Pelo menos cinco artigos científicos das áreas da Ciência Política e das Relações Internacionais, assinados por uma professora da Universidade do Porto, estão a ser alvo de uma acusação de plágio. Quem acusa é o blog Retraction Watch, conhecido por expor retratações de artigos científicos.

A especialista em Ciência Política e Relações Internacionais Teresa Cierco Gomes “usa descuidadamente partes de diversas fontes”, anota também a página Science Direct, agregadora de mais de 2.500 revistas científicas, quando rejeita um artigo da autora, intitulado Public administration reform in donia, de 2013.

Numa lista apresentada pela Retraction Watch, oito artigos publicados pela professora universitária entre 2013 e 2014 terão sido alvo de retratação, a rejeição que pode acontecer quando os artigos não respeitam as regras formais da escrita científica e da citação de autores. A publicação assume que, entre os nove listados, estão quatro retraídos por plágio.

A maioria das retratações aconteceram este ano depois de várias queixas do também professor universitário Michael Dougherty, da Universidade Dominicana de Ohio, nos Estados Unidos, conhecido no meio por fazer “caça ao plágio”. Michael escreveu diretamente aos editores das publicações científicas onde a portuguesa havia publicado no passado.

“Michael Dougherty começou a ler os meus artigos de fio a pavio, notou um padrão e apresentou queixas aos editores. Eu apresentei defesas, mas depois de apresentada uma queixa é quase impossível evitar a retratação do artigo”, explica a professora ao Observador.

Teresa Cierco alega que Michael Dougherty “em determinadas queixas chegou a sublinhar a expressão “European Union”, que toda a gente utiliza sem atribuir a nenhum autor específico”.

Ao Observador, Teresa Cierco Gomes assume as imprecisões formais repetidas em vários artigos científicos. “Quando comecei a escrever em 2011 ou 2012, não tinha noção de que estas questões eram tão rígidas”, confessa. No entanto, alerta ao mesmo tempo que quando confrontados com as queixas, “houve editores que consideraram plágio mas outros não”. Ao contrário do apresentado no blog Retraction Watch, diz que “apenas um editor apresentou plágio como razão da retratação”.

Quais os erros em causa?

No momento de citar os autores das obras consultadas, a professora a dar aulas desde 1994 e há cinco anos na Universidade do Porto, ignorou regras obrigatórias daquela que assume ser a “bíblia das referências bibliográficas”. E conta quais.

“Quando nós citamos o trabalho de um autor, temos de abrir aspas, escrever a citação formal, fechar aspas e colocar a referência do autor. Eu escrevia a citação e não colocava a referência imediatamente após a frase. Só no final do parágrafo fazia referência à obra. Imagine um parágrafo com três frases: eu deveria ter escrito referência no final da primeira, na segunda e na terceira”, sintetiza a professora da Universidade do Porto.

Apesar de assegurada sempre a referência ao autor, a professora reconhece que houve momentos em que também optou por não colocar aspas nas citações de outros autores, quando optava por modificar ligeiramente a frase, retirando-lhe, por exemplo, “um adjetivo” ou alterando-lhe um tempo verbal. “Não tive o rigor académico que é exigido a um professor”, admite.

Apercebeu-se de que não estava a cumprir com a exigência das regras bibliográficas quanto, em setembro de 2018, recebeu um artigo retratado. “A queixa foi feita em setembro, a retratação aconteceu em outubro”. A partir desse momento, Teresa começou a “ter uma grande aflição e a tentar corrigir os artigos já publicados. Alguns editores aceitaram as correções, mas outros não”, conta ao Observador.

Em 2013 a autora já havia recebido um outro artigo retraído, por ter citado um autor sem a sua prévia permissão.

A Universidade do Porto ainda não se pronunciou sobre o caso. Contudo, embora os artigos em causa não estejam relacionados diretamente com aquela instituição de ensino, o Conselho de Ética da universidade poderá em breve levar o assunto a discussão. O Código Ético de Conduta Académica da Universidade do Porto faz menção ao plágio, explicitando que a sua violação poderá levar a “implicações disciplinares”.