Ao longo dos anos, ao longo dos países, ao longo dos clubes e dos títulos, uma coisa nunca falhou a José Mourinho: a elegância. Mesmo durante os recados mais intensos deixados a Arsène Wenger, mesmo durante os embates mais violentos com alguns jornalistas, mesmo depois de derrotas duras e desilusões profundas, Mourinho foi sempre elegante. E esta quinta-feira, na primeira conferência de imprensa enquanto treinador do Tottenham e dois dias depois de substituir Mauricio Pochettino, Mourinho manteve a característica que nunca perdeu — e dirigiu as primeiras palavras precisamente ao técnico argentino.

“Este clube vai ser sempre a casa dele, do Mauricio. Por todo o trabalho que fez. Ele pode aparecer quando quiser. Quando tiver saudades dos jogadores, quando tiver saudades das pessoas com as quais trabalhou. A porta está sempre aberta para ele. Vai voltar a encontrar a felicidade. Vai encontrar um grande clube outra vez. Vai ter um ótimo futuro”, garantiu o técnico português, que estava sem trabalho desde dezembro do ano passado, altura em que foi despedido do Manchester United. Mourinho revelou ainda que tem estado “a sorrir durante dois dias”, em referência a terça-feira, dia em que foi oficialmente anunciada a ida para o norte de Londres.

“No que diz respeito a felicidade, estou convencido de que a minha escolha foi uma ótima escolha. O clube é gigante. Sei que tenho potencialmente um ótimo trabalho nas minhas mãos. Tinha um feeling de que ia ter um novo clube a meio da temporada. E sabia que seria uma situação em que só teria um ou dois dias antes do primeiro jogo. Não posso aparecer aqui e achar que é tudo sobre mim. É sobre os jogadores e partir de uma base de estabilidade”, que um dia chegou a dizer que nunca treinaria o Tottenham, por ser um rival do Chelsea, clube onde conquistou mais títulos em Inglaterra. “Sou o Mr. Porto e o Mr. Real Madrid e outros clubes também, sou sempre do clube em que estou. Visto o pijama do clube e durmo com ele vestido. Sou um homem do clube, mas sou um homem de muitos clubes”, afirmou.

Na conferência de imprensa que serviu para fazer a antevisão da visita ao West Ham, já este sábado, que será a estreia de Mourinho ao comando dos spurs, o português explicou ainda que é “humilde” e que estar parado durante alguns meses acabou por ser “positivo”. “Durante a minha carreira, cometi erros. Não vou cometer os mesmos erros. Quer dizer, vou cometer erros novos. Sou humilde. Sou humilde o suficiente para analisar a minha carreira e todos os problemas. Não há mais ninguém para culpar…pensei profundamente nessa análise. Não sou ninguém para aconselhar pessoas mas ter esta paragem foi muito positivo para mim. Ter o primeiro verão sem trabalhar não foi bom para mim, estava algo perdido. Mas acabou por ser bom. Até aprendi a ser especialista”, acrescentou Mourinho, em referência ao papel de comentador que assumiu nos últimos tempos.

“Sempre tive em mente que estes onze meses não eram uma perda de tempo. Foram meses para pensar, para analisar, para preparar. Nunca perdemos o nosso ADN, nunca perdemos a nossa identidade, e tive tempo para pensar sobre muitas coisas. Durante a minha carreira, cometi erros. Estou mais forte, estou relaxado, estou motivado, estou pronto e acho que os jogadores sentiram isso em dois dias. Estou pronto para os apoiar, isto não é sobre mim. É sobre o clube. Estou aqui para tentar ajudar toda a gente”, continuou o treinador. O Tottenham está nesta altura no 14.º lugar da Premier League, apenas seis pontos acima da zona de despromoção e a 20 do líder Liverpool, depois de na temporada passada ter sido quarto classificado e ter chegado à final da Liga dos Campeões.

Sobre o grupo de jogadores que encontrou no norte de Londres, Mourinho garantiu que está satisfeito com a equipa e que “não precisa” de mais reforços, revelando ainda que tentou contratar vários elementos dos spurs quando esteve ao serviço de outros clubes. Esta declaração vai ao encontro das notícias que surgiram ao longo desta quinta-feira na imprensa inglesa e que davam conta de que o treinador não fez qualquer exigência a nível de contratações à Direção do clube e só pediu a permanência de Harry Kane, capitão e principal referência do Tottenham. 

“O melhor presente são os jogadores que estão cá. Não preciso de novos jogadores. Só preciso de conhecer melhor os que cá estão. Conheço-os bem mas nunca os conhecemos bem o suficiente até estarmos mesmo com eles. Já lhes disse que uma das razões que me levaram a vir para cá foram eles. Tentei contratar alguns deles em diferentes clubes, mas não consegui. Alguns nem tentei, porque já sabia que era impossível. Mas gosto muito, muito desta equipa. A visão é tentar manter os melhores jogadores”, garantiu. José Mourinho explicou ainda que não tem como objetivo conquistar a Premier League esta temporada — mas que esse é um objetivo claro para o próximo ano.