Quando Querubim Lapa nasceu, Rafael Bordalo Pinheiro tinha morrido há 20 anos. A distância cronológica nunca foi, contudo, impedimento — atento ao trabalho do mestre, Querubim estabeleceu desde o início um diálogo privado com Bordalo, que manteve ao longo de toda a sua carreira artística. Essa conversa, nem sempre mantida de forma evidente, foi forjando afinidades e pontos de contacto entre duas figuras que, à sua maneira, renovaram a cerâmica portuguesa. É esta ligação que serve de mote à mais recente exposição temporária do Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, que reúne dezenas de peças, por vezes menos conhecidas, dos dois artistas. Contrapondo o trabalho de um e o trabalho de outro, Pé d’Orelha apresenta também um lado menos evidente e até surpreendente do trabalho de Querubim, conhecido sobretudo pelos grandes painéis cerâmicos que podem ser encontrados nas ruas e edifícios de Lisboa — o de criador de peças utilitárias do dia-a-dia, na linha do que Bordalo tinha feito décadas antes, e de decorador de cozinhas.

Pedro Bebiano Braga, um dos comissários de Pé d’Orelha, que guiou o Observador pela exposição ainda em montagem, explicou que “a ideia foi encontrar temas de conversa entre este ceramista mais conhecido dos portugueses, e grande mestre, Rafael Bordalo Pinheiro, e um outro, renovador da cerâmica portuguesa, mas já do século XX, que é Querubim Lapa”. Esta conversa é feita ao longo de seus núcleos, divididos por duas salas do museu. Por vezes, um fala mais do que outro, e é sempre Bordalo, que precedeu Querubim, que dá o mote. Rafael Bordalo Pinheiro, que começou por se dedicar ao desenho, nasceu em 1846 e morreu em 1905; Querubim Lapa, que vinha da pintura, nasceu em 1925 e morreu em 2016.

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A primeira parte de Pé d’Orelha é dedicada às heranças. Tanto na obra de Bordalo como na de Querubim, é possível reconhecer elementos clássicos da história da arte e da cerâmica portuguesas, que cada um apropriou à sua maneira e de acordo com as linguagens próprias dos seus tempos. Um painel de azulejos verdes de Bordalo Pinheiro, inspirado num padrão do século XVI, é um bom exemplo disso. Ao seu lado, foi colocado um painel de azulejo enxequetado de Querubim Lapa, que foi beber da mesma fonte de inspiração. Neste núcleo, intitulado “Heranças”, é também possível encontrar alguns objetos de cozinha desenvolvidos por Querubim que seguem claramente o trabalho desenvolvido pelo seu antecessor nesta área. Algumas peças remetem para uma tradição anterior, com a justaposição de frutas e legumes, representadas de forma naturalista e fazendo lembrar os famosos trabalhos de Giuseppe Arcimboldo. “Bordalo tinha feito a mesma coisa”, afirmou Pedro Bebiano Braga, apontando, a título de exemplo, um Zé Povinho com uma cabeça em forma de cacho de uvas que se encontra na exposição.

Também as cozinhas que criou deixam transparecer uma clara influência bordaliana. Ao longo da sua carreira, Querubim decorou cerca de seis cozinhas, inspirado pela tradição da figura avulso, primeiro holandesa e, depois, portuguesa. Uma dessas divisões foi reproduzida, à escala, para a exposição e para que os visitantes possam visualizar como as peças e decorações funcionavam no espaço.

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Por vezes, Querubim levou as referências a Bordalo à letra. Nalgumas obras, o ceramista não se limitou a seguir a linha de trabalho no mestre, escolhendo introduzir as suas obras nos seus trabalhos. “O Querubim vai buscar o lavagante às Caldas [onde Bordalo Pinheiro tinha a sua fábrica, que ainda hoje existe] e introduz na peça dele; vai buscar um prato às Caldas, e introduz na peça. Quebra-o, pinta-o em vidrado diferente, mas é o mesmo prato. Digamos que há um trabalhar sobre a peça com uma linguagem moderna, evidentemente, dos anos 50 e 60, que foi quando ele começou a fazer isto”, explicou Pedro Bebiano Braga, que comissariou a mostra juntamente com Rita Gomes Ferrão. Reutilizando peças antigas, com lagostas, santolas ou caranguejos, Querubim uniu assim passado e futuro, o seu trabalho com o de Bordalo.

O último núcleo da primeira sala, que fica no rés-do-chão do edifício, localizado no Campo Grande, é dedicado à sátira, um tema que ambos artistas trabalharam. A primeira incursão de Querubim Lapa neste tipo de discurso, aconteceu em 1956, quando foi convidado pelo arquiteto Francisco da Conceição Silva para conceber um conjunto de peças tridimensionais de cerâmica de autor para serem expostas e vendidas na loja Rampa, em Lisboa. Em resposta a este convite, o ceramista criou jarros, canjirões, caixas e vasos com formas humanas, homenageando assim de forma clara e deliberada Rafael Bordalo Pinheiro. Algumas dessas peças e ainda outras, podem ser comparadas aos originais bordalianos em Pé d’Orelha, no decorrer de uma conversa bastante óbvia entre os dois artistas, como apontou o comissário: “Aqui a conversa é mesmo a dois”, apontou Pedro Bebiano Braga. “É muito fácil perceber onde é que está o gozo, a caricatura, tanto num como no outro”.

Este é também um dos núcleos onde é mais evidente que ambos artistas exploraram semelhantes técnicas de trabalho, experimentando na cerâmica e no vidrado. “Cada um destes artistas está a tentar descobrir novos caminhos para a renovação da cerâmica. Um, talvez, com uma preocupação mais do fabrico em série, que é o caso da Fábrica de Faianças das Caldas, [de Bordalo Pinheiro], e, por outro lado, o próprio Querubim com muitas experiências na [fábrica] Viúva Lamego.”

A exposição, que ficará patente até setembro do próximo ano, ocupa dois andares do Museu Bordalo Pinheiro

No andar de cima, é possível escutar os últimos três grandes temas de conversa entre Rafael Bordalo Pinheiro e Querubim Lapa. “A ideia, quando se estruturou a exposição, era, lá em baixo, o visitante ficar com alguma lição — com as satíricas que são muito óbvias, com as citações, que são muito óbvias — e alguma informação. Quando chega aqui, já está preparado para perceber onde é que estão as afinidades entre os dois artistas, e a conversa torna-se mais fácil, mesmo que não seja óbvia, porque o diálogo nem sempre é ilustrativo.” Na primeira vitrina, contudo, as afinidades são evidentes — caixas e cinzentos com rostos humanos, evidenciam o diálogo entre duas formas expressão semelhantes, mas de dois mundos diferentes. Mas porque nem todas as conversas se podem ter em público, às vezes é preciso recorrer a referências mais subliminares, como um chinelo de loiça que, décadas depois, se transforma numa pintura a óleo.

Na reta final da exposição, regressa-se ao tema do humor, mas na sua vertente sexual. Este sempre esteve presente na obra satírica de Bordalo, ainda que sem tomar grande espaço. Em Querubim, por outro lado, dominou uma boa parte da sua produção, da qual é possível revisitar uma parte no Museu Bordalo Pinheiro. As peças explícitas de Querubim Lapa, como as pequenas taças de cerâmica com figuras a terem relações sexuais, contrastam com a quase subtileza das peças de Bordalo que, ainda assim, causaram choque no seu tempo. O cartaz Os Fantoches de Madame Diabo, por exemplo, que o artista fez em 1883 e que foi colado nas ruas de Lisboa, foi censurado por causa do nu feminino que apresenta. “Houve mesmo uma ordem do Governo Civil, para que os cartazes fossem tapados. O Bordalo goza logo com isto, como é vidente”, apontou Pedro Bebiano Braga. Caso se tivessem conhecido, não parece existir dúvidas de que, nas conversas entre Bordalo e Querubim, não faltaria sentido de humor.

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Pé d’Orelha abriu portas ao público esta quinta-feira e ficará patente até 21 de setembro de 2020. Mas uma visita ao Museu Bordalo Pinheiro, o mais antigo espaço museológico dedicado a um único artista em Portugal, não fica completa sem uma passagem pela exposição permanente. O espólio foi constituído em grande parte graças ao trabalho do colecionador Ernesto Cruz Magalhães, que abriu o museu em 1916, confinando-o na altura apenas ao primeiro andar do edifício, mandado construir três anos antes e onde passou a residir. Este primeiro andar é hoje um dos vários núcleos dedicados à vida e obra de Bordalo Pinheiro. Além de desenhos, exemplares dos seus jornais satíricos e peças de cerâmica, que mostram as muitas facetas do seu trabalho artístico, o museu inclui também alguns objetos pessoais, como uma bata, um colete que se acredita ser o mesmo que aparece no retrato que o irmão Columbano fez dele, e a camisa que usou quando foi condecorado em 1889, em Paris, pelo presidente francês.

O Museu Bordalo Pinheiro está aberto de terça-feira a domingo, entre as 10h e as 18h. O bilhete custa 3 euros