“As pessoas têm de se mexer. Sempre. Esquecem-se muito facilmente. De cada vez que alguma coisa acontece, temos de reagir. A toda a hora. Como máquinas. Reagir, reagir, outra vez, outra vez (…) É importante que a nova geração seja recordada de que nunca estamos a salvo (…) É como estar sempre a carregar nos botões de uma máquina de flippers. Temos de manter a pressão”. O discurso inspirador sobre persistência e resiliência pertence a Pep Guardiola e é retirado diretamente de uma entrevista dada pelo treinador espanhol a Johnny Marr, guitarrista dos The Smiths, no âmbito de um livro que decidiu juntar adeptos famosos aos seus ídolos.

Na entrevista, divulgada pelo jornal Record, a resposta de Guardiola até está relacionada com o racismo e com o exemplo específico de Sterling, que sempre reagiu com elegância aos insultos e aos comentários racistas vindos das bancadas e das claques adversárias. Mas a verdade é que as frases do treinador podem ser diretamente aplicadas à fase atual do Manchester City: mesmo depois das conquistas recentes e da hegemonia total na temporada passada em Inglaterra, as pessoas “esquecem-se muito facilmente” e é necessário “reagir, reagir” e estar “sempre a carregar nos botões de uma máquina de flippers“. Até porque o Liverpool está em primeiro na Premier League, porque o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões ainda não estava garantido e porque o último jogo europeu tinha acabado com um surpreendente empate em Itália com a Atalanta.

Sem Sergio Agüero, que está lesionado e deve falhar os próximos jogos do City, Guardiola e companhia recebiam esta quinta-feira o Shakhtar Donetsk de Luís Castro. No lugar do argentino estava então Gabriel Jesus, apoiado por Bernardo Silva e ainda Sterling no ataque, enquanto que David Silva era suplente e via Rodri, De Bruyne e Gündoğan incluírem o meio-campo inicial dos ingleses (e João Cancelo também era titular na direita da defesa). Mesmo com a noção de que bastava um empate para assegurar a presença nos oitavos de final e o primeiro lugar do grupo, o City não abdicou do habitual controlo da posse de bola e geriu os desígnios do jogo durante a primeira parte, sempre com as linhas próximas q.b umas das outras e a com uma facilidade acima da média para desenrolar ideias e métodos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Do outro lado, porém, estava um Shakhtar que precisava de uma vitória para passar de imediato à próxima fase mas que também sabia que um empate, tendo em conta a matemática do grupo, deixava os ucranianos numa ótima posição para garantir o acesso aos oitavos na última jornada. A equipa de Luís Castro acabou por ir para o intervalo com menos posse de bola, menos remates globais e enquadrados, menos acerto de passe — mas com a principal ocasião de golo. Tetê ficou perto de inaugurar o marcador depois de uma saída em falso de Ederson (15′) e os ucranianos deixavam claro ao Manchester City que não tinham viajado até Inglaterra para ver os rapazes de Guardiola trocar a bola.

Bernardo Silva foi titular no Manchester City

Na segunda parte, os citizens acabaram por conseguir transformar a superioridade em vantagem no marcador em pouco mais de dez minutos: De Bruyne conduziu tombado na direita e assistiu Gabriel Jesus, que já dentro da grande área soube temporizar, aguentar a carga do defesa ucraniano e oferecer o golo a Gündoğan (56′). Luís Castro reagiu com a entrada de Manor Solomon, para reforçar o ataque e dar velocidade e criatividade à fase mais ofensiva da equipa, e o israelita acabou por agradecer o voto de confiança da melhor forma.

Num contra-ataque praticamente perfeito, exatamente como dizem os livros, Tetê desdobrou o jogo com o lateral Dodô na direita e o brasileiro cruzou atrasado para Solomon, que rematou rasteiro e garantiu a igualdade no marcador (69′). Guardiola ainda reforçou o meio-campo e refrescou o discernimento com as entradas de David Silva e Phil Foden mas o facto de ter deixado Mahrez no banco, mesmo com o jogo empatado, mostrou que o treinador espanhol optou por dar por garantido o apuramento ao invés de procurar a vitória que podia desequilibrar o encontro e abrir espaço a transições ofensivas dos ucranianos.

No final, o Shakhtar Donetsk de Luís Castro foi empatar ao Etihad e está em boa posição para prosseguir para os oitavos de final da Liga dos Campeões. Já o Manchester City, apesar de ter somado o segundo empate consecutivo na liga milionária, garantiu a presença na próxima fase e vai continuar a “carregar nos botões da máquina de flippers” para chegar à glória europeia que ainda escapa ao clube.