Quando começou a trabalhar num dos mais antigos liceus dos Estados Unidos, Larry Rosenstock dava aulas aos alunos do rés-do-chão, os mais pobres da escola, enquanto que no último andar do prédio de cinco pisos se encontravam os estudantes de classes económicas abastadas. Os de cima, faziam trabalho sofisticado. Os de baixo, nem por isso. Rosenstock, que ensinava carpintaria em Boston nos anos 1960 depois de se licenciar em Direito, sentiu ali o seu chamamento e começou a querer ensinar no piso de baixo matérias mais sofisticadas do que as que eram ensinadas no 5.º andar. E percebeu que, apesar de terem poucos recursos económicos, os seus estudantes tinham elevado potencial.

A partir daquele momento, a luta contra a segregação, por etnia e por classe económica, na educação norte-americana marcou todo o seu percurso profissional e há quase 20 anos, em 2000, acabaria por montar uma rede de escolas em San Diego, Califórnia, a High Tech High. O objetivo? Dar educação de qualidade a todos, através de um modelo pedagógico inovador.

O meu desejo para o futuro da educação e dos estudantes é que haja justiça fundamental para todos. Temos de tirar proveito deste jovens brilhantes que tendem a não ser apreciados nas escolas. Não devíamos continuar a fazer isso”, diz Rosenstock no vídeo da WISE que apresenta o seu trabalho.

[Veja o vídeo de apresentação do trabalho de Rosenstock]

Esta quinta-feira, esse trabalho valeu-lhe um prémio de meio milhão de dólares e a distinção de melhor projeto educativo do ano atribuído pela WISE Prize for Education, uma iniciativa da Fundação Qatar. 

O prémio foi criado em 2011 por Mozah bint Nasser al-Missned, mulher do Emir do Qatar e presidente da Fundação, muito envolvida nas reformas sociais daquele emirado árabe. O objetivo da distinção é criar uma consciência global do papel crucial da educação em todas as sociedades, segundo as palavras da própria presidente da Fundação Qatar, e criar uma plataforma para soluções práticas e inovadoras que possam ajudar a aliviar alguns dos desafios enfrentados pela educação em todo o mundo.

Rosenstock usa metodologia de projeto, como a portuguesa Escola da Ponte

A pedagogia usada nas 16 escolas High Tech High, e que foi agora considerada inovadora, é a metodologia de projeto, a mesma que é utilizada desde os anos 1970 na portuguesa Escola da Ponte, então liderada por José Pacheco, e pelos professores que seguem o Movimento Escola Moderna. O método consiste em seguir os interesses dos alunos e levá-los a criarem os seus próprios projetos que são temporários, planeados e produtivos.

Durante o seu planeamento e produção, os alunos estão a adquirir conhecimento e competências exigidas pelos currículos, mas acima de tudo aprendem a resolver problemas. A primeira etapa é sempre definir o resultado a que se quer chegar, obrigando o estudante a planear todo o caminho e recursos necessários para atingir o seu objetivo.

“O High Tech High (HTH), fundado em 2000, rompe várias barreiras: os obstáculos ao acesso à educação de qualidade, a separação da aprendizagem académica da técnico e o isolamento das escolas da comunidade e do mundo real. A luta contra as desigualdades está no centro da missão da HTH, com escolas que matriculam os alunos por meio de uma loteria baseada em código postal”, lê-se no comunicado de anúncio do vencedor.

Para garantir que as escolas, que vão do pré-escolar até ao ensino secundário, têm uma população heterogénea, os alunos que se candidatam às escolas High Tech High são escolhidos por sorteio, através do número de código postal. E para garantir que os mais carenciados têm acesso à educação, têm uma bonificação estatística. Para isso, basta provar que têm direito ao programa governamental que oferece refeições a custo zero ou a preço reduzido a famílias que têm baixos rendimentos.

Os métodos “inovadores pioneiros” daquelas escolas norte-americanas, diz a mesma nota, ajudaram a preparar “milhares de estudantes de todos as classes socioeconómicas para o ensino superior e para a cidadania”, abordagem que permite que 98% dos seus alunos consigam ingressar nas universidades, contra uma média de 69% em todo o país.

Em 2018, o prémio WISE foi entregue a Patrick Awuah, do Gana, que co-fundou a Universidade de Ashesi em 2002, uma das principais do país. Em 2015, a laureada foi Sakena Yacoobi que, 20 anos antes, em 1995, fundou o Instituto Afegão de Aprendizagem (AIL) em 1995, para dar resposta à falta de educação e saúde no Afeganistão.

Antes destes prémios, houve mais quatro distinguidos: Ann Cotton, do Reino Unido (2014), Vicky Colbert, da Colômbia (2013), Madhav Chavan, da Índia (2012) e Sir Fazle Hasan Abed, do Bangladesh (2011).