Quando o pano caiu e a gigantesca camisola número nove foi revelada no topo do AT&T Center, o recinto dos San Antonio Spurs, Tony Parker levantou ligeiramente a cabeça para ver o equipamento que vestiu ao longo de 17 temporadas. Depois dos discursos de antigos treinadores, antigos treinadores, antigos colegas de equipa, Parker viu um estádio cheio de adeptos dos Spurs assistir ao retirar do número e da camisola que vestiu ao longo de 17 temporadas. Esta segunda-feira, tornou-se oficialmente parte da história da franquia de San Antonio. Mas há muito que já lá estava.

Aos 37 anos, Tony Parker tornou-se o décimo jogador a ver o próprio número eternizado pelos Spurs — e o terceiro do poderoso trio que formou com Tim Duncan e Manu Ginóbili. Ao longo de 17 anos, já que só deixou a equipa antes do último ano da carreira, em que representou os Charlotte Hornets, conquistou quatro vezes o título da NBA, esteve seis vezes na equipa de All-Stars e chegou a ser considerado o MVP das Finals de 2007. A par de Duncan e Ginóbili, é um dos nomes mais importantes da franquia no século XXI e um ídolo para milhares de jovens e adultos adeptos que cresceram a vê-lo tornar-se o recordista absoluto de assistências nos Spurs (6.829). Mas a história poderia ter sido totalmente diferente.

“Imaginem que têm uma grande entrevista de trabalho. Trabalharam a vida toda para entrar ali (…) parece promissor, certo? Só que tudo corre mal. Se calhar é o jet lag, se calhar são os nervos. Seja o que for, quando chegam à entrevista, não se estão a sentir vocês próprios. Fazem uns exercícios e…é frustrante. Porque não interessa o quanto tentam, hoje estão só lentos. Parecem deslumbrados, pouco qualificados. E depois de dez minutos, o patrão diz que já viu tudo o que queria ver. Acabou. Chega. Obrigada por teres vindo. Um pesadelo, certo? Isto foi o meu primeiro treino com uma equipa da NBA”, contou Tony Parker no texto que escreveu para o The Players’ Tribune na altura em que deixou os Spurs e rumou aos Hornets. Este treino, já com a equipa de San Antonio e já com Gregg Popovich, o treinador que acabaria por fazer dele aquilo em que se tornou, foi no processo pré-draft de 2001, quando ainda jogava em França. Apesar de ter mostrado pouco ou nada daquilo que valia, Popovich viu algo: voltou a chamá-lo e no draft, semanas depois, Tony Parker foi a 28.ª escolha e viajou até à cidade que acabaria por chamar lar.

Duncan, Parker, Ginóbili: o melhor trio da história dos Spurs é também o melhor trio da história da NBA

O antigo base, retirado desde o final da temporada passada, é franco-americano, nasceu na Bélgica e cresceu em França, tem pai afro-americano e mãe holandesa. Representou sempre a seleção francesa a nível internacional e esta segunda-feira, no AT&T Center, o lema era só um: “Merci, Tony”, obrigado, Tony. Saltou dos courts para as revistas cor-de-rosa em 2004, quando começou a namorar com a atriz Eva Longoria, com quem acabou por casar três anos depois. Entre o divórcio, as acusações de infidelidade e o caráter hiper público da separação, Parker passou rapidamente de personalidade do desporto a celebridade — uma posição onde não se sentia confortável e de onde se foi afastando, casando com uma jornalista francesa já em 2011 de forma totalmente discreta.

Com Tim Duncan e Manu Ginóbili, Tony Parker formou os Big Three dos Spurs, o trio mais bem sucedido da história da NBA, com 126 vitórias conquistadas em conjunto (o segundo trio nesta lista, com Magic Johnson, Kareem Abdul-Jabbar e Michael Cooper, registou 110). Duncan e Ginóbili marcaram presença na cerimónia de retirada da camisola de Parker e discursaram longamente sobre o antigo colega de equipa — com especial destaque para o argentino, que garantiu que tem no franco-americano “um irmão para a vida”. “Desde o primeiro dia, o otimismo e a confiança dele motivaram-me. Era contagiante. Era entusiasmante. Eu não sabia o que fazer e tê-lo ali, ver o que ele sabia fazer, com 19 anos, tornava-me otimista. Eu tinha 25 anos, ele mal tinha 20. Mas era ele o experiente. Tony, 15 anos juntos, mais de mil jogos, muitas vitórias, muitas derrotas, centenas de longos jantares e conversas no banco de trás do autocarro e acho que nunca tivemos uma discussão. Nem uma. Obrigado por tudo”, disse Manu Ginóbili. Esta segunda-feira, San Antonio disse oficialmente merci a Tony Parker. E Tony Parker disse merci aos Spurs.