Um dia antes de se juntar à Seleção Nacional, Cristiano Ronaldo foi substituído no início da segunda parte por Maurizio Sarri, saiu diretamente para o balneário sem passar pelo banco de suplentes e deixou o estádio da Juventus antes que o jogo com o AC Milan terminasse. Quando chegou à concentração da seleção portuguesa, o capitão era — mais do que costuma ser, mais do que aquilo a que está habituado a ser — o tema central na ordem do dia. Desta vez, porém, o motivo era a saída desagradada, a exibição apagada e as aparentes limitações físicas.

Depois do primeiro treino, em que Ronaldo treinou sem qualquer limitação, Fernando Santos pediu na conferência de imprensa de antevisão à receção à Lituânia que o capitão não fosse o tópico central da importante partida da qualificação para o Euro 2020. “Se não estivesse bem, não o tinha convocado. Obviamente toda a gente quer falar de Cristiano Ronaldo e toda a gente gosta de dar palpites sobre o Cristiano Ronaldo, porque é o melhor do mundo. Se fosse outro jogador qualquer não se falava de nada disto. Cristiano está aqui, está bem e vai jogar, não há dúvida nenhuma em relação a isso. Cristiano Ronaldo outra vez não. Peço desculpa mas não volto a falar de Cristiano Ronaldo”, disse, de forma muito clara, o selecionador nacional.

Ficha de jogo

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Portugal-Lituânia, 6-0

Qualificação para o Euro 2020

Estádio Algarve, em Faro

Árbitro: Ruddy Buquet (França)

Portugal: Rui Patrício, Ricardo Pereira, Rúben Dias, José Fonte, Mário Rui, Rúben Neves, Pizzi, Bruno Fernandes (João Moutinho, 72′), Bernardo Silva (Bruma, 67′), Gonçalo Paciência, Cristiano Ronaldo (Diogo Jota, 83′)

Suplentes não utilizados: José Sá, Beto, João Cancelo, Rúben Semedo, Raphael Guerreiro, Danilo, Podence, André Silva, Éder

Treinador: Fernando Santos

Lituânia: Setkus, Mikoliunas, Palionis, Girdvainis, Andriuskevicius, Slivka, Simkus, Kurklys (Matulevicius, 57′), Novikovas, Cernych (Kazlauskas, 81′), Golubicklas

Suplentes não utilizados: Zubas, Cerniauskas, Klimavicius, Jankauskas, Lasickas, Kasparavicius, Vaitkunas, Matulevicius, Baravykas

Treinador: Valdas Urbonas

Golos: Cristiano Ronaldo (7′, 22′, 65′), Pizzi (52′), Gonçalo Paciência (56′), Bernardo Silva (63′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Palionis (27′), Mikolinas (80′)

Mas existe um problema em tudo isto. É que Cristiano Ronaldo, sem querer, por querer ou simplesmente porque lhe é natural, acaba por ser o tópico central do dia mesmo quando já tinha deixado de ser. Esta quinta-feira de manhã, durante o habitual passeio que a Seleção cumpre nos dias de jogo, o jogador respondeu de forma sarcástica e divertida aos jornalistas que lhe perguntaram se se sentia bem. “O Cristiano está bem. Está muito bem. O saldo é sempre positivo”, atirou. E descansou boa parte de Portugal e milhões de adeptos ali para os lados de Itália.

Para lá das alegadas, aparentes e já afastadas limitações de Cristiano Ronaldo, Fernando Santos foi confrontado com diversas ausências na convocatória para este duplo compromisso. William Carvalho, Gonçalo Guedes, Rafa e João Félix estão todos lesionados e Nelson Semedo, Pepe e João Mário, que integravam a lista original, acabaram por ser dispensados também por problemas físicos. Para colmatar as ausências, o selecionador limitou-se a chamar João Cancelo e Domingos Duarte, um lateral e um central, ainda que o último tenha acabado por não incluir a lista final entregue à UEFA para o jogo com a Lituânia. Depois de uma convocatória manifestamente ofensiva — Gonçalo Paciência, André Silva, Éder, Diogo Jota, Podence e Bruma foram todos chamados –, Fernando Santos manteve essa mesma premissa na hora de escolher o onze inicial. Paciência entrava diretamente para a titularidade na frente de ataque, o meio-campo tinha Pizzi, Bernardo e Bruno Fernandes, Ricardo Pereira substituía Semedo na direita da defesa e uma das surpresas era Mário Rui, que estava no onze em detrimento de Raphael Guerreiro.

A receção à Lituânia no Estádio Algarve era então a primeira de duas finais que Portugal precisava de ganhar para garantir, por conta própria e sem precisar de mais ninguém, o apuramento direto para o Euro 2020. Ainda assim, a Seleção Nacional mantinha no subconsciente que o alinhar das estrelas poderia significar o assegurar da qualificação já esta quinta-feira, caso a uma vitória portuguesa se associasse um empate ou uma derrota da Sérvia perante o Luxemburgo. Portugal entrou bem na partida e rapidamente se percebeu que a mobilidade seria a palavra chave da atuação frente aos lituanos: Rúben Neves era destacadamente o elemento mais recuado do meio-campo, Bruno Fernandes tombava para a esquerda e Pizzi para a direita e Bernardo estava totalmente solto nas costas de Ronaldo e de Paciência.

Os primeiros minutos trouxeram um domínio português absoluto e Cristiano Ronaldo poderia ter inaugurado o marcador antes ainda dos cinco minutos, com um cabeceamento ao primeiro poste que passou por cima depois de um lance delicioso de Bernardo na direita (5′). Esse mesmo golo inaugural, contudo, apareceu apenas dois minutos depois: o capitão português sofreu falta dentro da grande área quando tentava resgatar uma bola que escapou a Paciência e converteu a grande penalidade (7′), dando corpo à óbvia superioridade da Seleção. A Lituânia, totalmente remetida ao próprio meio-campo e ao último terço do relvado, limitava-se a defender as investidas portuguesas e raramente procurava construir a partir de trás, explorando a profundidade de Golubickas e Novikovas sempre que conseguia ter posse de bola. Portugal, por seu lado, ia insistindo e criando diversas oportunidades, divididas entre Ronaldo e Paciência — o avançado do Eintracht Frankfurt estava muito envolvido na toada ofensiva portuguesa e teve várias ocasiões para fazer o primeiro golo na Seleção antes do intervalo mas acabou por pecar na eficácia.

O natural e expectável segundo golo apareceu ainda antes da meia-hora, novamente por intermédio de Cristiano Ronaldo, que registou mais uma obra de arte para a história do futebol com um remate em arco de fora de área depois de uma perda de bola da Lituânia ainda no próprio meio-campo (22′). A boa exibição portuguesa, aliada ao reduzido nível de qualidade dos lituanos, permitiu à equipa reduzir a intensidade e o ritmo depois do segundo golo — sem nunca sair do último terço adversário e a ficar inúmeras vezes perto do terceiro golo. Bernardo, totalmente vagabundo entre a faixa central, a esquerda e a direita, era o grande motor da Seleção e o principal desequilibrador, já que oferecia soluções de passe em qualquer ocasião e aparecia entrelinhas para apoiar os dois elementos da frente. Também os laterais, Ricardo e Mário Rui, estavam em especial destaque e alargavam o jogo quando esticavam todo o corredor por fora e aproveitavam as incursões de Bruno Fernandes e Pizzi por espaços interiores.

Na segunda parte, e mesmo sem que Fernando Santos tenha feito qualquer substituição, a Seleção Nacional regressou claramente já a pensar no jogo de domingo com o Luxemburgo, com um ritmo menos elevado, mais temporizado e assente na posse de bola do que na transição rápida. Ainda assim, isso bastava para destroçar uma defesa da Lituânia que permitia as entradas entre o central e o lateral, que permitia a mobilidade gigante de Bernardo Silva e que permitia espaço ilimitado a Paciência e a Ronaldo na grande área. Em menos de um quarto de hora, Portugal marcou quatro vezes, levou o resultado para a goleada e deixou a partida completamente resolvida 25 minutos do apito final.

Pizzi foi o primeiro a acertar na baliza na segunda parte, com um remate muito forte depois de um passe de Bruno Fernandes (52′); seguiu-se Gonçalo Paciência, que depois de muitas tentativas antes do intervalo conseguiu chegar ao primeiro golo pela Seleção depois de um erro do guarda-redes lituano (56′); Bernardo Silva viu a enorme exibição ser coroada com um golo, depois de um cruzamento rasteiro de Ricardo Pereira (63′); e Cristiano Ronaldo fez o sexto golo português e o terceiro da conta pessoal com um remate cruzado na esquerda depois de mais um passe de Bernardo (65′).

Fernando Santos reagiu ao engordar do resultado com duas substituições, tirando Bernardo e Bruno Fernandes para lançar Bruma e Moutinho, e perguntou a Cristiano Ronaldo se estava bem, se queria continuar e preferia descansar. A resposta foi notória: o capitão queria permanecer em campo e o selecionador fez-lhe a vontade até aos 83 minutos. Os quase 90 minutos do jogador da Juventus, depois de uma semana em que a sua condição física foi insistentemente questionada e colocada em causa, acabam por ser um statement e uma mensagem enviada diretamente para Turim e para Itália. Até ao fim, Portugal limitou-se a gerir com posse, poderia ter engordado o marcador e deixou que o relógio se arrastasse até ao apito final.

Depois de uma exibição global positiva, a Seleção Nacional parte para o jogo com o Luxemburgo com uma goleada convincente no bolso e à procura de uma vitória que garanta o apuramento para o Euro 2020 (porque a Sérvia bateu o Luxemburgo). Cristiano Ronaldo mostrou novamente que gosta de que seja tudo sobre ele, marcou mais três golos e já só está a 11 do recorde de Ali Daei que até há pouco tempo era inalcançável. Mas Bernardo Silva, que a par do capitão também teve uma semana difícil — além da derrota com o Liverpool, foi castigado pela federação inglesa devido à brincadeira com Mendy –, é o grande motor de uma equipa que ainda recebeu o estreante Diogo Jota nos minutos finais. Um e outro, os dois amigos, juntaram-se para afogar as mágoas e foram os potenciadores das prestações positivas de Paciência, Pizzi, Bruno Fernandes ou Ricardo Pereira. E são a dupla onde assentam todas as ambições portuguesas para o futuro.