A medida aprovada na Rússia para banir do país todos os aparelhos tecnológicos, incluindo telemóveis e computador, que não tenham software russo é uma estratégia de “controlo, espionagem e geopolítica”, avisa Zak Doffman, um especialista em cibersegurança que desenvolve tecnologia de defesa e segurança nacional, na Forbes. A ideia tem sido vendida como uma estratégia para valorizar os produtos nacionais, para Zak Doffman rotula-a antes como “mais um sinal de aviso para a Rússia”.

No início do mês, a página de internet do governo russo confirmou que “a Duma Federal adotou em primeira apreciação um projeto de lei segundo o qual, quando se vendem determinados bens tecnicamente complexos, têm de ter instalados um software russo”. A lista de “bens tecnicamente complexos” que terão de obedecer a esta lei para entrar no mercado russo ainda está a ser finalizada, mas o governo já confirmou que ela inclui “smartphones, computadores e televisões inteligentes”.

Para o governo, esta é uma forma de “dar a empresas domésticas mecanismos legais para promover os seus programas para os utilizadores russos”. Mas, no artigo que assina na Forbes, Zak Doffman torce o nariz à ideia: “Seja com que governo for, a imposição de software em dispositivos para o consumidor traz riscos. E agora há especulações de que parte desse software possa trazer surpresas desagradáveis ​​— essencialmente backdoors de vigilância obrigatórios pelo governo”, avisa.

A reação ao novo projeto de lei russo, que deve entrar em vigor em julho de 2020, recorda a preocupação expressa pelos especialistas aquando da publicação da “Lei da Internet Soberana”. Segundo essa lei, os sites russos passaram a funcionar fora do sistema de internet ligado a servidores estrangeiros. Os fornecedores de internet russos deviam garantir “meios técnicos” que permitam “o controlo centralizado do tráfico” de informações no sentido de “barrar eventuais ameaças”.

Na altura, a nova legislação foi apresentada como uma medida para aumentar a “segurança informática”, embora a oposição tenha insistido que se trata de uma “tentativa de controlo de conteúdos que visa também isolar progressivamente o uso da internet na Rússia”. Agora, Zak Doffman repete essas preocupações. E sublinha: “O presidente da Rússia olha com inveja para o nível de controlo que a China pode exercer sobre sua indústria de internet e tecnologia doméstica”, escreveu na Forbes.