O Facebook travou o acesso dos programadores de aplicações aos dados dos utilizadores numa tentativa de reprimir o aparecimento de redes sociais potencialmente rivais. Mas, perante o público, mascarou essa estratégia como uma forma de garantir a privacidade dos clientes. O “Plano Switcharoo”, assim o batizou o próprio Facebook, está explicado numa série de documentos confidenciais que foram revelados esta quarta-feira.

Esta revelação está entre os quatro documentos em formato PDF enviados anonimamente a Duncan Campbell, jornalista de investigação e especialista em ciências forenses computacionais. Duncan analisou sete mil páginas de dados que foram preparadas para uma ação judicial que está a decorrer no tribunal no estado norte-americano da Califórnia e que evolve a Six4three LLC, que desenvolve aplicações, e o Facebook. Mais de 1.200 páginas estão carimbadas como “altamente confidenciais”.

No primeiro dos documentos revela-se o envolvimento de vários altos cargos da empresa Facebook Inc. na construção de uma narrativa que torne válida a decisão de selar os dados dos utilizadores daquela rede social aos responsáveis por desenvolver aplicações. Um dos nomes é o de Purdy Federov O’Neil, que em fevereiro de 2014 foi chamado para rever o Plano Switcharoo e comentou: “Acho que é um bom compromisso, dadas todas as restrições. E vamos ser capazes de contar uma história que faça sentido”.

Quando se apercebeu das verdadeiras intenções do Facebook, a Six4three LLC, criadora de uma aplicação relacionada com fotografias que tinha acesso aos dados do Facebook, apresentou uma queixa às autoridades. O Facebook fechou as portas à Six4three LLC em 2015, um ano depois de ter anunciado as novas restrições aos parceiros. Em 2016, essas restrições foram postas em prática. Para o público, serviam para proteger os dados privados online. Para o mercado, no entanto, pode vir a ser considerado um esquema de concorrência desleal.

O segundo documento é uma declaração do conselheiro da Six4three LLC, David Godkin, que expôs material partilhado entre a empresa e o Facebook, como comunicados, recortes de jornais e publicações feitas em blogues. Embora já tenham estado ao alcance do público, foram colocados em segredo de justiça pelo Tribunal de San Mateo, na Califórnia. Tem quase três mil páginas.

O terceiro PDF tem apenas 20 páginas e é novamente assinado por David Godkin. Segundo a descrição de Duncan Campbell, este documento “realça os argumentos legais que serão usados” pela Six4three LLC contra o Facebook, “assim como casos relevantes, estatutos e autoridades que se apliquem”. É neste documento que o Facebook é acusado abertamente de “comportamento anti-competititivo, fazer falsas representações e construir na plataforma formas de violar a privacidade dos utilizadores”.

O último documento tem 415 páginas. É nele que David Godkin explica a “importância legal dos documentos retirados dos ficheiros do Facebook”. “As notas parecem incluir números de Bates [números de página de sequência de descoberta] em execução de FB-00000001 a FB-01369111. Isso pode implicar que as notas de descoberta foram feitas ao acessar quase 1,4 milhão de páginas de arquivos e e-mails confidenciais do Facebook”, conclui a página do jornalista.