Bruce Dickinson já esteve em Portugal várias vezes, mas esta será a primeira em que terá subir ao palco sozinho. No próximo dia 8 de dezembro, o vocalista dos Iron Maiden vai apresentar, na Aula Magna, em Lisboa, o seu espetáculo a solo, “What Does This Button Do?”, uma espécie de “cruzamento entre uma conversa” sobre a sua vida, repleta de episódios que vale a pena contar e ainda mais ouvir, e uma atuação de “stand-up comedy”, como o próprio admitiu durante uma entrevista exclusiva com o Observador por telefone a partir de Londres.

A conversa, a primeira daquele dia (o vocalista tinha uma série de outras entrevistas agendadas), foi curta, mas longa o suficiente para que Dickinson desvendasse um pouco do que vai acontecer na Aula Magna na próxima semana e se apercebesse, para sua grande surpresa, que irá regressar a Lisboa já no próximo ano:

—Vai haver um concerto dos Iron Maiden no próximo ano? — questionou surpreso.
— Sim, em Portugal.
— Ninguém me disse. — admitiu.
— Vão tocar no verão, num estádio.
— Não acredito. A sério?
— Sim, no Estádio Nacional.
— Tenho de ir descobrir tudo sobre isso, tenho de perguntar a alguém.

A banda inglesa vai regressar a Portugal a 23 de julho de 2020 para um concerto no Estádio Nacional, na reta final da digressão “Legacy of the Beast”, que os trouxe à capital portuguesa no verão de 2018. A data foi anunciada há duas semanas, os bilhetes estão à venda desde dia 12 de novembro, mas ninguém parece ter informado o vocalista.

[Vídeo de apresentação do espetáculo a solo de Bruce Dickinson:]

Frontman da banda de heavy metal desde 1981, é, contudo, num papel diferente do habitual que visitará, para já, Portugal. Ao longo da sua carreira, nos Iron Maiden ou a solo, Dickinson sempre subiu ao palco acompanhado por outros músicos. Em “What Does This Button Do?”, o palco é só seu. Isso não o incomoda. Para ele, é apenas um outro tipo de espetáculo, que o obriga a manter-se em “alerta” e ativo, tal como acontece com a música. “É diferente”, concluiu. “Num concerto, estamos a seguir o guião juntamente com outros músicos. Há um formato [para seguir], que são as canções. Durante este espetáculo, não há um guião.”

Não há guião, mas há um plano. “What Does This Button Do?” divide-se em duas partes. Na primeira, de cerca de hora e meia, Dickinson, de 61 anos, conta “algumas histórias que as pessoas podem achar divertidas, mas que podem ser um bocado rudes”, admitiu o vocalista, entre risos. “Depois, há um intervalo de 20 minutos e, durante esse tempo a audiência escreve perguntas em cartões. Quaisquer perguntas, sobre qualquer coisa. Não tem de ser sobre música. Depois, faço uma hora de improviso em torno dessas perguntas”, explicou o também piloto de aviões.

As perguntas costumam ser de “todo o tipo”, “algumas são divertidas”. “Estou à espera de receber perguntas que sejam engraçadas, inteligentes e informativas”, disse Dickinson. O humor é, aliás, uma das marcas do espetáculo, onde também não falta, como não podia deixar de ser, uma boa dose de energia (o vocalista inglês é conhecido por isso). Até porque a ideia “é falar sobre a minha vida de forma a que as pessoas se riam dela”.

Os Iron Maiden foram fundados em 1975. Bruce Dickinson é vocalista da banda desde 1981 (Gonzales Photo/Terje Dokken/PYMCA/Avalon/Universal Images Group via Getty Images)

Desde o cancro, “não quero desperdiçar tanto o meu tempo”

A boa disposição é uma das características mais evidentes do vocalista dos Iron Maiden. De riso fácil, Bruce Dickinson enfrenta a vida com a certeza de que não tem um único minuto a perder. Já era assim antes do cancro da garganta, diagnosticado em 2015, e ainda o é mais agora que está curado. “Não quero desperdiçar tanto o meu tempo”, admitiu, entre risos, durante a conversa com o Observador. “Gosto de adicionar coisas e de fazer o máximo que consigo sempre.” Como é que consegue fazê-lo, admite que não sabe — piloto de aviões, empresário na área da aviação, cervejeiro, orador motivacional, guionista, animador de rádio, esgrimista internacional e frontman da maior banda de heavy metal tradicional do mundo (entre muitas outras coisas), parece impossível que consiga adicionar mais alguma atividade à sua agenda. Mas, de alguma forma, consegue sempre fazê-lo: “Bebo uma cerveja e as coisas acontecem”.

O espetáculo que vai apresentar na Aula Magna é fruto de uma das suas mil e uma atividades. “Há cerca de um ano e meio, há dois anos, publiquei uma autobiografia [What Does This Button Do?]. Começámos a fazer algumas sessões para a promover e, gradualmente, tornou-se num espetáculo que não é sobre o livro e que se tornou, bem, num cruzamento entre uma conversa sobre a minha vida e stand-up comedy.”

O livro, publicado em 2017, pela Harper Collins (e em Portugal no ano passado, pelas Publicações a Ferro e Aço), é mais uma das incursões de Dickinson na escrita (depois de títulos humorísticos como The Missionary Position: Further ou The Adventures of Lord Iffy Boatrace), um trabalho que considera “duro”. “Implica passar muito tempo sentado, trabalho duro e tentar manter a energia na página. O meu estilo de escrita é semelhante a uma conversa. É por isso que é fácil transferir uma coisa assim para uma performance, porque muito daquilo [que escrevi] é quase [como se fosse] falado”.

Sobre aquilo que foi transposto para espetáculo, Bruce Dickinson não quis dar pormenores: “Falo sobre todo o tipo de coisas. Tem de ir ao espetáculo e descobrir!”.