Aconteceu tudo muito rápido, esta quinta-feira à tarde, por volta das 15h30, minutos antes de os guardas do Reduto Sul do Estabelecimento Prisional de Caxias darem por terminado o período de pátio e encaminharem os reclusos de volta para as respetivas celas.

Em segundos, um recluso, espanhol, 40 anos, fortemente atlético, saltou a vedação de cerca de cinco metros de altura que separa o pátio da cadeia da zona de oficinas. Foi aí, enquanto passava sobre os telhados e transpunha a segunda vedação, de 4 metros, que dá acesso à zona da pista, uma faixa, espécie de terra de ninguém, que circunda toda a cadeia e está separada do exterior por outra rede, também com cerca de 4 metros, que um guarda o viu.

Desarmado, fez o que pôde: gritou-lhe que parasse e, ato contínuo, deu o alerta. O recluso, como seria de esperar, não se deteve e saltou o último obstáculo com relativa facilidade. Apesar de ter caído mal e de ter magoado um pé, continuou a correr em direção ao Tejo e desceu a encosta cheia de vegetação e canas que separa a zona da cadeia de um condomínio residencial, mesmo à beira da Avenida Marginal. Foi aí, já no interior do condomínio fechado Farol da Gibalta que foi apanhado, perto das 16h00.

Quando viu os guardas prisionais nem tentou fugir, garante ao Observador fonte próxima do EP de Caxias: “Estava combalido, pôs logo as mãos no ar. Aleijou-se num pé ao saltar a última vedação, mas não partiu nenhuma perna, como se tem escrito por aí. Foi assistido no Hospital de São Francisco Xavier durante a noite e a seguir voltou à cadeia. Tem um calcanhar fraturado“.

O EP Caxias, em cima, e o condomínio fechado onde o recluso espanhol foi capturado (Google Maps)

Em Caxias há cerca de dois meses, em prisão preventiva e a aguardar julgamento, de acordo com o Correio da Manhã por crimes contra o património, o homem era já conhecido dos guardas prisionais. Não pelos melhores motivos: “É uma pessoa problemática e conflituosa, muita dada às intrigas. Estava no Reduto Sul por isso mesmo; foi transferido para estar mais isolado e longe de confusões”, explica a mesma fonte. Entregue às autoridades portuguesas depois de ter sido capturado pela Interpol, o recluso deverá ser transferido para a prisão de alta segurança de Monsanto ainda durante a manhã desta sexta-feira.

Ao todo foram 15 os guardas prisionais que rapidamente reagiram à fuga e montaram um perímetro de segurança em torno da prisão de Caxias: “Começámos por ir em direção à estação — era o maior perigo ele meter-se num comboio e desaparecer — e depois fomos apertando em direção à zona onde o apanhámos”,  diz a mesma fonte. “Tivemos muita sorte: para além de estar a acaber um curso na prisão e de estarem lá muitos instruendos, que também ajudaram, já tinham chegado os guardas que iam começar turno às 16h00, que também foram logo atrás dele, ainda à civil“.

Dentro da prisão, todos os guardas andam desarmados, por questões de segurança. As torres de vigilância são os únicos locais onde as armas de fogo são permitidas, explicou ao Observador fonte próxima do EP de Caxias. Problema: desde maio de 2018, no reduto sul daquela cadeia, só uma das torres está operacional. “A estrutura física da cadeia não é uma estrutura-tipo: em Caxias, o perigo de fuga existe apenas para nascente. No sul há duas torres de vigia mas há mais de um ano que uma está inoperacional, o que significa que quem está na outra tem de estar atento a dois pátios, ao sul e ao norte, ao mesmo tempo. Se a torre estivesse ativa, o recluso não teria fugido”, garante a mesma fonte.

Ao Correio da Manhã, fonte oficial da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais garantiu que a fuga “foi detetada e acompanhada em tempo real por meios tecnológicos de vigilância”, mas ao Observador fonte próxima do EP de Caxias desvalorizou a ação das câmaras, em detrimento da humana. “O sistema de videovigilância, como se vê, não é suficiente. Nenhum homem consegue vigiar cento e tal câmaras ao mesmo tempo e reagir em tempo real.”