Será que existem outros tamanhos? Mais cores? O que pode combinar com esta peça? Compro ou não compro? Muito provavelmente, já fez perguntas destas dentro do provador de uma loja, assim como já teve de esperar pela resposta de um funcionário ou, até mesmo, de voltar a vestir-se só para procurar outras opções.

Numa altura em que reinam as compras online, a pressão sobre as lojas físicas aumenta e a vontade de inovar torna-se mesmo uma necessidade. O empreendedor americano Alek Safar defende que o provador é “o elemento mais desatualizado” numa loja, sendo também “o mais vital”, pois é lá que “a maioria das decisões são tomadas”. Funciona como “o ponto principal da experiência de compra” e, segundo o criativo, “não pode ser ignorado”.

Foi assim que em agosto de 2016 fundou a Mirow, uma startup que desenvolve espelhos inteligentes e interativos capazes de identificar as peças que deseja experimentar, através do código de barras, dar informações sobre o produto, stock disponível, descontos ou ofertas especiais e fazer um aconselhamento personalizado sem ter de vestir e despir a roupa vezes sem conta.

Foi com esta proposta que participou na terceira edição do programa de aceleração de startups da Farfetch, o Dream Assembly. O primeiro unicórnio (empresa avaliada em mais de mil milhões de dólares) com raízes portuguesas lançou estes programas de aceleração em abril de 2018 e em setembro desse ano, foi admitido na Bolsa de Nova Iorque. Até à data, beneficiaram deste programa de aceleração de ideias 19 startups.

“Tudo começou há 12 ou 13 anos, quando falei com um amigo meu sobre como o comércio online estava muito à frente do comércio tradicional, uma vez que tem várias ferramentas de venda e, no comércio habitual, as vendas só acontecem nas lojas. Comecei a pensar em várias maneiras de evolução e surgiu a ideia dos espelhos inteligentes. Naquela altura, existiam três ou quatro empresas a fazê-lo, mas eram muito caros. Queríamos ter esses equipamentos e essa tecnologia, mas mais baratos”, explica Alek Safar em entrevista ao Observador.

Segundo o responsável, em média, passamos seis minutos no provador, muitas vezes mais do que na própria loja, tendo já sido provado que o cliente que entra num provador tem sete vezes mais hipóteses de comprar. “Com exceções a algumas marcas de luxo, um provador tem paredes brancas monótonas, um espelho, um banco e tapetes manchados. Não há atenção aos detalhes”, sublinha, acrescentando que os espelhos que criou permitem que o cliente interaja com a loja, “com a mesma eficiência que o faria online, mas, ao mesmo tempo, possui todas as vantagens de uma experiência física.”

Apesar de não ter câmaras incorporadas, este espelho recolhe informações personalizadas dos clientes, identificando gostos e tendências, que depois são analisadas e estudadas por uma equipa de marketing. “Essas informações são mais importantes do que as vendas diretas.” A empresa americana garante oferecer “uma solução fácil de implementar em qualquer loja ou marca”, onde através de um catálogo “fornece um aumento de vendas de até 8%, contribuindo simplesmente para que os clientes experimentem melhor.”

Alek Safar, fundador da Mirow

Depois de ter fundado a Brighter Games, uma aplicação móvel de jogos, Alek Safar precisou de um milhão de dólares para criar a Mirow e, com a ajuda de dois sócios, desenvolver o hardware e software da empresa. “Neste momento estamos presentes em dez lojas, distribuídas em países como Estados Unidos da América ou Alemanha, mas queremos crescer.”

As moradas de vestuário são o foco desta startup, que já testou o espelho em marcas alemãs como a Adidas ou a Puma. “As pessoas não levam sapatos para o provador, no entanto foi interessante trabalhar com a Adidas, pois ajudou-nos muito em termos de base de dados, eles trabalham muito bem essa parte.”

Alek considera a Farfetch a “parceira ideal” para entrar no mercado de luxo, uma vez que optou por iniciar o seu negócio num universo mais generalista. “Gostávamos de ver se conseguirmos levar a nossa tecnologia suportável e barata para o mercado de luxo.”

Springkode quer faturar 300 mil euros em 2020

“As meias que tenho hoje calçadas funcionam como um lucky charm para todos os pitchs. Têm dado sorte”, começa por contar ao Observador Reinaldo Moreira, um dos fundadores da Sprinkode, a única startup portuguesa selecionada para a terceira edição do Dream Assembly. Foram, de facto, as meias oferecidas pela sogra que o levaram a lançar o negócio. “Eram especiais, super confortáveis e senti que havia ali uma coisa diferente.” Quando lhe perguntou qual era a marca, provavelmente para comprar mais uns quantos pares, descobriu que vinham diretamente de uma fábrica portuguesa.

“Pareceu-me óbvio que podíamos, com relativa facilidade, montar um market place e ser a ponte de ligação entre fábricas e o cliente final. A marca tem um propósito muito bem definido, que é levar as fábricas diretamente ao consumidor, ajudá-las neste processo de digitalização, torná-las um elemento mais valorizado na cadeia e que possam rentabilizar todo o seu conhecimento e investimentos.”

A ideia foi bem recebida pelos industriais que, nos últimos anos, foram prejudicados com a evolução do fast fashion, da crise e da facilidade de importação do produto chinês na União Europeia. “Isso também lhes aguçou o pensamento e o apetite a estarem presentes noutros canais. As fábricas têm competências no desenvolvimento de produto que não estavam a ser tão bem rentabilizadas. Acreditamos que, com a Springkode, podemos alavancar todo o conhecimento que existe no tecido industrial de confeção português, que sendo tradicional é, ao mesmo tempo, muito sofisticado.”

O projeto materializou-se em setembro do ano passado, com um investimento inicial de 300 mil euros — 200 foram investidos pela LC Ventures –, quando foi lançada a plataforma que vende coleções cápsula e exclusivas, masculinas e femininas, desenvolvidas por fábricas reconhecidas em todo o mundo.

“O que lhes pedimos é que transponham aquilo que aprenderam nos últimos 20 anos para um produto e que o façam utilizando as matérias-primas que já tem dentro de portas. Depois, compete-nos gerar no nosso site informação para que, da próxima vez que forem confecionar, já o façam a saber mais sobre o cliente que está a comprar.”

Atualmente, a Springkode trabalha com com 13 fábricas portuguesas, mas já se encontra em conversações com potenciais parceiras espanholas, romenas e inglesas. No entanto, nem todos os parceiros se encontram online. “Temos que ter um grande número de fábricas para existir rotatividade novidades todos os meses”, justifica Reinaldo Moreira, acrescentando que o objetivo passa por alargar a oferta para calçado e acessórios já no primeiro semestre do próximo ano.

Cerca de 80% das vendas estão em Portugal, onde a aposta no marketing é mais forte, sendo que a restante fatia pertence a países como Espanha, Reino Unido ou França. No futuro, a marca quer chegar a “outras geografias” e espera, em 2020, atingir os 300 mil euros de faturação.

Duas edições de Dream Assembly por ano?

Cipriano Sousa, CTO da Farfetch, está na empresa desde o início e ainda se lembra da primeira conversa que teve com José Neves, fundador e diretor executivo. “Ele sempre pensou em criar algo aberto ao mundo, não apenas focado no nosso negócio, mas uma espécie de sistema operativo para a indústria da moda”, recorda em entrevista ao Observador.

O responsável sublinha que a plataforma da Farfetch é, assim, aberta a outras empresas, de modo a poderem usar os serviços e tecnologias desenvolvidos e a tornarem-se futuros parceiros. Acredita que só assim o negócio é capaz de evoluir e inovar. “Uma empresa criou um jogo com base no catálogo da Farfetch, é uma forma de inovarmos internamente e aumentarmos os nossos produtos”, justifica.

Cipriano Sousa, CTO da Farfetch

O programa Dream Assembly é “uma consequência dessa estratégia”, foi lançado pelo primeiro unicórnio com ADN português em abril de 2018 e tem como objetivo apoiar, acelerar e dar mentoria às ideias mais promissoras, que podem revolucionar o setor da moda. “Nós também já fomos uma startup, conhecemos bem as dificuldades, mas, agora, estamos em condições de ajudar essas empresas, que não têm meios ou networking, a avançar com os seus projetos.”

Nesta edição, a segunda de 2019, o Dream Assembly arrancou em Lisboa, passou pelo Porto e terminará a 13 de dezembro em Londres. O tema é dedicado ao retalho, às novas abordagens e modelos de negócio, afastando-se da ideia de que a Farfetch se resume apenas a tecnologia. A equipa recebeu 140 candidaturas vindas dos quatro cantos do mundo, mas apenas sete startups usufruíram do programa de sete semanas que inclui workshops, reuniões de mentoria e sessões individuais com líderes seniores da Farfetch.

Um deles é Luís Carvalho, VP Architecture/Tech da Farfecth. “Como gerir preços a nível mundial? Como criar uma rede de entregas? Como apresentar uma ideia num pitch e convencer investidores?” São apenas algumas questões que ajuda as startups a responder e a ultrapassar, graças a um acompanhamento personalizado.

“Ao diluirmos este conhecimento só tornamos a indústria mais forte. Não fazemos tudo nem queremos fazer tudo, não é essa a nossa estratégia. Queremos que as pessoas tenham ideias que nunca nos vão ocorrer, precisamos dessas sinergias.”

A tecnologia, a inovação e a ambição da equipa são fatores preciosos num processo de seleção “duro”, que deixa muita gente fora. Talvez por isso a Farfetch esteja a ponderar realizar dois programas anuais.