A bitola de António Costa é o pré-crise. É a esse nível que quer ver regressar os salários em Portugal. Foi isto que foi dizer aos socialistas de Lisboa, num plenário com militantes no Hotel Altis, onde definiu prioridades para esta legislatura. À cabeça está a questão salarial e avisa que quer negociar cada passo com os parceiros sociais, chamando à responsabilidade não só os patrões mas também os sindicatos.

“Tem de haver um aumento geral do conjunto dos salários, de forma a que o peso dos salários no conjunto do PIB se aproxime do que existia antes da crise“, disse António Costa marcando uma fasquia para a negociação com os parceiros que, na próxima semana, não só vai fixar o valor para o salário mínimo do próximo ano, como também vai estabelecer um calendário para uma negociação que vai além desta. “Um acordo que respeita à política geral de rendimentos”, definiu o líder do PS.

É aqui que Costa quer “um maior equilíbrio na riqueza produzida entre os ganhos das empresas e a remuneração do trabalho de quem permite às empresas ganhar o que estão a ganhar”. E nesta legislatura, pretende que se atinja o patamar que existia antes do primeiro ano em que existiram cortes salariais, 2010 — em 2009 ainda houve aumentos salariais da função pública.

O líder socialista refere-se ao indicador da Comissão Europeia relativo ao “peso ajustado dos salários na economia” que, nos anos da crise chegou a estar em valores abaixo dos 60%. Em 2008 e 2009, os dados da Comissão apontam para um peso de quase 65% do PIB. É aqui que Costa quer voltar a estar agora.

Perante os socialistas presentes na sala do Altis onde festejou a vitória eleitoral há pouco mais de um mês, o líder do partido que também é primeiro-ministro chamou a esta negociação todos os parceiros sociais. E “os parceiros não são só as confederações patronais. São estes mas também os sindicatos e é a todos que devemos saber ouvir e decidir em função das condições existentes”. E isto, porque segundo afirmou nesta sessão, “não podemos ter aumentos com pés de barros. Têm de ser sustentados pelo crescimento e também têm de ser eles mesmos motores do crescimento económico”.

O “bom diálogo social” que, prega aos socialistas, também quer ver acontecer dentro das empresas. Costa sublinhou mesmo a necessidade “de um bom diálogo social nas empresas, a dinamização da contratação coletiva e o esforço de concertação”. E voltou a referir-se a todos os parceiros sociais como “parte integrante do processo”.

O outro objetivo fixado é o aumento dos salários dos jovens licenciados cujos valores “caíram significativamente em comparação com a generalidade das remunerações do início da crise”, um sinal “fatal” para as novas gerações.

E, por fim, o salário mínimo nacional, que no discurso de tomada de posse disse que quer que atinja os 750 euros em 2023 (fim da legislatura). Não precisa de negociar com os parceiros (o valor é decretado pelo Governo), sublinhou no plenário com os militantes, mas assume o dever de “promover o diálogo”. Para o crescimento económico, o socialista diz ser “fundamental que quem trabalha sinta que há maior justiça na repartição da riqueza criada”, dizendo ser necessário começar precisamente por quem ganha menos.

Aqui nota que na última legislatura, o salário mínimo subiu 20% e cita o Instituto Nacional de Estatísticas para dizer que “o conjunto dos salários médios subiu 11,3%”. Quer atacar nas duas frentes, mas avisa assume desde já que os 600 euros atuais de salário mínimo estão “aquém das necessidades”.