Nem tudo em que a Netflix toca se transforma em ouro. Veja-se “The King”, de David Michôd, uma releitura chata, entorpecente, estupidamente revisionista e ocasionalmente (mas sem querer) cómica do ciclo de peças “henriquinas” de Shakespeare (ou “Henriad”), muito em especial de “Henrique V”, e em que o humor involuntário é fornecido por Robert Pattinson num Delfim de França que fala exactamente com o mesmo sotaque pateta do soldado francês interpretado por John Cleese em “Monty Python e o Cálice Sagrado”, que do alto do seu castelo, cobre de insultos o rei Artur e os seus cavaleiros. Sempre que o Delfim de Pattinson se manifesta, ficamos à espera de ver aparecer Terry Jones e os restantes Python metidos nas suas armaduras, seguidos pelos escudeiros a bater cocos para fazer o barulho dos cascos dos cavalos.

[Veja o “trailer” de “The King”:]

Exceptuando estas pontuais cenas hilariantes, “The King” é um filme mergulhado num penoso e sisudo torpor. A riqueza do texto shakespeareano é substituída por diálogos adequados a um público mais familiarizado com “A Guerra dos Tronos”, mas o maior e mais grave dano é feito à figura de Sir John Falstaff, interpretada pastosamente por Joel Edgerton (que também assinou o argumento com o realizador), que lhe retira todo o carisma, colorido e truculência, e o priva do seu grande momento trágico. Em vez de ser friamente renegado pelo príncipe Hal no momento deste ser coroado rei, Falstaff continua com ele e é transformado no seu fiel e avisado conselheiro militar. Shakespeare deve ter dado vários mortais encarpados na tumba perante uma tão miserável e descocada deturpação da personagem, e por extensão, da sua peça.

[Veja uma cena do filme:]

Michôd e Edgerton inventam também uma absurda teoria conspiratória para explicarem o conflito entre Inglaterra e França que levou à batalha de Azincourt (recriada de forma desleixada,  com muitos choques entre umas quantas dezenas de extras metidos em armaduras de latão), e que envolve a ganância de um cortesão e grande proprietário rural inglês próximo do rei. Timothée Chalamet revela os seus limites como actor na pele de uma personagem que, no cinema, já foi interpretada por nomes como Laurence Olivier (no “Henrique V” que também realizou), Kenneth Branagh (idem) ou Keith Baxter (em “As Badaladas da Meia-Noite”, de Orson Welles). O Hal de Chalamet é monótono, desinspirado e sem pinga de magnetismo. Ninguém seguiria este reizinho insípido para um piquenique, quanto mais para uma batalha.

Os antídotos para esta carrancuda e maçadora pepineira (quase duas horas e meia que parecem durar o dobro), grosseiramente adulteradora da história original, são quaisquer dos três óptimos filmes acima mencionados. E, está claro, “Monty Python e o Cálice Sagrado”, em homenagem ao desopilante Delfim de Robert Pattinson.