Pela primeira vez o Partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) tem um grupo parlamentar e Inês de Sousa Real, 39 anos, jurista, mestre em Direito Animal e Sociedade, foi a escolhida para o liderar. Em entrevista esta quinta-feira ao Direto ao Assunto, das Manhãs 360º da Rádio Observador, revelou que é já na próxima terça-feira, 12 de novembro, que o PAN vai sentar-se com o Governo PS para discutir o Orçamento do Estado (OE). Não sem antes fazer a ressalva: é a partir da próxima semana que António Costa vai começar a reunir com os partidos de esquerda, sim — “Com os partidos de esquerda e com o PAN, que é um partido progressista”.

Questionada sobre os assuntos que tenciona abordar daqui a cinco dias, na discussão do OE, Inês Sousa Real respondeu com a necessidade de que “os orçamentos comecem a ser sensíveis a questões como a igualdade de género”, nomeadamente no que diz respeito à igualdade salarial, e também que “tenham uma sensibilidade em termos de pegada ecológica”.

Defendeu ainda o incentivo fiscal para empresas que exibam boas práticas ambientais, e o fim de isenções para as empresas ou atividades que sejam “lesivas” para o ambiente ou atentem contra o bem-estar animal, uma das principais bandeiras do PAN. “Falo, por exemplo, da questão do IVA da tauromaquia, em que temos hoje uma taxa reduzida, quando por exemplo um médico veterinário ou o pagamento das despesas alimentares com animais de companhia têm um IVA agravado a 23%“, explicou. “O Orçamento do Estado está a mais do que a tempo de dar este passo, que não é apenas simbólico, é um passo efetivo. Não faz sentido estarmos a beneficiar uma atividade em detrimento de tantas outras, se pensarmos noutras atividades, noutros profissionais que não têm um IVA reduzido, há de facto um desequilíbrio do ponto de vista da igualdade social.”

Se no início da entrevista à Rádio Observador fez questão de se demarcar da esquerda, a meio Inês Sousa Real afastou-se da direita, afirmando outra das vontades políticas do partido: lutar pelo restabelecimento de serviços públicos de qualidade. “Não defendemos, ao contrário da direita, uma intervenção mínima do Estado. Achamos que há bens essenciais, como o Serviço Nacional de Saúde, que têm de ser garantidos pelo Estado”, disse, aproveitando para questionar o programa de governo do PS, que considera “pouco ambicioso, não só em matéria ambiental mas também social”.

Depois, questionada sobre se, chamada a votar o OE, optará pelo chumbo ou pela aprovação, não quis comprometer-se, alegando falta de informação suficiente sobre os planos do Governo: “Não somos um partido ainda com uma expressão consolidada da nossa democracia, temos consciência de que temos de negociar medida a medida, orçamento a orçamento”.

Já sobre o Aeroporto do Montijo, a líder parlamentar do PAN não tem dúvidas: trata-se de um erro que o partido não faz tenção de aceitar. Pelo menos não sem contestar junto do Governo e apontar noutras direções — “Existe uma oportunidade que estamos a perder de apostarmos no interior do país, com a base de Beja”.

É uma opção desastrosa para o país. Tivemos oportunidade de questionar já o primeiro-ministro a esse respeito, soubemos também que vai ser interposta pelas associações não governamentais uma providência cautelar para impedir a construção do aeroporto. Não faz sentido a opção que o Governo tomou em relação ao aeroporto no Montijo, também não concordamos com a opção Alcochete. Não só estamos a penhorar um ecossistema único no nosso país, como também estudos recentes dizem-nos que é uma zona que vai ser alagada, vai haver uma subida de águas e portanto estaríamos a afundar todo o investimento económico naquele local”, argumentou. “Vamos tentar dialogar com o Governo para perceber se existe a possibilidade ou não de voltarem atrás com a decisão. Parece-nos difícil que voltem atrás, talvez porque muitas vezes isso é encarado como um sinal de fraqueza e não com a humildade que temos ter em política quando percebemos que estamos a tomar uma decisão que vai penhorar o futuro do país no futuro, não só do ponto de vista ambiental como também económico.”

No final, sobre a possibilidade de acabar com o consumo de carne na Assembleia da República, como defendia de resto o programa de governo do PAN, através da abolição da proteína animal em todas as refeições oficiais do Estado, Inês Sousa Real respondeu ao lado: “O menu do parlamento já tem uma opção vegetariana. Aquilo que é importante é que as pessoas estejam despertas para a necessidade de reduzirem o consumo de carne, por questões de saúde e também ambientais, e por fazerem consumos mais saudáveis, nomeadamente reduzirem o consumo de açúcares”.