Alfredo Cunha está prestes a fazer cinquenta anos de carreira na fotografia, mas já lá vamos. Primeiro, as mulheres — e, em especial, as da sua vida. Depois a infância, a velhice e tudo o que vem nas alturas destas grandes efemérides (já explicamos o porquê). É que esta quinta-feira, dia 7 de novembro, é inaugurada no Torreão Poente da Praça do Comércio, a exposição “O Tempo das Mulheres”, que poderá ser visitada até dia 12 de janeiro de 2020. Com ela vem um livro, que reúne cerca de 400 fotografias de mulheres em mais de 20 países, com textos — e título — de Maria António Palla. O que as une, o que as diferencia, desde o seu nascimento até à sua morte, porque é assim que este álbum está dividido: infância, adolescência, idade adulta e velhice (agora sim, está explicado).

“Este foi um desafio da Maria Antónia, que queria que eu fizesse algo sobre as mulheres e deixasse, por um pouco, ‘as coisas da guerra e dos homens barbudos’. E, na verdade, nunca pensei que tivesse tanta fotografia de mulheres em todas as áreas da sociedade, de militares a prostitutas, todo um universo feminino”, conta Alfredo Cunha ao Observador. Revisitar o passado dá-nos, por vezes, a oportunidade de aprender algo de novo. Foi o que aconteceu com Alfredo ao revisitar estas fotografias — tiradas entre 1970 e 2019 –, que fazem parte de um espólio de cerca de três mil fotografias. “O que me apercebi, só depois de ver as fotografias, é que a mulher é um pilar da sociedade. Aquilo que era um papel muito subalterno tornou-se essencial. E agora cada vez mais, da política à ciência. Aliás, elas já eram essenciais! Nós, homens, é que, por vezes, não vemos ou não queremos ver”, explica. Olhando para estas fotografias, há outra coisa à qual o público deve estar atento:

“Sim, o ponto de união é serem mulheres mas existe outra coisa: elas estão sempre numa posição determinante. Há sempre uma participação na sociedade. Ou a cuidar dos filhos, ou a trabalhar, ou protestar ou a fazer algo relacionado com a sua religião.”

Sendo incapaz de escolher só uma fotografia, Alfredo também é incapaz de dizer que se sente mais feminista depois de finalizar este projeto. “Não, a minha atitude perante as mulheres não mudou. Reforçou foi a minha atenção sobre elas. Tornaram-me mais atento” remata. “Atenção”, palavra importante na sua vida. É que a sua mãe — cujo retrato abre este álbum, com uma dedicatória especial — incutiu-lhe a atenção às outras pessoas, o estar pronto para qualquer dificuldade. Ou para fazer o disparo fotográfico quando o tempo assim o exige. Na Amadora, na China, em Moçambique, na Índia e em tantos outros sítios, nessa “tão longa marcha” (é nisso que fala o primeiro texto de Maria Antónia Palla) do universo feminino até ao século XXI.

A capa do livro “O Tempo das Mulheres”, edição da Tinta-da-China (publicado no dia 15 de novembro)

Por falar em Maria Antónia, convém trazê-la para esta conversa. Pelo trabalho que também fez em “O Tempo das Mulheres” e para percebemos um pouco desta amizade tão especial que une um fotógrafo e uma jornalista, que começou em 1972, no jornal “O Século”. “O primeiro trabalho dele foi comigo e foi um fiasco. Ele só tinha experiência como fotógrafo, por causa do pai, e não como repórter. Mas este trabalho não tinha interesse nenhum. Era sobre uma casa onde o Luís de Camões supostamente tinha vivido, só que ninguém se lembrava onde era”, conta a jornalista, a rir-se, pelo telefone. Ambos são hoje amigos, já foram colegas de trabalho e começaram como chefe (a Maria) e funcionário (o Alfredo). Uma relação franca, feita de muita crítica e honestidade. E trabalho, sobretudo trabalho, dizem-nos.

“Ele aprendeu muito depressa. No fim do primeiro ano ganhou um prémio interno lá no jornal. Eu, que era jurada, convenci os outros jurados a votar nele. Tinham medo por ser muito jovem e eu disse-lhes: ‘ser jovem não é pecado’, e eles lá concordaram”, conta.

Chegamos a 2019 e Alfredo, que sem Maria Antónia “seria um fotógrafo banal” (palavras do próprio), resolve fazer-lhe um desafio: o livro só existe se a Maria escrever os textos, e não um mero prefácio. “Foi um trabalho difícil para mim, porque estas fotografias são coisas que não vivi, onde não estive. Mas é um belo livro”.

Para Maria Antónia, projetos destes são sempre importantes, apesar de saber que a luta feminista, com todas as suas conquistas, ainda tem muito para fazer. “Não acho que movimentos como o #metoo sejam positivos ou negativos, só o futuro dirá. É que ser feminista não é só por fases. Enquanto as mulheres não afirmarem a sua diferença, dentro da igualdade de direitos, em relação aos homens, vão continuar a alcançar lugares de poder como se fossem elas próprias homens”, revela. E isso, para Maria Antónia empobrece a luta a favor da igualdade de direitos.

Além deste álbum e da exposição, nos próximos meses haverá conferências e outros eventos para conhecermos melhor as histórias que encontramos nestas fotografias. Ah, e falta falar dos cinquenta anos de carreira do Alfredo. Sim, porque este artigo é sobre as mulheres da vida dele, mas o homem também tem interesse. Não se escapa assim tão facilmente.

“Já me resolvi com a ideia de não querer ser fotógrafo. Até já tenho uma nova teoria que é a de que, ao fim destes cinquenta anos, agora sinto que já acabei a fase de aprendizagem, já posso começar realmente a minha profissão”.

Hoje faria melhor muitos dos trabalhos que fez, porque ganhou outra maturidade. Apesar de ter saído do jornalismo, “zangado com os patrões”, e por achar que a imprensa já não está interessada nas suas fotografias, garante que arrumar a lente é coisa que nem sonha. Porque existe a internet, as redes sociais e outros projetos editoriais que quer fazer. “Vou ser fotógrafo até poder. Acho que os fotógrafos não deviam ter carreiras tão curtas”, garante. Falta uma palavra para as mulheres que habitam este projeto e, no fundo, toda a sua vida. “Acho que este álbum é uma homenagem às mulheres da minha vida. Sempre estive rodeado delas”, finaliza.