os grandes palcos, a principal competição europeia de clubes. Se fosse por ele, era ali e só ali que jogava por gostar da pressão, do desafio, de enfrentar os melhores. E tinha um recorde em vista, mais um, aos 34 anos: marcar ao 34.º adversário diferente na Liga milionária, o que permitiria alcançar mais um registo na carreira daqueles que são tantos que levaram à criação de uma página na Wikipédia (“Lista de títulos e prémios recebidos por Cristiano Ronaldo”), em inglês, espanhol e português, que obriga a fazer vários scrolls até chegar ao final.

O objetivo ficou a centímetros de surgir logo aos quatro minutos. Literalmente. E de uma forma, no mínimo, algo caricata: apesar das críticas que têm aparecido pela quebra de rendimento do português na marcação de livres diretos, Ronaldo continua a arriscar e, numa bola parada descaída sobre o lado esquerdo, rematou forte para um erro crasso de Guilherme, que deixou passar por entre as pernas quando tentava agarrar. Ainda assim, e quando a bola se encaminhava para a baliza, Ramsey foi ainda confirmar o golo em cima da linha, ficando depois a apontar para o número 7 como que dizendo que tinha sido do avançado… que não foi (4′).

A vantagem madrugadora poderia ter dado outras condições à Juventus para fazer uma gestão mais controlada da partida mas a forte reação do Lokomotiv esfumou essa possibilidade, com Aleksei Miranchuk a empatar o encontro na recarga a um cabeceamento que acertou no poste (12′) depois de um remate perigoso de João Mário pouco por cima (6′) e de nova oportunidade do avançado russo, que saiu a rasar a trave (21′). Mesmo com um meio-campo em losango mais de combate, com Pjanic, Khedira, Rabiot e Ramsey a fazerem Sarri abdicar de jogadores mais de ala, era no corredor central que os visitados ganhavam vantagem e ficavam perto da reviravolta.

Higuaín, em dois momentos, obrigou a intervenções apertadas de Guilherme ainda antes do intervalo, devolvendo ao guarda-redes a confiança perdida pelo lance madrugador, e seria nos primeiros minutos do segundo tempo que apareceria a defesa da noite, a um remate de Ronaldo na área que foi desviado para canto (56′). No entanto, mesmo depois de ter arriscado um pouco mais com a entrada de Douglas Costa, aquilo que Sarri viu foi Krychowiak a ver o 2-1 evitado por Szczesny e, na sequência da jogada, Bonucci a salvar na linha o golo de João Mário (77′).

A incapacidade da Juventus em criar oportunidades surpreendia mas o momento mais surpreendente ainda estava para surgir: a oito minutos do final, Sarri decidiu manter Higuaín em campo e substituir Ronaldo por Dybala, o que deixou o português espantado, até com cara de poucos amigos quando se cruzou com o treinador. No entanto, o técnico acabaria por sair em festa de Moscovo, com Douglas Costa a marcar o 2-1 no final dos descontos após uma grande jogada de combinação com Higuaín, carimbando o triunfo e a passagem à fase seguinte da prova com dez pontos, mais sete do que os russos e dez do que o Bayer Leverkusen (que ainda não jogou).