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A reunião entre o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Norte e duas advogadas representantes da gerência da Cervejaria Galiza, marcada para a manhã desta terça-feira, foi inconclusiva. Moderada pelo Ministério do Trabalho para delinear como será a gestão do espaço nos próximos dias, pouco se resolveu.

Nuno Coelho, coordenador do sindicato garante não terem conseguido resposta para muitas das questões colocadas e por isso foi marcada uma nova reunião para segunda-feira. Entre as dúvidas dos trabalhadores, estão se a gerência se compromete a pagar a luz, a água e as contribuições da Segurança Social.

“Transmitimos que esta semana já foi possível pagar a totalidade do vencimento de outubro, assim como parte do subsídio de Natal que estava em falta”, garante Nuno Coelho.

O sindicalista admitiu aos jornalistas que houve um pedido para que o Estado facilite e viabilize o negócio de venda do estabelecimento, embora recuse a ideia de perdão fiscal. O Observador sabe que, na reunião, foi notória a vontade da gerência em vender o estabelecimento, até pelo valor da dívida, que ascende neste momento quase aos dois milhões de euros.

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“Têm aparecido investidores interessados na Galiza, mas não nos quiseram adiantar muitos mais. Sabemos só que existem e que tem havido reuniões entre eles e a gerência”, assegura Nuno Coelho.

Nuno Coelho assegura que até segunda-feira o funcionamento da Cervejaria Galiza vai continuar a ser assegurado pelos funcionários.

Há uma semana em auto-gestão

Os cerca de 30 funcionários da Cervejaria Galiza há uma semana que se mantêm em auto-gestão em permanência no espaço, por turnos, para garantir que o material está assegurado. O cansaço começa a fazer-se sentir. Às 6h entram os primeiros seis empregados, substituindo outros tantos que se mantiveram no turno da madrugada, desde as 2h da manhã.

Já houve necessidade de comprar carne para as francesinhas, algum marisco e cerveja. O dinheiro é gerido em caixa, num regime de dia a dia e por isso, o multibanco foi desativado para que os funcionários possam ter dinheiro vivo para pagar aos fornecedores. Ao Observador dizem que, caso contrário, não havia forma de aguentar o restaurante a funcionar desde a madrugada de segunda-feira em que, à sua revelia, a gerência estava a encerrá-lo.

Mais de 10 funcionários em ação de protesto no interior da Cervejaria Galiza

Quando António Ferreira chegou à cervejaria Galiza, na noite de segunda-feira, já havia material empacotado pronto a ser levado por uma empresa transportadora. Com a luz apagada, “vinhos, garrafas de óleo, sacos de batatas… tudo estava pronto a ser levantado”. A máquina do café estava a ser transportada e a fechadura estava a ser mudada.

A não entrada de uma das tranches do ordenado no dia habitual, a acrescentar à falta do pagamento do subsídio de Natal de 2018, foi o rastilho para a preocupação dos trabalhadores da cervejaria que tem 47 anos de existência no Porto. “Não tinham feito compras quase nenhumas, estavam a deixar os stocks quase a zero e nós apercebemo-nos de que algo se ia passar. Mas não fomos avisados de nada”, conta o funcionário ao Observador.

Delfina Amaral com alguns dos funcionários da Cervejaria Galiza, em julho de 2002.

António foi o segundo a chegar, mas rapidamente os restantes trabalhadores se organizaram para enfrentar a dona do estabelecimento. Delfina Amaral, com 87 anos e representada por uma advogada, “encontrava-se junto dos senhores que estavam a carregar o material”. António Ferreira, a trabalhar na Galiza há 33 anos, conta que “a patroa estava bastante debilitada, entrou quase em choque” quando viu os trabalhadores a entrarem restaurante dentro. Telefonou à advogada, que compareceu uma hora depois no estabelecimento.

“Chegou e perguntou o que se estava a passar. Nós dissemos: “O que se está a passar é crime e a doutora sabe que é crime”, conta António Ferreira.

Houve, nesse momento, a promessa de que a carta de despedimento ia ser entregue em breve. Os funcionários acordaram com a entidade patronal que iam manter o estabelecimento a funcionar “por conta e risco”.

A casa “com clientela de luxo”, onde até jantou Eusébio

Carlos Carneiro é o mais antigo trabalhador da Cervejaria Galiza. Com 61 anos, desde os 14 que dedica a vida ao restaurante. Está responsável pelas francesinhas, um dos pratos mais típicos ali pedidos, apesar de a falta de pessoal tê-lo tornado especialista em “clínica geral”. É normal que a memória resvale para o petisco quando lhe perguntamos como era a casa quando inaugurou. “Quando acabava um jogo, era às 400 e 500 francesinhas. Era sempre a andar”.

Entre a máquina de café e a panela do molho da francesinha, Agostinho conta que foi para ali trabalhar com 15 anos. Também é do tempo em que a francesinha não tinha queijo por cima. “Era uma sandes. Tinha só enchidos, febra, queijo no meio e molho. E não era comida à refeição”.

Alguns dos funcionários da Cervejaria Galiza ajudaram a fundar o restaurante. Nesta fotografia de 1985, estão António Matos Lopes [às riscas], que ainda hoje é empregado de mesa e Jorge Loureiro [de pé] que é chefe de mesas.

Ambos os trabalhadores recordam a demolição das instalações da fábrica da CUF – Companhia União Fabril Portuense – onde se localizava a cervejaria que serviu de inspiração à Galiza quando foi criada por três antigos funcionários da fábrica da cerveja, em 1972. Tempos aúreos de seguiram. O restaurante foi nas décadas seguintes um espaço incontornável da cidade, para quem vivia nela e para quem vinha de longe.

Por lá passaram e passam figuras públicas. Agostinho e Carlos enumeram “Armando Saraiva, Marques Mendes… O Paulo Rangel vinha cá com os pais quase todas as semanas. Figuras públicas páram cá muitas”. Mas é Luís Barbosa, outro dos funcionários, que destaca como momento marcante um autógrafo que Eusébio lhe dedicou, numa das passagens pelo restaurante.

O autógrafo que Eusébio dedicou a Luís Barbosa, um dos funcionários da Cervejaria Galiza.

“Esta casa tem uma clientela de luxo”, refere Agostinho, orgulhoso, tanto que “os clientes nem acreditam em tal situação”. Há algum tempo que a decadência é notória para funcionários e clientes. A carta foi mudada pela gerência e foram retirados pratos que tinha saída. Segunda-feira passou a ser o dia para descanso do pessoal, pelo que, segundo António Ferreira, deixou de se amealhar “cerca de 12 mil euros por mês, o valor de quatro segundas-feiras”. As dívidas são públicas, já foram da ordem dos 2 milhões de euros e nem com um PER – Processo Especial de Revitalização – houve reviravolta na conjuntura da empresa.

Agostinho considera que “há muita gente que tem dinheiro para resolver este problema. Depois das obras [há mais de 10 anos], a casa estava sempre cheia, tanto que os funcionários até tiveram de fazer as refeições para o armazém. Espero que alguém faça alguma coisa por isto”.