Já nem mesmo a Disney na sua modalidade clássica consegue resistir à influência dos filmes de super-heróis. Se em “Frozen — O Reino do Gelo” os dotes mágicos de Elsa se manifestavam de maneira tradicional, na continuação, “Frozen II — O Reino do Gelo”, os realizadores Chris Buck e Jennifer Lee não resistiram a dar a Elsa características de super-heroína. A partir de certa altura da história, a magia gelada da rainha de Arendelle passa a ter a forma de super-poderes convencionais e a própria atitude da personagem modifica-se. É como se Elsa se tivesse transformado no equivalente, no seu mundo de conto de fadas, do Frozone de “The Incredibles — Os Super-Heróis” da Pixar, menos o uniforme estiloso, mas com um “upgrade” no guarda-roupa real.

[Veja o “trailer” de “Frozen II — O Reino do Gelo:]

O filme original, estreado em 2013, transformou-se na animação mais lucrativa de sempre, originou uma versão de palco e mais produtos de “merchandising” do que é possível contabilizar, pelo que se esperaria que a Disney tivesse o máximo cuidado para que a continuação jogasse pelo seguro e não perturbasse de modo algum uma fórmula de descomunal sucesso. (Entre ambos houve uma curta, em 2015). Assim sucede com “Frozen II — O Reino do Gelo”. Embora no meio da esperada familiaridade, os autores do argumento conseguiram que, mesmo contemplando um enredo convencional de descoberta no quadro de uma viagem perigosa, este seja menos linear e um pouco mais complexo do que o do primeiro filme, também elaborando mais os elementos de “fantasy” nórdica.

[Veja uma entrevista com os atores:]

Em “Frozen II — O Reino do Gelo”, tudo parece correr normal e alegremente em Arendelle, até que Elsa começa a ouvir uma voz longínqua que a chama e mais ninguém, ouve. Pressentindo que esse chamado está relacionado com as suas origens, os seus poderes mágicos, uma história que o pai lhe contou e a Anna sobre acontecimentos terríveis e sobrenaturais que no passado envolveram o avô delas, o seu reino e um reino vizinho, e a própria sobrevivência de Arendelle, Elsa põe-se a caminho, acompanhada por Anna, Kristoff, Sven e Olaf (que se encarrega mais uma vez de 95% do alívio cómico). O destino é uma floresta encantada envolvida há décadas numa misteriosa bruma, para lá da qual poderá estar a explicação de tudo, e que é dominada por quatro espíritos que se manifestam nos quatro elementos.

[Veja uma entrevista com os realizadores:]

A jornada vai ser obrigatoriamente atarefada e ter espaço para todo o tipo de peripécias, desde uma sucessão de pedidos de casamento constantemente frustrados de Kristoff a Anna, até ao confronto mágico entre Elsa (que é, curiosamente, e até agora, a única rainha de todas as animações da Disney) e o oceano negro e revolto onde os pais morreram, até ao encontro com os Gigantes de Pedra, sem esquecer um súbito problema de consistência para Olaf. E até mesmo uma referência direta a Hans Christian Andersen, o autor de “A Rainha da Neve”, em que “Frozen — O Reino do Gelo” se foi inspirar. (O elemento “girl power” não só se mantém como é intensificado, tal como os tempos obrigam).

[Ouça a canção “Into the Unknown”:]

Já a banda sonora desta parte II não tem uma canção que se meça com “Let it Go”, do primeiro filme (que em Portugal se tornou conhecida com o título “Já Passou”), embora os compositores Kristina Anderson-Lopez e Robert Lopez, e Idina Menzel, que volta a dar voz a Elsa (assim como Kristen Bell a Anna) bem tentem ter um novo sucesso com “Into the Unknown”. Bem desarrincado é o número musical com Kristoff e Sven, em que os animadores se divertem a citar o teledisco de “Bohemian Rhapsody”, mas com renas em vez dos Queen. E por falar em animação, “Frozen II — O Reino do Gelo” é fiel à linha clássica do estúdio mas com muita estilização, incluindo duas ou três sequências feéricas. É o caso do confronto de Elsa com o mar e com o espírito aquático que toma a forma de um cavalo feito de água e gelo cristalino, digno da tradição visual da melhor “fantasy”.

A Pixar pode puxar pelos seus pergaminhos mais experimentais e vanguardistas em termos estéticos e técnicos, mas a verdade é que “Frozen II — O Reino do Gelo” não deixa os vastos e muito bons créditos da Disney por mãos – ou por efeitos digitais — alheias.