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A primeira tentativa desta entrevista falhou e temeu-se o pior: se calhar John Darnielle não queria falar com o fã português. Uns dias depois, nova tentativa. Do outro lado atende-nos alguém super bem-disposto que não parece conhecer fim para as suas frases. Cada uma vem com a voz de alguém que está a contar uma ótima história. Não é surpresa quando se conhece o universo dos The Mountain Goats e as suas quase três décadas de álbuns, mas é diferente imaginar a ouvir em discurso direto, mesmo que seja por uma linha telefónica. Os The Mountain Goats tocam pela primeira vez em Portugal no próximo dia 24 de novembro, domingo, no Lisboa Ao Vivo. Na bagagem trazem In League With Dragons, um álbum produzido por Owen Pallett, que começou por ser uma ópera rock.

Fiquei algo surpreendido por reparar que nunca tocou em Portugal.
Verdade, sempre quis ir a Portugal. Os meus amigos já me disseram que é um ótimo sítio para ir.

Nem veio cá como turista?
Não. O nosso mapa das digressões… o Peter [Hughes] e eu já éramos casados e com responsabilidades na altura que começámos a fazer digressões. Quando és jovem e fazes uma digressão, vais onde podes, é uma espécie de férias. Tivemos de esperar até sermos populares o suficiente para ter um convite. Houve um festival, uma vez, que ia acontecer, mas não aconteceu. Mas o meu amigo Owen Pallett está-me sempre a dizer que é um ótimo sítio para tocar e estou entusiasmado.

E é ótimo que toque numa sala de espectáculos e não num festival. É sempre melhor para uma primeira vez.
Mas o que muita gente faz é esperar por um convite de um festival. Tocar em festivais é divertido, podes fazer novos amigos, mas eu prefiro tocar para pessoas que vieram realmente ver o que faço.

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Em In League With Dragons não vejo muito “Dungeons And Dragons”…
Há alguns dragões por lá. Começou por ser uma ópera rock com uma história. Mas a dado momento, distraí-me, algo que acontece muito, e comecei a escrever novas canções. Existem fantasmas da história original, a faixa-título é uma delas e “Younger” é outra, há pessoas a atacar um castelo. Mas é um álbum assombrado por dragões.

O que se passava nessa ópera rock?
Era sobre um feiticeiro velho que vivia numa comunidade perto do mar. E começam a ser invadidos pelo mar, mas a sua magia não é suficientemente forte para proteger o povo e têm de ir para a guerra. Era uma história de fantasia. A ideia de feiticeiro velho era já por si um motivo, sempre que um feiticeiro surge numa história, ele está praticamente morto. Como o Gandalf, não conheces o Gandalf jovem, conheces quando já tem barbas. Estava interessado nisso. Ah, outra coisa relacionada com os feiticeiros mais velhos: têm mais e melhor magia que os mais jovens. Mas nunca conheces os jovens. Sempre que és um feiticeiro, já és velho. É uma espécie de metáfora para a vida, passas toda a tua vida a tentar seres bom nas coisas que importam para ti, tornas-te melhor e melhor, mas o teu tempo é limitado. E a tua energia… tens mais quando és jovem, mas quando sabes o suficiente, tens menos tempo. Os teus poderes aumentam num eixo, mas decrescem noutro. Sei que as pessoas mais velhas têm por hábito tornarem-se conservadoras nas suas opiniões, opiniões que seriam irreconhecíveis para as suas versões mais jovens. Felizmente, essa ainda não é a minha experiência.

Há músicos que a dada altura afastam-se um pouco do seu som inicial. E isso afasta alguns fãs. Por vezes é o que sempre quiseram fazer. Mas antes disso nunca tiveram o dinheiro para passarem o tempo necessário no estúdio. Já teve esse sentimento?
Para mim é diferente. Fui sempre muito dedicado ao meu som original. Muita gente dizia-me: “devias ir para um estúdio”. E eu dizia não, tu é que devias ir para um estúdio. É uma grande questão, o público quer que o artista seja o mesmo para sempre? Algumas pessoas, imagino que sim. Querem que seja sempre igual. Eu não, quero que o meu artista cresça, que mude regularmente. Não de álbum para álbum, senão chega ao ponto em que já não o reconheço. Para mim, o grande caso é o dos Beatles. Se ouvires o Let It Be não soa como o Please Please Me, mas são os mesmos tipos, os mesmos tipos com o mesmo impulso criativo, mas estão a ser muito criativos, em seguirem o seu próprio ritmo. Eu fiquei no domínio da boombox desde 1992 até 2001 e isso diz-me que eu era bastante conservador: isto é o que faço e é assim que faço. Mas após o Tallahassee comecei a colocar questões no meu trabalho, como é que posso exprimir o meu trabalho de forma diferente, mostrar o que escrevo de outra forma. E nos últimos cinco anos tornei-me mesmo curioso com isso. Há pessoas que dizem: os Mountain Goats é só um tipo com uma boombox. Já chega, fiz isso durante oito anos. Não é como se só tivesse um álbum assim. Mas para te manteres verdadeiro contigo mesmo tens de ser incansável. Não és verdadeiro se fizeres uma só coisa e não fores ambicioso. Bom, se calhar isso funciona para algumas pessoas, mas não para mim. E o que faço tem mais a ver com a escrita do que com o lado sónico da música. O lado sónico é uma forma de emoldurar a música e de mostrá-la com luzes diferentes.

Como autor não sente que tem de encontrar novos desafios sónicos para emoldurar o seu trabalho?
Sim. Mas quando era novo não sentia isso, era muito conservador: este é o som que eu gosto. Era a minha posição durante muito tempo. Penso que é algo que fazes quando és jovem, porque quando descobres algo que gostas e és bom, ficas com medo de tentar algo novo: ficas preocupado, nervoso. E depois ficas menos nervoso: o que é mais importante, explorar mais e ser criativo ou deixar as pessoas que já gostam de ti feliz? Eles seguem-te… mas se tenho este tipo de criatividade, devo explorá-la. Por exemplo, quando comecei a escrever livros isso tornou-se muito óbvio. Escrevi um livro, correu bem. E quando fui escrever o segundo disse a mim mesmo: se vou escrever livros, quero fazer o melhor possível. Sou assim. Há pessoas que estacionam num estilo. Mas comigo não dá, alguns dos meus artistas favoritos foram incansáveis durante toda a vida: quiseram ser sempre melhores, crescer. Eu sou assim, incansável… pelo menos desde 2003.

Como foi trabalhar com o Owen Pallett neste último disco? Imagino que ele tenha crescido com a sua música.
Estás perto da verdade. Já somos amigos há algum tempo. Conhecemo-nos quando ele andava em digressão com os Arcade Fire. Fizeram uma festa num cabeleireiro, depois do concerto, ele veio ter comigo e disse: “gosto da tua música, já fiz uma cover de uma das tuas canções”. Dançámos, aliás, até me aleijei num pé nessa noite. Não me recordo como depois voltámos a entrar em contacto… isso foi em 2004, creio. E quando quis cordas para o The Life Of The World To Come, entrei em contacto com ele para tocar cordas no álbum. Ele veio até Chicago e gravou cordas para algumas canções nesse álbum. E depois fomos em digressão em conjunto, estivemos num tour bus por um mês. É o tipo de experiência que se a tua amizade sobrevive a isso, és amigo para toda a vida.

Já ouvi isso muitas vezes.
Somos amigos desde 2003 ou 2004. E pensámos “o que é que poderíamos explorar mais?” e o Peter sugeriu o Owen. E pensei que isso seria fantástico, porque um problema que tenho é confiar o meu trabalho a outras pessoas. É muito difícil para mim confiar a alguém que a guitarra vai soar de uma certa forma. Deixei-o fazer tudo. Estivemos em Nashville durante oito, ou nove dias. Desculpa as minhas respostas serem tão longas.

Isso é ótimo. São ótimas histórias.
Herdei isso do meu pai, falar com frases muito extensas.

Como se sente em relação ao facto de existir um podcast [“I Only Listen To The Mountain Goats”] que analisa as suas canções e a sua escrita?
Eu e o Joseph somos amigos. Mas para mim é estranho. Estou sempre a tentar falar de algo diferente. Quero falar dos artistas que são interessantes para mim, ou as histórias por detrás daquilo de que estou a falar. Fazer uma análise lírica sobre a minha escrita é algo que não me soa tão interessante. Acho que esse trabalho não me cabe a mim. E outra coisa que não gosto… e penso que a internet tornou isto pior, que é quando um artista diz algo sobre uma canção, fica para sempre, “isto foi o que ele disse, é a resposta”. E não existe resposta. Existe até certo ponto: isto é uma canção sobre um vilão malévolo. E se alguém diz que é sobre um herói vou ter de pedir para justificar isso. Não cabe ao artista oferecer interpretação, o trabalho do artista é oferecer o seu trabalho. É incorreto dizer algo e considerar que isso é a interpretação final.