David Neeleman, investidor estratégico da TAP, garante que os acionistas privados da transportadora estão “totalmente comprometidos com o plano de crescimento que tem vindo a ser implementado”. Em nota enviada às redações, o empresário brasileiro e americano que liderou a compra da empresa em 2015, faz questão de deixar uma nota de compromisso pessoal no dia em que voltaram sair notícias sobre a sua saída do capital da TAP. E avisa que “especulações e manobras” não ajudam.

“Eu pessoalmente em conjunto com a Azul, empresa que eu controlo (Neeleman reduziu participação para 58%), acreditamos no futuro da TAP e detemos hoje direitos equivalentes a mais de 70% dos direitos económicos da TAP.”

O empresário não chega a desmentir a informação de que a venda da sua posição na companhia portuguesa esteja a ser preparada, mas reconhece que os “resultados para os acionistas não têm sido tão rápidos como gostaríamos”, apesar do todo o investimento feito no crescimento da companhia. É a resposta aos prejuízos que a transportadora tem apresentado, 111 milhões de euros até setembro, mas também às notícias e comentários sobre a situação financeira da empresa, como o que foi produzido este domingo por Marques Mendes.

David Neeleman destaca que o futuro da TAP “passa por uma transformação significativa da empresa” e faz um apelo:

“A TAP precisa de foco e os seus trabalhadores de paz para continuar a implementar o que tem que ser feito, que é o melhor para a TAP. Especulações e outro tipo de manobras em nada ajudam a este extraordinário projeto tão relevante para Portugal”.

Neeleman e a companhia brasileira Azul constituem com o empresário português Humberto Pedrosa o consórcio Gateway que em 2015 comprou uma participação na TAP, que passou de maioritária para paritária com o Estado em 2017. Apesar deste reequilíbrio no capital, os privados detêm mais de 70% dos interesses económicos na TAP e têm estado à frente da gestão, conduzida em particular por gestores indicados por David Neeleman, o acionista que conhece o negócio da aviação.

E a gestão privada da TAP tem estado debaixo de fogo por causa dos prejuízos que a empresa tem apresentado desde o ano passado e em contradição com os planos de negócios desenhados pelos investidores no quadro da privatização. O episódio da atribuição de prémios a alguns colaboradores da empresa este ano gerou um mal-estar entre a gestão privada e o Governo, bem como os representantes do Estado na administração da companhia.

Nesta nota pessoal, David Neeleman invoca o plano estratégico que criou quando concorreu à privatização da TAP em 2015 e para o qual convidou um investidor português, Humberto Pedrosa do Grupo Barraqueiro, numa operação que se concretizou depois de “várias tentativas” feitas para privatizar a TAP sem resultado. E recorda o antes e depois da sua entrada na companhia portuguesa.

Em novembro de 2015, a TAP tinha a frota “mais antiga da Europa” e devia cerca de 900 milhões de euros à banca, dos quais 80% venciam em menos de um ano. Devia ainda 183 milhões de euros a fornecedores, e tinha em caixa “apenas” 79 milhões de euros , que não chegavam para pagar salários. O empresário descreve a situação de rutura de tesouraria que acompanhou o fecho da privatização da empresa, feita em cima das eleições pelo Governo PSD/CDS e que criou uma grande pressão por parte dos bancos financiadores dada a passagem do controlo acionista do Estado para os privados.

A TAP de hoje, acrescenta Neeleman tem 245 milhões de euros em caixa, depois de logo nas primeiras semanas de gestão privada terem sido pagos 100 milhões de euros de “dívida anteriores”. A TAP pós Neeleman e segundo Neeleman mudou de várias maneiras, sublinha ainda:

  • Passou de 10 milhões para mais de 17 milhões de passageiros
  • Está a renovar a frota e passou de 77 para 102 aviões
  • Passou de 81 destinos para 94
  • Passou de 110 mil para 137 mil passageiros
  • De receitas de 2,4 mil milhões de euros para 3,4 mil milhões de euros
  • Contratou cerca de 3000 colaboradores em Portugal.

“Como todo este investimento no crescimento dos resultados para os acionistas não têm sido tão rápidos como gostaríamos mas estamos no caminho certo como demonstra aliás a curva dos resultados trimestre após trimestre. Uma nova frota muito mais eficiente e as novas rotas começam a produzir resultados, como demonstram as contas do terceiro trimestre de 2019 em que a TAP teve uma margem operacional acima dos seus pares europeus”.

Pelo menos uma parte dos resultados negativos da TAP no terceiro trimestre é atribuível a fatores cambiais, mas já no primeiro semestre a empresa tinha apresentado números vermelhos piores do que os do ano passado que também foi de perdas para a transportadora.

Apesar destes prejuízos, Neeleman assinala ainda a capacidade da empresa em atrair financiamento de 375 milhões de euros na recente emissão obrigacionista feita sem qualquer garantia do Estado. E termina afirmando que “estou cada vez mais entusiasmado com o futuro da TAP”.