Treino de adaptação, um “infiltrado” português nas bancadas chamado Bruno Vieira há quase dez anos radicado em Trondheim, muitas golas, gorros e luvas. O tempo em Portugal nem sempre tem estado agradável à noite mas ao pé do cenário na Noruega parece um mimo, com temperaturas negativas entre os cinco e os dez graus de fazer bater o dente de frio. No meio do relvado, Paulinho, o carismático técnico de equipamentos do Sporting que um dia recebeu mesmo um prémio da UEFA entre várias distinções, continuava de t-shirt de manga curta. Para ele, não há tempo melhor ou pior, relvado mais ou menos cuidado, maior ou menor motivação – o que é para fazer, faz-se em qualquer condição e de qualquer forma. Em jogo, só houve um jogador assim: Bruno Fernandes.

Sem muito tempo para digerir os erros do último jogo em Tondela e preparar a partida seguinte com o Rosenborg, Jorge Silas, que voltou a falar na terça-feira à Sporting TV antes da viagem para a Noruega antes de Emanuel Ferro, o adjunto, ir à habitual conferência de antevisão de véspera organizada pela UEFA (até nisto os leões têm as suas nuances distintas dos demais…), abordou mais um aspeto em específico a melhorar em relação ao derradeiro encontro: a concentração, neste caso nas bolas paradas. Antes, tinha referido a necessidade de controlar o jogo. E antes tinha destacado a necessidade de sofrer menos golos. E antes ainda tinha falado na importância de haver um maior equilíbrio entre setores para surpreender e não ser surpreendido nas transições. O treinador vê a equipa a melhorar com o trabalho mas os resultados negativos não permitem que o trabalho melhore assim tanto a equipa. E esse é o principal desafio verde e branco na quarta jornada da fase de grupos da Liga Europa.

Além dos pedidos de concentração e dos alertas, houve vídeos. Muitos vídeos. Vídeos para corrigir o que é feito de errado, vídeos para explorar o mais certo no adversário. Vídeos para estancar a estatística negativa na defesa sem Mathieu (quatro jogos, outras tantas derrotas, uma média crescente de golos sofridos), vídeos para contornar os números aquém de uma das equipas mais rematadoras da Liga Europa mas que continua a perder no desafio da eficácia (44 tentativas). Tudo sem Acuña e Jesé Rodríguez, além do central francês. Tudo com o regresso de Wendel, que esteve de fora por questões disciplinares, com Bruno Fernandes, com uma nova tática que trouxe de novo os três centrais (Neto, Coates e Ilori) e permitiu voltar aos triunfos sem sofrer golos (2-0).

Ficha de jogo

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Rosenborg-Sporting, 0-2

4.ª jornada do grupo D da Liga Europa

Lerkendal Stadion, em Trondheim (Noruega)

Árbitro: Kevin Clancy (Escócia)

Rosenborg: Hansen, Hedenstad, Reginiussen, Hovland, Meling, Jensen, Lundemo, Trondsen (Helland, 78′), Asen, Soderlund e Adegbenro (Johnsen, 77′)

Suplentes não utilizados: Ostbo, Akintola, Valsvik, Tagseth e Ceide

Treinador: Eirik Horneland

Sporting: Renan, Luís Neto, Coates, Tiago Ilori; Rosier, Eduardo, Doumbia (Rodrigo Fernandes, 86′), Borja; Bruno Fernandes (Pedro Mendes, 89′), Vietto e Bolasie (Rafaek Camacho, 73′)

Suplentes não utilizados: Luís Maximiano, Miguel Luís, Wendel e Luiz Phellype

Treinador: Silas

Golos: Coates (16′) e Bruno Fernandes (38′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Luís Neto (28′) e Eduardo (59′)

Numa altura em que os leões se tornaram uma espécie de clube dos movimentos (primeiro houve o “Devolver o Sporting aos sócios”, depois apareceu o “Dar futuro ao Sporting” – ambos talhados para juntarem as assinaturas suficientes para pedir uma Assembleia Geral destitutiva, sem que se perceba ao certos os motivos necessários para sustentar a justa causa – e agora há o “Somos Sporting”, que está contra o adiamento do Congresso Leonino e quer realizar na mesma o encontro), Silas não fugiu a essa onda e criou também um movimento – “Sporting alternativo por um Sporting certo”. Um movimento que foi mais uma vez interpretado da melhor forma por Bruno Fernandes, que de manga curta aqueceu uma equipa segura mas que se deixou congelar no segundo tempo perante os seis graus negativos que se faziam sentir na Noruega (até mais do que o próprio Rosenborg…).

Depois de um início de jogo tranquilo, com o Sporting a não ter problemas em congelar a bola entre os três centrais quando estava em ataque organizado e não encontrava espaço para fazer chegar à zona de construção, os leões foram conseguindo ganhar metros a partir do momento em que tudo começou a chegar a Bruno Fernandes, fosse na exploração da profundidade, fosse no aproveitamento da subida dos laterais para explorar outros corredores. Luís Neto, num cabeceamento meio atabalhoado após canto, teve a primeira tentativa à baliza por cima (10′) antes de Bolasie trabalhar bem na esquerda, rematar colocado e Hansen fazer a primeira defesa (15′). No seguimento do canto, Sebastian Coates inaugurou o marcador após assistência do também central Neto (16′).

Depois da maré de azar entre penáltis cometidos e autogolos, o uruguaio começou a acertar na defesa e na baliza certa, sendo já o terceiro melhor marcador dos leões esta temporada (atrás de Bruno Fernandes e Luiz Phellype). Mas mais do que inaugurar o marcador, Coates funcionou como desbloqueador de uma exibição que, dentro da segurança, ainda tinha tiques de medo. Söderlund, num livre direto que teve ainda recarga de Hovland por cima, ainda assustou Renan Ribeiro mas o Sporting conseguiu impor o seu jogo e, já depois de um remate de fora da área à figura de Hansen (27′), Bruno Fernandes recebeu na área um passe de Doumbia após recuperação em zona alta, teve tempo para escolher o pé para marcar e não perdoou a sete minutos do intervalo.

Trondsen, com um remate disparatado por cima na área quando tinha todas as condições para marcar, falhou na melhor oportunidade dos noruegueses na primeira parte e confirmou também nesse lance como um momento pode retratar uma época. Falhada, precipitada, azarada. Aquela ideia de Rosenborg dominador na Noruega, quase como se fosse a única equipa do país com legitimidade para reclamar um lugar na Liga dos Campeões, esfuma-se olhando para o atual quarto lugar no Campeonato, a 14 pontos do líder Molde. No entanto, existe algo transversal às equipas escandinavas que nunca se deve descurar: o respeito pelo jogo. Como voltou a acontecer.

Durante 25 minutos a seguir ao intervalo, o Rosenborg conseguiu quase 70% de posse, instalou-se no meio-campo contrário, explorou em variadas ocasiões o espaço existente na direita do ataque entre Tiago Ilori e Borja (que nem o tempo conseguiu corrigir) mas falhou sempre na tentativa de criar oportunidades para o último toque, de tal forma que Renan Ribeiro, à exceção de alguns cruzamentos a tirar a bola na área, pouco ou nenhum trabalho foi tendo. Lá na frente, a ligação entre setores deixou de ser feita e no único lance que podia levar algum perigo Vietto foi carregado por Hovland na área sem que o árbitro escocês assinalasse qualquer infração.

Luciano Vietto, aproveitando um erro na saída dos noruegueses, viu Hansen evitar com a cara o 3-0 (81′), Renan Ribeiro fez a única defesa do jogo após uma bola ao poste de Lundemo (85′) e o encontro terminaria mesmo como tinha chegado ao intervalo, naquele que foi o terceiro triunfo do Sporting na Liga Europa e que valeu a ascensão ao primeiro lugar do grupo D, com mais dois pontos do que PSV e LASK Linz. No entanto, aquilo que poderia ser uma vitória tranquila e por uma margem muito mais folgada tornou-se num triunfo construído em 45 minutos e com uma segunda parte com pouco ou nada para contar. Com outro tipo de adversário e noutro tipo de contexto, a inexistência ofensiva depois do intervalo pode ter consequências com outro tipo de impacto.