O Ministério das Relações Exteriores do Brasil anunciou que o país reconhece a senadora da oposição Jeanine Áñez como Presidente interina da Bolívia.

“O Governo brasileiro congratula a Senadora Jeanine Añez por assumir constitucionalmente a Presidência da Bolívia e saúda a sua determinação de trabalhar pela pacificação do país e pela pronta realização de eleições gerais. O Brasil deseja aprofundar a fraterna amizade com a Bolívia”, lê-se numa mensagem publicada terça-feira à noite pelo Itamaraty na rede social Twitter.

Áñez assumiu o cargo numa sessão parlamentar marcada pela ausência dos representantes do Movimento ao Socialismo (MAS), do agora ex-Presidente Evo Morales, que totalizam cerca de dois terços dos assentos parlamentares do país andino.

A senadora faz parte do partido União Democrática e assumiu interinamente o cargo de Presidente interina numa sessão parlamentar sem quórum, dois dias após a renúncia de Morales, agora exilado no México, que denunciou um golpe para forçá-lo a deixar o cargo.

Segundo o ministro da Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, a senadora assumiu “legalmente” como Presidente interina e a Constituição está a ser cumprida na Bolívia.

“Interinamente, claro, acho que é importante o compromisso de convocar eleições. Então a nossa primeira perceção é que está sendo cumprido o rito constitucional boliviano”, disse Ernesto Araújo à imprensa à chegada para uma cerimónia com representantes do BRICS (bloco formado pelo Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul).

“O rito constitucional boliviano está sendo cumprido e queremos que ele contribua para a pacificação e normalização do país”, afirmou o ministro das Relações Exteriores, que também destacou o compromisso da senadora em convocar eleições.

O chefe da diplomacia brasileira já havia dito anteriormente, num comunicado, que a “renúncia de Evo Morales abriu caminho para a preservação da ordem democrática, a qual se veria ameaçada pela permanência no poder de um Presidente beneficiado por fraude eleitoral”.

A Bolívia está a atravessar uma grave crise desde a proclamação de Evo Morales como Presidente para um quarto mandato consecutivo nas eleições de 20 de outubro, marcadas por suspeitas de fraude eleitoral, denunciada pela oposição e movimentos da sociedade civil.

Os confrontos entre apoiantes e opositores do Presidente da Bolívia desde o dia seguinte às eleições causaram já sete mortos e dezenas de feridos.

Evo Morales, que renunciou após perder o apoio das forças armadas e da polícia, disse que foi emitido contra si “um mandado de detenção ilegal” e que grupos violentos invadiram a sua casa.

O Governo brasileiro, liderado por Jair Bolsonaro, divulgou o comunicado pouco tempo depois de Morales ter aterrado no México, país que lhe concedeu asilo político.

“O processo constitucional está a ser preservado na sua integralidade na Bolívia. (…) O Governo brasileiro está pronto a colaborar com as autoridades interinas da Bolívia de modo a contribuir para uma transição pacífica, democrática e constitucional”, concluiu o Itamaraty, nome como é conhecido o Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Morales, que foi eleito pela primeira vez em 2006, e que procurava agora o seu quarto mandato consecutivo, foi uma das poucas figuras da esquerda sul-americana que compareceu à posse de Bolsonaro, em janeiro deste ano.