Em agosto, na altura do sorteio que ditou o quadro final da fase de grupos da Liga dos Campeões desta temporada, os adeptos portugueses de futebol deliraram com o encontro embrionário entre a Juventus de Cristiano Ronaldo e o Atl. Madrid de João Félix. Afinal, estávamos a falar daquele que é considerado o melhor jogador português de todos os tempos e também daquele de quem se espera que seja o melhor jogador português dos próximos tempos. O rei e o herdeiro, por assim dizer. Mas o encontro entre um e outro acabou por deixar a desejar.

Logo na jornada inaugural da Liga dos Campeões, Juventus e Atl. Madrid empataram no Wanda: os portugueses foram ambos titulares mas nenhum marcou, deixando essa tarefa para Cuadrado e Matuidi de um lado e Savic e Herrera do outro. A segunda reunião, marcada para Turim e para esta terça-feira, acontecia então mais de dois meses depois da última: e muito aconteceu desde que o médio mexicano ex-FC Porto cabeceou para evitar a derrota da equipa de Simeone já em cima do apito final.

Desde logo, o facto de João Félix estar nesta altura ainda a regressar aos relvados e à competição depois de ter estado afastado durante seis semanas, graças a uma lesão no tornozelo que o tirou das opções do Atl. Madrid. Do outro lado, Cristiano Ronaldo jogava esta terça-feira pela primeira vez desde que, depois de ser substituído frente ao AC Milan, abandonou o estádio antes do fim da partida e sem passar do banco de suplentes — criando uma espécie de irritante entre treinador, direção e jogador que terá ficado sanada internamente mas que continua na ordem do dia graças às perguntas dos jornalistas sempre que Maurizio Sarri se senta numa conferência de imprensa. O avançado português, que aparecia com um look que já tinha experimentado durante o intervalo do jogo da Seleção com a Lituânia, pedindo emprestada a fita de Gonçalo Paciência, tornava-se ainda o segundo jogador com mais presenças em partidas de competições da UEFA, só abaixo de Iker Casillas (tem 175, mais uma do que Maldini e menos 13 do que o espanhol).

À parte isso, a Juventus entrava em campo esta terça-feira com a certeza do apuramento para os oitavos de final, enquanto que o Atl. Madrid precisava ainda de carimbar esse mesmo passaporte. Encontravam-se em Turim duas equipas que têm tido dificuldades para impor uma consistência exibicional e uma coerência dentro de campo que acabe por ir ao encontro dos resultados que, de uma forma ou de outra, vão conseguindo: os italianos têm sobrevivido a vários sustos jornada após jornada na Serie A, resolvendo normalmente o resultado já nos instantes finais, e os espanhóis têm mais empates do que vitórias na liga espanhola, beneficiando apenas da irregularidade de Barcelona e Real Madrid para estarem apenas a três pontos da liderança.

Maurizio Sarri optava por não lançar Higuaín, que no fim de semana bisou contra a Atalanta, no onze inicial, dispensando então a referência ofensiva destacada. Era Dybala, muito mais móvel do que o avançado ex-Chelsea, que fazia companhia a Cristiano Ronaldo na frente de ataque — os dois jogadores eram ainda apoiados por Ramsey nas costas, que funcionava como uma espécie de ’10’ que fazia a ligação entre o setor intermédio e o mais adiantado. Do outro lado, João Félix ainda não era titular e Vitolo aparecia ao lado de Morata, com Saúl e Partey, ambos ausentes do jogo com o Granada por castigo, de regresso ao meio-campo de Simeone.

João Félix, que voltou no fim de semana aos relvados depois de seis semanas de paragem, começou o jogo no banco

Sem os dois habituais laterais, Cuadrado e Alex Sandro, eram Danilo e De Sciglio quem assumia os corredores da defesa da Juventus, com especial prioridade e desenvoltura no direito, onde apareciam Bentancur e Cristiano Ronaldo à procura de movimentos interiores. A equipa de Sarri cedo demonstrou que queria tomar conta dos desígnios do jogo e colocou-se de forma muito mais ofensiva do que o Atl. Madrid, que respondia ao defender com as linhas muito próximas e com os blocos totalmente recuados no próprio meio-campo, à espera de espaço e oportunidades para explorar a transição ofensiva.

O espaço dado pela linha defensiva espanhola a Pjanic, que tinha largura e tempo para ponderar e pensar os movimentos atacantes da Juventus, fez com que o Atl. Madrid tivesse alguma dificuldade em conter as investidas adversárias durante o primeiro quarto de hora: ainda assim, a equipa de Simeone depressa corrigiu essa benesse e foi obrigando os italianos a alargar o jogo para as alas, fechando por completo a faixa central onde Pjanic, Ramsey e Dybala estiveram muito móveis no período inicial. Numa altura em que já se pensava no intervalo e ainda sem uma verdadeira ocasião de golo — o Atl. Madrid tinha mais remates mas quase todos desenquadrados e de longe –, Dybala acabou de coroar aquela que tinha sido uma primeira parte acima da média com um golo, também ele, acima da média. No último lance do primeiro tempo, o avançado argentino bateu de forma direta um lance muito puxado à linha de fundo, na direita, e surpreendeu Oblak (45+2′).

Depois do intervalo, o Atl. Madrid precisava de inverter uma lógica que, na primeira parte, se tinha preocupado mais com não sofrer golos do que propriamente com marcá-los. Da Juventus, a ganhar e já com o apuramento garantido, esperavam-se as linhas mais recuadas e reticentes, prontas para gerir o resultado sem nunca afastar a hipótese de engordar a vantagem. Os espanhóis continuaram a pressionar muito alto, a tentar provocar o erro do adversário, mas com a equipa muito mais esticada do que na primeira parte — a primeira prova de que iam à procura do empate surgiu logo nos instantes iniciais, com um remate forte de Saúl depois de um canto que Szczęsny defendeu com dificuldade (50′).

João Félix entrou pouco depois, para o lugar de Vitolo, e colocou-se ao lado de Morata — mais à semelhança do local onde atuou no início da temporada e ao contrário do mais habitual na altura em que lesionou, no meio-campo e mais perto da ala. A Juventus teve alguma dificuldade em entrar bem na segunda parte, permitindo inúmeras recuperações de bola por parte do Atl. Madrid e esbarrando na primeira linha de pressão espanhola, longe da zona de influência de Dybala ou Ronaldo. A equipa italiana chegou à hora de jogo muito desconfortável, sem posse de bola, e a fazer antecipar um golo do conjunto de Simeone (e até um golo de Félix, que rematou duas vezes em escassos minutos).

O jogador português apresentou-se com um look diferente: uma fita a prender a franja

Simeone fez all in ainda antes do minuto 70, ao esgotar as alterações para lançar Correa e Lemar nos lugares de Herrera e Lodi, prescindindo de um médio para colocar três elementos no ataque. Do outro lado, Bernardeschi substituiu um apagado Ramsey e atirou uma bola ao poste quase de imediato (67′), deixando claro que poderiam ser as individualidades da Juventus a criar o segundo golo na ausência de um esclarecimento coletivo. O lance do jogador italiano acabou por empurrar a equipa para a frente, aliviando de certa forma a pressão do Atl. Madrid que se fazia sentir desde o início da segunda parte e que estava a estagnar a construção do conjunto de Sarri.

Até ao final, Higuaín ainda entrou para o lugar de Dybala, Cristiano Ronaldo cumpriu os 90 minutos e Morata falhou o empate de baliza aberta no último instante. A Juventus venceu novamente os colchoneros em casa — depois da temporada passada, com o hat-trick histórico de Ronaldo — e garantiu o primeiro lugar do grupo, enquanto que a equipa de João Félix continua sem assegurar a passagem aos oitavos e tem agora o Bayer Leverkusen a apenas um ponto.