“Um sentido de espetáculo herdado dos anos hollywoodescos, que temperam o imperativo de sobriedade inerente ao seu estatuto de princesa”. A nota descritiva da exposição “Grace do Mónaco, princesa em Dior”, que abriu portas em abril para antecipar os festejos dos 90 anos de Kelly, é um resumo certeiro do estilo inconfundível da mulher-lenda, quase quatro décadas depois da sua morte trágica. “Em família e na sua vida privada, Grace reencontra uma predileção pelo conforto, uma simplicidade contemporânea e um allure desportivo, recordações da sua juventude americana”, continuam, nesta extensa lista onde os adjetivos não entram em modo poupança.

Foi recente este reencontro com parte do seu espólio. Desde 1982 que a coleção pessoal da estrela que trocou o cinema pelo palácio ao selar, em 1956, a sua união com o príncipe Rainier tem sido cuidadosamente preservada no palácio real do Mónaco — foi recentemente resgatada para uma mostra evocativa no Museu Christian Dior em Granville, vila da Normandia conhecida como “o Mónaco do norte”, e onde, meses antes, se ultimaram os preparativos para a grande inauguração da exposição que revisita uma série de vestidos deste ícone da moda. A graciosidade é, aliás, uma das razões de peso para a longevidade do mito, que precisou apenas de meia dúzia de anos na indústria de Hollywood para carimbar o passaporte para um estrelato permanente.

Dos palcos da escola à meca de LA. A caminhada da miúda de Filadélfia

Grace Patricia Kelly nasceu a 12 de novembro de 1929 em Filadélfia, Pensilvânia, no seio de uma família católica influente, com origens irlandesas e alemãs. O pai, John B Kelly, era um atleta olímpico que somou medalhas no remo, enquanto a mãe, Margaret Katherine Majer, deu aulas de educação física na universidade local, a primeira mulher a ministrar esta disciplina naquela instituição. As artes corriam no sangue do clã, com o irmão Walter C. Kelly a destacar-se como estrela do vaudeville para a Metro-Goldwyn-Mayer e a Paramount Pictures, enquanto outro irmão, George, escritor e argumentista, venceu o Pulitzer e haveria de servir de mentor à sobrinha nos anos seguintes. Aos Kelly juntavam-se ainda John Jr, também ele inclinado ao desporto, Margaret, John Jr., e a irmã mais nova da casa, Elizabeth.

Parte do clã Kelly em 1948: Grace Kelly com a irmã mais nova Elizabeth e um dos irmãos, John B Kelly Jnr na regata Henley Royal Regatta @ Evening Standard/Getty Images

Pelos anos 40, Grace desfilava modelos e fazia de atriz nas peça da escola. Quando decide levar a representação mais a sério, conta com a desaprovação dos pais. A sua primeira audição acontece na Academia de Artes Dramáticas em Nova Iorque, a partir de uma cena da obra “The Torch-Bearers” (1923), do seu tio George, cuja influência acabaria por pesar na decisão de admitir a sobrinha na escola. Os primeiros anos no cinema, depois de uma escala na televisão, são no entanto insuficientes para o reconhecimento do carisma. Em 1951, com 22 anos, estreia-se de forma insípida com um pequeno papel no filme noir “Fourteen Hours”. É no rescaldo de “O Comboio Apitou 3 Vezes”, com Gary Cooper, que Kelly se decide a rumar de novo a Nova Iorque para reforçar a dose de aulas de representação.

Grace Kelly e Jimmy Stewart no set de “Janela Indiscreta”, uma produção Paramount Pictures, em 19533, em Los Angeles @ Michael Ochs Archives/Getty Images

Foi ainda no começo dos anos 50 que o realizador John Ford reparou no seu “pedigree, qualidade e classe”. E Grace acaba a fazer parte do elenco de “Mogambo”, com Clark Gable e Ava Gardner. “Mogambo tinha três coisas que me interessavam: John Ford, Clark Gable e uma viagem a África, com despesas pagas. Se tivesse sido filmado no Arizona, não teria aceitado”, terá a atriz confessado mais tarde. “Para sempre”, de George Seaton, vale-lhe nomeação ao Óscar de Melhor Atriz, num mano a mano com Judy Garland, então o rosto de “Assim Nasce uma estrela”. Longe ficavam as reticências, com a crítica a render-se ao talento da atriz, que num ano só deu cartas em três títulos. A década ficou ainda marcada pelas participações em “Chamada para a Morte” (também em 1954), do seu mestre tardio Hitchcock, com quem haveria de filmar também “Janela Indiscreta” (no mesmo ano), com James Stewart, e o derradeiro “Ladrão de Casaca”, contracenando com Cary Grant. Um enredo que a encaminhou para o cenário da riviera francesa. E que a desencaminharia de vez da Sétima Arte para pisar um palco maior.

Próxima cena: uma princesa americana no Palácio

Aos 26 anos, Grace Kelly despede-se das câmaras para viver uma história digna de enredo de filme, de imprevisível desfecho. Em abril de 1955, acompanhou a delegação americana ao Festival de Cinema de Cannes, onde haveria de ser convidada para uma sessão de fotos com o soberano príncipe Rainier III, a escassos 55 quilómetros de distância. Mas atrasos e enguiços vários atrasariam o encontro para o começo de maio desse mesmo ano, que se revelou determinante para Kelly por um ponto final na então relação que mantinha com o ator francês Jean-Pierre Aumont.

Depois de um ano de namoro, Grace e Rainier casaram-se em abril de 1958, no principado @ Getty Images

O casamento chegaria no ano seguinte, mais uma vez com uma pompa à medida de um set feito para uma produção megalómana, composta por uma cerimónia civil de 16 minutos na sala do trono do palácio monegasco em 18 de abril de 1956, e uma receção uns dias mais tarde para 3 mil cidadãos do Mónaco. Os 142 títulos formalmente granjeados por Grace foram debitados um a um e a catedral de São Nicolau assistiu à união religiosa do casal, “o primeiro evento moderno a gerar uma super atenção mediática”, definiu o biógrafo Robert Lacey. Com efeito, milhões assistiram ao grande dia pela televisão, enquanto a parada de convidados incluída colunáveis como os atores Cary Grant, Ava Gardner, e ainda Aristotle Onassis, Gloria Guinness ou David Niven. Helen Rose, da MGM, assinaria o vestido de noiva que envolveu seis semanas de trabalho.

Com dois dos filhos, Alberto e Stephanie @ Getty Images

Seguiu-se a tradicional lua de mel, ou sete semanas de cruzeiro pelo Mediterrâneo, e mais adiante os três filhos que nasceram desta aliança. Alberto, Carolina e Stephanie, a mesma que muitos anos mais tarde, num dia de setembro de 1982, foi incapaz de evitar o pior quando seguia com a mãe de automóvel. Grace sofreu um AVC,  perdeu o controlo do seu Rover, e acabaria por não resistir aos ferimentos ditados pelo acidente, que lhe afetaram fémur, tórax e cérebro.

Na fotogaleria, reveja o trajeto de Grace Kelly em alguns momentos icónicos.