Os candidatos à liderança do PSD não tiveram vida fácil no encontro deste sábado com a JSD. Luís Montenegro ouviu críticas de três jovens durante a parte reservada às perguntas e respostas, que permitiu que fosse aberta à comunicação social, mas Rui Rio, que decidiu que fosse à porta fechada, também ouviu críticas. Um militante da JSD de Cascais, Rodrigo Camacho — segundo apurou o Observador com várias fontes presentes na sala — disse que o “incomoda bastante” os “ataques recorrentes” de Rui Rio relativamente à comunicação social e perguntou mesmo se o líder não considerava esta atitude  “perigosa para a democracia“. O presidente do PSD respondeu que o que é perigoso para a “democracia representativa” é o facto da comunicação social estar “altamente condicionada”.

Rui Rio, segundo apurou o Observador, explicou aos jovens que a “liberdade de imprensa” é o principal pilar da democracia e que, por isso, a comunicação social deveria dar notícias “com verdade e informar com verdade as pessoas para que elas estejam em condições de ter um espírito crítico e depois estarem inteiramente informadas” no momento de votar. Porém, continuou Rio, “hoje o que existe é a manipulação da informação aos mais diversos níveis.”

Crítico dos media, Rio disse que quando escreve “comunicação social” escreve sempre o ‘s’ entre aspas, porque diz que na maior parte dos casos já não trata de comunicação social, mas sim de uma “comunicação virada para as vendas e em tempos para o lucro”. O líder do PSD disse também aos ‘jotas’, no Fundão, segundo os vários relatos ouvidos pelo Observador, que o objetivo da comunicação social é “vender jornais e telejornais” e que muitas vezes confunde “a árvore com a floresta”. Ou seja: os jornais ajudam a espalhar a ideia de que os políticos são todos iguais, que são todos corruptos.

O líder do PSD lembrou aos jovens que nem todos os políticos são iguais e contou a história de quando um primo rouba um chocolate da gaveta e a avó pergunta quem fez a maldade, o que o primo que roubou o chocolate quer é que todos se acusem. Ora, para Rui “é isso que os corruptos querem“, que passem todos como iguais. E a comunicação social, lamentou, promove isso. Depois da história dos chocolates, segundo foi relatada ao Observador, Rio foi bastante aplaudido.

O líder do PSD e agora recandidato defendeu ainda que é preciso “mais pessoas com coragem, sem medo da comunicação social para fazer aquilo que eu faço e mais alguns”. Na pergunta ao líder, o militante da JSD tinha até dito, na introdução, que não caía na demagogia de dizer que Rui Rio diz “as mesma parvoíces que Donald Trump diz acerca dos jornalistas“, mas que, de facto, não se revia nas críticas do presidente do PSD à Comunicação Social. Rio não esqueceu a referência a Trump. E, na resposta, disse que aquilo que faz (de afrontar e criticar a comunicação social), “não tem a ver com o Trump” e que, quando o presidente dos EUA “faz umas coisas assim” é “por mero acaso”. E até quis despersonalizar a questão de quem enfrenta a comunicação social sem medos: “O Trump, o Bolsonaro, seja quem for, não é isso que está em causa. O Alberto João Jardim também fazia e não é o Bolsonaro nem o Trump”.

Na fase da intervenção de Rio reservada às perguntas e respostas que Rui Rio pediu que fosse à porta fechada, ao contrário do que fariam depois Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz, o presidente do PSD respondeu, no total, a quatro perguntas. Na primeira ouviu esta crítica forte pelos ataques à Comunicação Social, na última ouviu novamente uma crítica mas mais leve. Um militante disse a Rio que neste seu mandato sentiu que “houve alguma falha no sentido das políticas de juventude” e que “o PSD é um partido que está antiquado”. Depois, o mesmo jovem militante perguntou a Rio que medidas propunha para a juventude, ao que o líder respondeu que, mais importante que enumerar medidas concretas é promover uma economia robusta que permita aos jovens ter melhores salários.

Rio, com ironia, diz que, perante a ambição dos adversários, ainda se entusiasma e vota neles

Outro dos jovens perguntou a Rui Rio que marco pretendia deixar no próximo mandato. Rio disse que se sentia mais confortável em apontar os marcos de determinados mandatos (na câmara do Porto, por exemplo) depois deles terminarem. Ainda assim apontou três grandes objetivos, que já tinha referido na intervenção inicial: a maior abertura do partido à sociedade, um resultado muito melhor nas autárquicas face a 2017 e fazer uma oposição credível que transforme o PSD numa verdadeira alternativa ao partido do governo.

Rio utilizou depois a ironia para criticar os objetivos ambiciosos dos seus adversários internos. Disse que até vai “pensar melhor” se nas próximas eleições vota em si próprio ou se não acaba a votar num dos adversários, já que parece haver um que garante de que o PSD “vai ter duas maiorias absolutas, que nas autárquicas vai ganhar, que vai ganhar a câmara de Lisboa”. Então, acrescentou Rio provocando o riso da plateia: “Eu muito caladinho, sou capaz de me entusiasmar e voto no outro”.

No mesmo evento da JSD no Fundão, dedicado à coesão territorial, o líder do PSD foi ainda questionado sobre esse tema, com um jovem a dizer que o PSD tem feito pouco pelo interior. O presidente do PSD concordou, mas disse que também o PS e o CDS têm feito pouco. O líder social-democrata confessou que as diferenças entre PS e PSD nas propostas para o interior “são poucas” e que o que é “absolutamente vital” é a “coragem” para investir no interior (onde há menos ganhos eleitorais) e não propriamente as medidas.

O candidato à liderança do PSD disse ainda que basta “fazer contas de cabeça” para perceber que ter essa coragem é má do ponto de vista “estratégico” e “tático” para qualquer político que o faça. E voltou a ironizar sobre os que acham que “não percebe nada de política”. Rio lembrou que “são muitos anos a virar frangos” e que sabe muito bem que o discurso contra o centralismo o prejudica em termos eleitorais, mas que isso não o faz mudar de opinião.

Ao contrário de Rio, os outros dois candidatos (Miguel Pinto Luz e Luís Montenegro) optaram por permitir que a fase de perguntas e respostas fosse à porta aberta. Luís Montenegro acabaria por ouvir críticas duras de três jovens presentes e um deles chegou mesmo a acusá-lo de falta de ética. O antigo líder parlamentar entrou mais em confrontação direta com os “jotas” e chegou a dizer a um deles que também lhe exigia a “ética” de não mentir sobre o facto de não ter o sentido de voto definido antes daquela sessão. A equipa de Luís Montenegro acredita que algumas das perguntas foram “encomendas” de membros da candidatura de Rui Rio.