Afinal, as notícias sobre a morte de Mohamed Ennaceur, ex-presidente interino da Tunísia, eram manifestamente exageradas. Depois de o mundo ter noticiado o desaparecido de Mohamed Ennaceur, o próprio entrou em direto numa rádio tunisina para desmentir o suposto óbito: “Bom dia, bom fim de semana. Estou bem de saúde e estou a preparar-me para comer uma assida”, disse o ex-presidente na Mosaique FM referindo-se a um prato típico muçulmano.

A notícia da suposta morte de Ennaceur correu o mundo. Por cá, a Agência Lusa escreveu uma notícia, publicada pelo Observador esta manhã e por outros órgãos de comunicação social do país, citando “a imprensa local”. Dizia que Mohamed Ennaceur tinha morrido num hospital militar em Tunes, capital da Tunísia, para onde tinha sido transferido durante a noite devido a um “mal-estar”. Afinal, a imprensa local estava errada. E, aos 85 anos, Mohamed Ennaceur está vivo. E, segundo o próprio, “bem de saúde”.

Significa isto que Mohamed Ennaceur pode entrar para a peculiar “lista de obituários precoces” que a Wikipédia mantém na internet. Um dos casos mais famosos é o de Mark Twain. Em 1897, um jornalista foi até casa do humorista para apurar se estava ou não doente. A notícia nunca foi publicada, mas Mark Twain reagiu aos rumores da através do The New York Journal: “Os relatos da minha morte foram um exagero”, disse ele. A frase tem sido mal citada ao longo do tempo, até chegar à versão mais famosa, que inspira o início deste artigo: “As notícias sobre a minha morte eram manifestamente exageradas”.

A história repetiu-se dez anos mais tarde, em 1907, quando o The New York Times noticiou que a embarcação em que Mark Twain viajava podia ter afundado, matando o humorista. Na verdade, o barco apenas tinha sido apanhado no meio do nevoeiro e Mark Twain conseguiu viajar com tranquilidade até ao porto, onde desembarcou. No dia seguinte, voltou a reagir com humor: “Posso garantir aos meus amigos de Virginia que vou fazer uma investigação exaustiva às notícias de que me perdi no mar. Espero sinceramente que não haja fundamento para elas”.

Mohamed Ennaceur era presidente do parlamento tunisino quando assumiu interinamente a presidência do país, em 25 de julho, horas depois da morte do então chefe de Estado, Beji Caid Essensi. De acordo com a Constituição tunisina, Ennaceur podia exercer o cargo de presidente interino durante 45 a 90 dias, o que obrigou a antecipar em dois meses as eleições para a presidência, que estavam previstas apenas para o final do ano.

No dia 23 de outubro, dois dias antes de atingir o limite previsto na Constituição, Ennaceur transferiu os poderes para o novo Presidente eleito, o jurista independente Kaïes Said. Membro do partido do governo Nidaa Toune”, foi eleito presidente do parlamento em 2014. Antes tinha exercido o cargo de ministro dos Assuntos Sociais em duas ocasiões, durante o regime do Preisdente Habib Bourguiba, considerado o ‘pai’ da independencia tunisina.

Artigo atualizado às 14h52 de sábado