É difícil decidir qual foi a maior surpresa durante a cerimónia de apresentação da Cybertruck da Tesla. Por um lado, houve o momento em que a pick-up eléctrica entrou em palco, perante o olhar incrédulo da maior parte dos convidados presentes na sala e dos que assistiam via live streaming. Por outro, o instante em que os dois vidros laterais se partiram, após o embate de uma esfera metálica. Mas decididamente, um e outro, marcaram a revelação do quarto modelo da Tesla.

Como já aqui analisámos a Cybertruck, vamos agora concentrar-nos exclusivamente na resistência dos vidros, que a marca denomina Tesla Armor Glass, sem contudo especificar com exactidão as suas características.

Mas vamos aos factos: antes de atirar a esfera de metal – que se parece com uma bola de petanca –, um funcionário da marca deixou cair a esfera de uma altura de cerca de 1 metro sobre o que, alegadamente, seria um vidro normal de um automóvel. Este estilhaçou-se de imediato, enquanto o Tesla Armor Glass resistiu sem problemas a um impacto de uma altura que aparentava ter dois e três metros. De seguida, Frank von Holzhausen, o responsável pelo design da Cybertruck, atirou a esfera contra os vidros de ambas as portas e as duas estilhaçaram-se sob o impacto. Não houve penetração no habitáculo, como poderia acontecer num vidro normal de automóvel, mas o vidro ficou com uma mossa e estilhaços na zona embatida pela esfera. Perante a surpresa dos espectadores e… dos próprios responsáveis da Tesla.

Não há grandes segredos em relação às formas de tornar os vidros dos automóveis mais resistentes aos impactos. Todos os automóveis usam vidros temperados nas portas – mais robustos, mas que se estilhaçam por completo uma vez ultrapassado o seu limite – e a National Geographic produziu um curioso vídeo a provar que o que conta é a pressão por milímetro quadrado, ou seja, para partir um vidro temperado é preferível pouca pressão exercida por um objecto pontiagudo, do que uma pressão muito maior a cargo de algo rombo. Isto quer dizer que não é evidente que o vidro de porta normal não devesse resistir a uma esfera de metal como a que a Tesla usou na sua demonstração.

Uma forma de tornar o vidro mais resistente, especialmente a intrusões, é recorrer a uma solução laminada, basicamente dois vidros colados com uma película pelo meio, como o utilizado nos pára-brisas. Esta película pode possuir diferentes características, desde pura e simplesmente manter o vidro coeso e absorver a energia até um certo nível de impacto, ao deformar-se e ao estilhaçar na zona atingida pelo objecto, passando por outras mais espessas para garantir tudo isto e, ainda, absorver o ruído. E depois há os vidros à prova de bala, constituídos por várias camadas de vidro laminado, com vidros mais flexíveis e películas mais eficientes a absorver energia, cuja espessura final varia entre 2 e 9 cm, a que aparentemente a Cybertruck não recorre.

Após a apresentação e as críticas que se seguiram, o CEO da Tesla, Elon Musk, divulgou através do Twitter um teste realizado com a mesma pick-up e a mesma esfera, antes de apresentação. Que pode ver aqui e onde, aparentemente, tudo correu bem:

Como a Tesla fabrica veículos e baterias, mas não vidros, o mais provável é seguir-se uma acesa discussão com o fornecedor, para perceber o que aconteceu e como melhorar a resistência do vidro. Não será de estranhar se, quando a Cybertruck for lançada (final de 2021), houver casos de arremesso de esferas contra os vidros, para ver até que ponto o que a Tesla anuncia é verdade. Elon Musk prometeu que há “room to improvement” (espaço para melhorar), pelo que tem dois anos para mostrar “serviço”.