Keso

19h, Capitólio (Bastidores)

Tal como no primeiro dia, o hip-hop português permite um bom arranque para mais um dia, neste caso o último, do festival itinerante da Avenida da Liberdade. Também será uma boa opção arrancar com o rock dos portugueses Zarco, que apresentarão o seu novo álbum Spazutempo na Garagem EPAL, mas a classe do rap de Keso faz-nos pender novamente para os bastidores do renovado Cineteatro Capitólio. Portuense de gema, também conhecido pelo cognome “O Marginal” ou pela abreviatura KSX, é rapper e produtor musical e na sua música conjuga com excelência as duas coisas. O disco Revólver Entre as Flores colocou-o na dianteira do novo rap portuense e Ksx2016, editado há três anos e inspirado pela sua vida de emigrante em Londres e por um momento político e social de austeridade, são excelentes cartas de apresentação de um artista que tem talento performativo e teatral nos espetáculos e nas letras. O que não surpreende, dado que estudou cinema e as narrativas fílmicas também impregnam a sua música. Os temas remetem ao mesmo tempo para um certo classicismo hip-hop, até por um discurso que questiona o que o rodeia e se questiona a si, e para uma originalidade notívaga na dicção, no modo de rimar e também de cantar. Venha a língua afiada, o pensamento crítico e um estilo que não é apenas uma discreta variação de uma multitude de cópias. Venha menos auto-centrismo, venha Keso.

Marissa Nadler

20h, Palácio da Independência

Estranhamente, não têm sido muitas as oportunidades de assistir a concertos de Marissa Nadler em Portugal. A folk sombria, soturna e sóbria — mas também poética — da norte-americana começou a ouvir-se há 15 anos, no disco Balladas of Living and Dying, e desde aí Marissa tem construído um percurso sólido no meio musical alternativo dos EUA. Imaginem uma Lana Del Rey gótica, que canta baladas de tristeza e não de sonho com menos enfeites instrumentais (na base está a guitarra acústica, de vez em quando aparecem uns bem-vindos arranjos de cordas, há por vezes harmonias vocais e não há muito mais) e têm Marissa Nadler. As canções dos discos July (2014), Strangers (2016) e For My Crimes (2018) deverão estar em maioria no alinhamento do concerto, apesar de Nadler ter recentemente entrado em aventuras mais experimentais e drone, um terreno que já conhecia do início da carreira.

Curtis Harding

21h, Coliseu dos Recreios

Meta-se uma bucha rápida na boca e corra-se em direção ao Coliseu dos Recreios, porque de certeza vai valer muito a pena. Será preciso mudar o chip, da letargia folk de Marissa Nadler para o soul-rock de Curtis Harding, da escuridão interior para a festa expansiva. Se os Black Keys fossem ligeiramente mais dados à soul se calhar soariam como este rapaz que também cresceu a ouvir o rock mas que conhece bem as lições do funk, da soul enérgica e das grandes melodias. Em 2015 lançou Soul Power, em 2017 Face Your Fear — e os dois discos já lhe devem garantir um bom leque de canções para um concerto animado.

Helado Negro

22h, Cinema São Jorge

O seu álbum This Is How You Smile há-de aparecer (justamente) em muitas listas de melhores discos do ano. Helado Negro é Roberto Carlos Lange, um norte-americano de ascendência equatoriano, que vai a Portugal apresentar este álbum de melancolia doce, que não sabemos muito bem quando é triste e quando é apaziguado, mas que tem mais eficazes efeitos de relaxamento do que muitas técnicas de midnfullness. É, também, uma belíssima porta de entrada para o concerto de Slow J, que, convenhamos, podia começar um pouco mais tarde.

Slow J

22h30, Coliseu dos Recreios

O seu álbum de estreia, The Art of Slowing Down, tornou-o a nova coqueluche do hip-hop nacional, embora Slow J não se limite às rimas. Aí, o jovem João Batista Coelho espreiava-se por todas as linguagens de que era fã com acerto, da canção íntima, acústica e romântica às rimas agressivas (“Último Empregado”), dos ritmos afro-dançantes de “Mun’Dança” ao hip-hop confessional e voltado para dentro de “Às Vezes”. Este ano, sem anúncio prévio, Slow J lançou o seu segundo álbum, You Are Forgiven. É já outra coisa: o reflexo de um artista novo, que depois de todos os quilómetros percorridos de norte a sul, depois da paternidade e depois da entrada no “circuito musical”, optou pela reclusão, pelo silêncio e pela música maioritariamente introspetiva. O disco é mais coeso, as canções dialogam mais entre si, mas há sempre espaço para guinadas e mudanças de direção, são é mais suaves. A produção musical e a ligação das batidas com a voz é prodigiosa, tornando You Are Forgiven um disco que terá o seu lugar cimeiro na história não só do hip-hop, mas da música nacional. Como é que isto resulta em concerto? Pois é isso que vamos querer ver, mas atuações anteriores em grandes salas e grandes festivais deixam água na boca para esta estreia (em nome próprio) no Coliseu dos Recreios. É verdade que a seguir ainda há Viagra Boys na Estação do Rossio, Balthazar no Cinema São Jorge e Haute para dançar no Coliseu, mas será difícil não dar aqui o festival por encerrado com chave de ouro.

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