Sábado de manhã, num hotel do centro histórico de Guimarães, o empregado carrega nas tintas quando sugere uma ida ao Guimarães Jazz a dois turistas que lhe aparecem na receção: “É o melhor festival de jazz de Portugal”, garante. “A sério?”, espanta-se  o casal de meia-idade, que fala inglês com sotaque francês. O empregado confirma e prossegue com uma longa lista de sugestões culturais. Mais comedido na apreciação do evento é o “site” espanhol TomaJazz: “Um dos melhores festivais” do país, escreveu o crítico Pachi Tapiz, que por estes dias se encontra na cidade-berço a acompanhar o evento.

Com 28 edições ininterruptas, o Guimarães Jazz tem por certo um lugar destacado na história da apresentação de jazz ao vivo em Portugal. Para o diretor artístico, “a beleza do projeto é ter uma identidade própria, que foi construída passo-a-passo”. Ivo Martins, de 67 anos, disse ao Observador que o Guimarães Jazz “é um conceito, não é um centro comercial, não é uma coisa importada”.

A edição de 2019 arrancou na quinta-feira à noite e termina no próximo sábado, dia 16, num total de 13 concertos e 150 músicos em palco, 90 dos quais são portugueses. A abertura ficou a cargo do saxofonista americano Charles Lloyd, considerado uma lenda viva do jazz e também conhecido por ter trabalhado com B. B. King, Keith Jarrett, Beach Boys ou The Doors. Foi a segunda vez que veio ao Guimarães Jazz, depois da estreia em 2010.

Ao lado dos Kindred Spirits, onde se destacam o pianista Gerald Clayton e o baterista Eric Harland, Charles Lloyd tocou pelo menos seis temas, incluindo “Dream Weaver”, “La Llorona” e “Lift Every Voice and Sing”, este último de profundo significado histórico para negros norte-americanos, que o consideram um hino identitário.

Apesar da noite fria e chuvosa, o grande auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) esteve completo e o público apreciou aquela figura de referência, que dançou, entreteve e despertou sorrisos pela boa disposição. Fez jus à imagem de marca e manteve-se sempre de óculos de sol espelhados e gorro azul de velho marinheiro.

“Foi um espetáculo fortemente humano de um músico com 81 anos que deu tanto ao jazz”, comentou Ivo Martins no dia seguinte. “Se pensarmos que em 2017 se cumpriram 100 anos da primeira gravação de jazz, veja-se o tempo de jazz que este homem tem. Uma parte substancial da história do jazz vive com ele. São pessoas que vão desaparecer daqui a 10 ou 20 anos e depois já não há disto. São lendas, são mitos”, sublinhou o responsável.

Na sexta-feira à noite, uma mensagem política ainda mais explícita marcou o concerto do baterista Antonio Sánchez, de 48 anos, mexicano radicado em Nova Iorque. Tornou-se notado em 2014, ao compor a banda sonora do filme “Birdman”, de Alejandro González Iñárritu.

O grande auditório, nos seus generosos 800 lugares, encheu-se novamente, mas com mais público jovem do que na noite anterior. Esteve também presente José Duarte, nome histórico da rádio e da divulgação do jazz em Portugal.

Depois dos primeiros temas, Sánchez pegou no microfone e explicou que o concerto se baseava no álbum “Lines in the Sand”, de 2018, que criou com o coletivo Migration. Um álbum “sobre as experiências dos migrantes, sobre aqueles que um pouco por todo o mundo são hoje demonizados, ostracizados e alvo de disputas políticas em nome do nacionalismo e do populismo”, referiu o músico. “Assistimos hoje ao desmonoramento de uma característica humana muito importante que é a empatia e o amor pelo outro”, acrescentou, arrancando aplausos.

Ao apresentar os membros da banda que o acompanha há vários anos, fez questão de referir os respetivos países de origem: Orlando le Fleming (no contrabaixo, natural de Inglaterra, a viver em Nova Iorque), Chase Baird (saxofone e instrumento eletrónico de sopro, de Seattle, EUA), Thana Alxa (voz, nascida nos EUA e criada na Croácia) e John Escreet (piano, de Inglaterra).

“Público tornou-se nómada”

Fundado em 1992, o Guimarães Jazz foi o terceiro festival do género a aparecer em Portugal, depois do Cascais Jazz, em 1971, e do Jazz em Agosto, na Fundação Gulbenkian, em 1984. A questão de saber como é que uma proposta de nicho sobrevive em Guimarães há quase três décadas, quando eventos idênticos, incluindo no Porto, tiveram vida efémera, obteve resposta parcial nos primeiros concertos desta edição, a que o Observador assistiu: escolhas que apelaram a ouvidos treinados, mas também a um público pouco familiarizado.

“A globalização é mesmo isto: permitir que uma comunidade como Guimarães consiga fazer isto, o que admito que vai contra certas lógicas”, comentou Ivo Martins. “O festival é uma construção e tem uma história. Somos um projeto em transformação permanente, não estamos vinculados a nada, vivemos o presente de cada edição”, sublinhou.

Este antigo administrador hospitalar e conhecido colecionador de arte contemporânea está à frente do Guimarães Jazz há 24 anos, pelo que ele e a identidade do festival são já indissociáveis.

“Há duas décadas imprimimos uma matriz de abertura nas escolhas musicais e fomos de alguma forma mal entendidos. Os mais ortodoxos não aceitaram, diziam que não éramos claros nas opções, mas acho que o festival teve a premonição de se abrir”, defendeu.

Com orçamento a rondar 130 mil euros este ano (e o apoio da Câmara de Guimarães, através da cooperativa cultural A Oficina), o festival espera alguns milhares de espectadores. Além dos concertos propriamente ditos, há programação paralela com “jam sessions” depois da meia-noite no café-concerto do CCVF e na associação cultural Convívio. Além disso, há pontes com o Centro Internacional de Artes José de Guimarães e com a Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), do Porto, o que permite a colaboração de criadores e estudantes portugueses com músicos de jazz internacionais.

Ivo Martins não quis comprar o Guimarães Jazz a outros festivais nacionais, por entender que “nenhum é melhor ou pior que o outro, têm características diferentes”, e recusou a ideia de que o jazz seja apenas seguido por uma geração envelhecida. “Hoje, com a comunicação toda que há, o que é que não é de massas?”, questionou. “Temos acesso a qualquer coisa na internet e o público tornou-se nómada, gere os seus interesses caso a caso. Há uma oferta imensa, inúmeras plataformas de comunicação, conteúdos imensos. Já não há públicos fixos, porque o público da sociedade global, da hipercomunicação e do YouTube está sujeito a muitas solicitações e tem a liberdade de decidir.”

Nos próximos dias, destaca-se o concerto da big band holandesa ICP Orchestra, liderada pelo baterista Han Bennink (segunda-feira, 21h30), o saxofonista Joe Lovano, com Tapestry Trio, Marilyn Crispell e Carmen Castaldi (quarta, 21h30) ou ainda, no encerramento, o saxofonista Andrew Rathbun, com composições inspiradas na poesia de Margaret Atwood (sábado, 21h30).

Essencialmente, a linha de programação é “altamente intergeracional” e “evita repetições de instrumentos e formações, para variar o mais possível em termos de estilos, movimentos, formas de tocar e abordagens”, explicou o diretor artístico, “até porque o jazz é hoje uma linguagem em diálogo com muitas outras formas musicais”.