Bolasie agarrou na guitarra e a voz de Luciano passou de triste fado a ópera (a crónica do Sporting-Belenenses SAD)

Sporting voltou a ser um camaleão tático até ganhar a cor certa quando Bolasie, num estilo meio atabalhoado, passou para a direita e Luciano Vietto bisou. Foi assim que venceu o Belenenses SAD (2-0).

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MIGUEL A. LOPES/LUSA

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Este domingo, em Alvalade, Rodrigo Fernandes foi pela primeira vez titular da equipa principal do Sporting. Este domingo, Rodrigo Fernandes tinha tudo para não estar em Alvalade – e ainda menos para estar na equipa principal do Sporting. Além de ter sido um dos poucos jogadores no passado recente que saiu da Academia mas conseguiu voltar menos de um ano depois (um fenómeno raro), o médio fez parte de uma geração sempre menosprezada em Alcochete por não ser pródiga como outras que lhe antecederam e que iriam suceder e até acabou por ser o único que dava mais nas vistas a ficar, após as saídas de Tiago Gouveia (Benfica), Félix Correia (Manchester City) ou Nuno André Cardoso (Leixões). Alheio a tudo, fez o seu percurso e teve agora mais um “prémio”. 

Campeão de juvenis em 2016/17 (com muitos reforços de primeiro ano que fizeram a diferença), depois de uma curta passagem pelo Real Massamá antes de regressar ao clube, Rodrigo Fernandes começou esta época a jogar nos juniores e nos Sub-23 antes de subir de vez às opções do conjunto principal. Já antes, nos treinos que antecedem os jogos, tinha sido testado no meio-campo leonino, no lugar de Doumbia. O africano manteve sempre o lugar no onze até ao encontro com o Belenenses SAD, mais um em que Jorge Silas voltou a justificar o porquê de se definir como um treinador “demasiado teimoso para vacilar”. E o porquê de querer mais competitividade interna.

“O nosso trabalho é aumentar a competitividade interna pois esse é o maior inimigo de uma equipa de futebol. Mercado? Tenho é de preparar os jogadores e esquecer isso. Sou demasiado teimoso para desistir de um jogador. Não há um que diga que não serve. A competitividade interna vem antes das vitórias porque se não competimos entre nós, não podemos competir com os adversários. Há opções que nem toda a gente entende mas são as minhas opções”, referiu na antecâmara do jogo. Mas mais do que ser teimoso, a virtude foi dar o braço a torcer.

Ficha de jogo

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Sporting-Belenenses SAD, 2-0

11.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Manuel Oliveira (AF Porto)

Sporting: Renan; Luís Neto (Rafael Camacho, 33′), Coates, Tiago Ilori; Rosier, Eduardo (Luiz Phellype, 66′), Rodrigo Fernandes (Doumbia, 46′), Borja; Bruno Fernandes, Vietto e Bolasie

Suplentes não utilizados: Luís Maximiano, Ristovski, Miguel Luís e Jesé Rodríguez

Treinador: Jorge Silas

Belenenses SAD: André Moreira; Tiago Esgaio, Nuno Coelho, Tomás Ribeiro, Nilton; Show, André Sousa, Robinho (Kikas, 71′); Silvestre Varela, Benny (Marco Matias, 64′) e Licá (Cassierra, 82′)

Suplentes não utilizados: João Monteiro, Ouro-Sama, André Santos e Sithole

Treinador: Pedro Ribeiro

Golos: Vietto (74′ e 81′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Rodrigo Fernandes (20′), Tomás Ribeiro (39′), Coates (43′), Tiago Ilori (60′), Licá (62′), Robinho (62′) e Renan Ribeiro (69′)

Silas entrou com três centrais, abdicou desse esquema ainda na primeira parte, reforçou o meio-campo, lançou um avançado mais posicional na frente. A equipa do Sporting foi como um camaleão que só ganhou a cor certa quando Bolasie, dentro do seu estilo algumas vezes meio atabalhoado, agarrou na guitarra e a voz de Luciano Vietto passou de um triste fado para ópera, em 15 minutos finais que fizeram o 2-0 no dérbi lisboeta. No entanto, esta voltou a ser uma equipa que, jogando em casa e sem margem de erro face à desvantagem pontual, fez apenas um remate enquadrado ao longo de quase 75 minutos. E se o futebol não é uma ciência exata, a verdade é que continuam a existir demasiadas experiências falhadas num clube verde e branco sempre à beira de um ataque.

Entre algumas baixas sobretudo no setor defensivo, o Belenenses SAD prometeu ir a Alvalade fazer o seu jogo e não podia ter cumprido mais nos minutos iniciais: logo no segundo minuto, Robinho encontrou espaço no corredor central e rematou para defesa a dois tempos de Renan; pouco depois, Licá voltou a receber numa transição rápida, encheu-se de fé mas a tentativa acabou por ser desviada pelo guarda-redes brasileiro para canto (5′). Os leões até podiam ter mais bola mas eram os azuis que percebiam melhor o que fazer com ela e iam explorando bem alguns posicionamentos deficientes no setor defensivo contrário para fazerem aproximações com perigo.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sporting-Belenenses SAD em vídeo]

Aos 20 minutos, no seguimento de um passe longo falhado de Tiago Ilori (só nesse período inicial falhou seis), ouviram-se os primeiros assobios. Assobios para a exibição e pela qualidade de jogo da equipa – ou falta dela. Mais tarde, o descontentamento foi para os habituais cânticos anti-Varandas na zona das claques mas, nessa altura, houve a primeira expressão para aquilo que se passava em campo. A noite estava fria, a exibição verde e branca era abaixo de zero: falta de ligação entre setores, erros de posicionamento em termos recuados, total inexistência no último terço de campo com Vietto muitas vezes a ter de baixar ao meio-campo para tocar na bola enquanto Bolasie corria para nada na frente. O próprio mapa de presença em campo na metade inicial parecia trocado, com aquele que pertencia ao Belenenses SAD a ser da equipa que deveria estar mais por cima de jogo.

À passagem da meia hora, o Belenenses SAD liderava em remates, em passes, em posse de bola e nos cantos, perdendo apenas nas faltas cometidas. Foi nesse momento que Silas assumiu a falência do sistema de três centrais e lançou Rafael Camacho para o lugar de Luís Neto, com o central a sentar-se no banco com um ar quase perdido e desolado sem perceber porque tinha sido ele o preterido e não Ilori. Durante curtos minutos, o jogo do Sporting ainda espevitou ligeiramente, com Eduardo a fazer o único remate enquadrado para defesa de André Moreira na sequência de um canto (35′) e Bruno Fernandes, como sempre o melhor ou menos mau, a atirar um livre direto ao lado (40′). No entanto, o intervalo chegou com um nulo que simbolizava a exibição verde e branca.

Ao intervalo, Silas voltou a mexer jogadores, trocando Rodrigo Fernandes por Doumbia, mas não mexeu muito na disposição da equipa – o que, neste caso, não significa que a equipa não tenha globalmente melhorado. Segredo? A capacidade de dar maior largura e profundidade ao jogo ofensivo, algo que foi conseguido com o adiantamento dos laterais Rosier e Borja mesmo com uma defesa a quatro para combinarem com um médio que caísse nessa zona e o elemento que ocupasse a ala. As dificuldades de construção continuavam lá mas havia outra capacidade para entrar no último terço e deixar ameaças à baliza dos azuis, como aconteceu por Rosier, Vietto e Bolasie. Golos, nada. E defesas de André Moreira também não, com os leões a chegarem aos 70′ com um remate enquadrado.

Na última substituição, Silas lançou Luiz Phellype. E se é verdade que o Belenenses SAD pouca ou nenhuma capacidade tinha revelado no segundo tempo para esticar o jogo, não tinha deixado de estar na frente na posse de bola e no número de passes, parâmetros onde o técnico leonino faz questão de liderar. No entanto, a vitória teve de contrariar esses princípios para se tornar uma realidade: a passagem de Bolasie mais para a direita, muitas vezes com Bruno Fernandes no apoio e Rosier a fazer a progressão, acabou por ser determinante para os dois golos de Vietto, que esteve sempre no sítio certo na área para fazer dois golos (74′ e 81′) e ficar muito próximo do hat-trick (82′ e 90+4′). Os azuis resistiram até onde puderam mas, ficando sem força na frente, acabaram por quebrar lá atrás. E com o congolês a funcionar como chave para desbloquear mais um jogo que começou da pior forma.

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