As associações ibéricas ligadas à pesca da sardinha exigem que a quota de captura suba para 30 mil toneladas em 2020, anunciaram esta quinta-feira, em Matosinhos, após um encontro que reuniu dezenas de profissionais.

“O setor não está mais disposto a ser tratado como foi tratado nos últimos três anos. Não está disposto a reduzir mais as capturas. Queremos possibilidades de pesca de acordo com a abundância do recurso. Merecemos isso porque é uma forma de compensar os sacrifícios e esforços que os pescadores e armadores tiveram nos últimos anos, esforços e sacrifícios que estão a ter repercussões positivas no crescimento do recurso”, disse Humberto Jorge da Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco (ANOP – Cerco).

Esta manhã, no quarto Encontro Ibérico do setor da produção de sardinha, foi produzido um documento que será enviado aos governos de Portugal e de Espanha, no qual os armadores e pescadores exigem poder pescar no próximo ano 30 mil toneladas de sardinha. Este número baseia-se na certeza partilhada esta manhã de que 2020 será um ano de recurso em abundância também porque a biomassa adulta, explicaram os profissionais, está a aumentar.

Temos sintomas que nos deixam muito animados e que nos levam a exigir, juntamente com nossos colegas espanhóis, aos governos português e espanhol uma definição das possibilidades de pesca para 2020 de acordo com a abundância que está no mar e permitam ao setor sobreviver e ter uma atividade mais prolongada contrariamente ao que aconteceu em 2019″, disse Humberto Jorge.

A perspetiva de que haverá sardinha em abundância no mar é partilhada pelas associações espanholas, com Andrés Garcia, da Associação de Armadores de Cerco da Galiza (ACERGA), a referir que “esta é uma perspetiva que ultrapassa totalmente os cálculos do ICES [International Council for the Exploration of the Sea, em português Conselho Internacional para a Exploração do Mar] e dos conselhos científicos”.

“Não podemos permitir que enquanto melhora a biomassa nos deixem pescar menos. O setor assim tende a desaparecer. O aumento do recurso será uma melhoria nunca vista. Tenho 50 anos de mar e nunca vi um ano de sardinha assim. Por isso, temos de exigir aos governos aumento de quotas ou temos risco de desaparecimento total do setor”, disse o responsável da ACERGA que representa profissionais de várias localidades a norte de Portugal, sendo que neste encontro também estiveram representantes de associações de pesca da Andaluzia, Espanha.

Ainda a propósito do momento “difícil” do setor, Humberto Jorge lamentou que “nos últimos cinco anos” a pesca da sardinha se tenha visto “confrontada com reduções muito violentas”, apontando que “se passou a poder pescar um quinto do que se pescava tradicionalmente”, algo que teve, referiu, “um impacto negativo social e económico”. “Muita gente abandonou este tipo pescaria. 2019 teve descargas muito regulares, mas só tivemos 81 dias possíveis de pesca de sardinha e esgotamos a quota, porque os limites de captura eram extremamente baixos. Agora, o que exigimos, é um montante sustentável, porque não compromete a recuperação do recurso e permite ao setor respirar e sair de um colete de forças em que se encontra há cinco anos consecutivos”, disse Humberto Jorge.

Mas, confrontado com o facto da reivindicação das 30 mil toneladas poder esbarrar com as recomendações do ICES, o responsável da ANOP – Cerco lamentou que este organismo tenha “em três anos consecutivos recomendado zero” e que veja os pescadores e armadores como “o elo mais fraco”. “Se não comprometemos o futuro do recurso e usamos regra de exploração, porque é que não nos deixam pescar? Não faz sentido o recurso estar a crescer e todos os anos imporem quotas menores. A sustentabilidade não pode ser baseada num modelo matemático”, referiu.

A ANOP — Cerco também lamentou que as exigências da União Europeia (UE) “criem dificuldades” ao setor, lembrando que esta quer que “até 2020 todos os recursos estejam no seu máximo sustentável”, um objetivo que os profissionais do setor veem como “político” e que “por ter de ser atingido a qualquer custo”, prejudica a pesca. “Querem consegui-lo a qualquer custo, nem que seja a custo das embarcações e dos pescadores. Não queremos e temos de encontrar um ponto de equilíbrio. Para isso necessitamos dos nossos governos. Portugal e Espanha têm algo a dizer”, concluiu Humberto Jorge.