“Se falei com Eriksen? Sim, falei. Mas isso fica entre mim e ele. E a Amazon”. José Mourinho voltou a andar feliz e, após uma estreia a ganhar na nova aventura em Inglaterra pelo Tottenham, mostrou isso mesmo na conferência de antevisão à receção dos vice-campeões europeus ao Olympiacos de Pedro Martins, naquela que era não só a estreia no Tottenham Hotspur Stadium mas também o regresso à Liga dos Campeões, que só não iniciou em duas ocasiões nas últimas 17 temporadas. Agora, com o comboio em andamento, podia ser chegar, vencer e passar.

“Com estes jogadores nunca terei medo de um jogo da Champions mas necessito de tempo para poder passar as minhas ideias aos jogadores. Quero ajudá-los com a minha paixão e conhecimento”, destacou, entre mais elogios a Dele Alli, uma espécie de primeiro menino querido que ganhou nos spurs e que, depois de ter referido que era demasiado bom para não ser um dos melhores do mundo, retribuiu as palavras reconhecedoras. “As suas vitórias falam por si, já ganhou muito no futebol e é um prazer que esteja agora aqui connosco”, disse. De Eriksen, esse, só mesmo uma frase. E a puxar para a conversa também um dos motivos pelos quais Pochettino terá saído.

Mourinho chegou, olhou para Alli e já tem um Son preferido: como o Tottenham ganhou na estreia do Recycled One

De acordo com a imprensa britânica, Mauricio Pochettino terá pedido diretamente a Daniel Levy para instalar uma série de câmaras no centro de treinos para poder ter outros meios disponíveis para corrigir posicionamentos dos jogadores e movimentações da equipa. O líder do Tottenham recusou. O argentino disse até que estaria disponível para pagar do seu bolso esse investimento (ficando assim apenas a manutenção dos equipamentos para o clube), a resposta voltou a ser “não”. Pouco depois, Levy fechou um acordo com a Amazon para a produção de um documentário (por 11,7 milhões de euros) e acesso à colocação de câmaras… até no gabinete dos treinadores. Um documentário que, pela voz do próprio, apanhou a conversa entre Mourinho e Eriksen. Um documentário que, na semana passada, ganhou mais um ator principal numa película que devia ter o clube como protagonista.

José Mourinho, um dos cinco treinadores que ganharam a Liga dos Campeões por clubes diferentes (FC Porto e Inter) a par de Ernst Happel (Feyenoord e Hamburgo), Ottmar Hitzfeld (B. Dortmund e Bayern), Jupp Heynckes (Real Madrid e Bayern) e Carlo Ancelotti (AC Milan e Real Madrid), cumpria esta noite o 148.º jogo na principal prova europeia de clubes, 349 dias depois da derrota com o Valencia no comando do Manchester United, sendo o segundo técnico no ativo com mais encontros na prova apenas atrás de Carlo Ancelotti (163). Isso, o facto de fazer a estreia em casa e a possibilidade de garantir de imediato um lugar nos oitavos colocaram o português como foco no duelo contra os compatriotas Pedro Martins, José Sá, Rúben Semedo e Daniel Podence.

Tudo perfeito até rolar a bola. E aí, durante meia hora, a noite que prometia ser de sonho tornou-se um pesadelo: depois de uma entrada melhor dos gregos, El Arabi, a surpresa de Pedro Martins na frente em vez de Guerrero e Valbuena, aproveitou um corte defeituoso de Danny Rose (única novidade de Mourinho na equipa inicial) e atirou de fora da área para um grande golo que inaugurou o marcador (6′). José Sá, após cabeceamento de Son num livre lateral, evitou o empate com uma grande defesa (15′) e seria também de bola parada que o Olympiacos viria a aumentar a vantagem com outro português, Rúben Semedo, a ser mais rápido na área após canto (19′).

Mourinho, cada vez mais inquieto na zona técnica e fazendo sinal para o relógio pelas demoras e paragens, lançou Eriksen no lugar de Eric Dier, deixando Wings como médio mais recuado e juntando mais uma unidade criativa na ligação ao ataque. A cinco minutos do intervalo, Harry Kane atirou muito perto da trave da baliza de José Sá de livre direto e por pouco o técnico português falhou o 2-1: Aurier e o dinamarquês combinaram na direita, o lateral cruzou, Meriah teve uma falha comprometedora no corte e Dele Alli empurrou na pequena área para a baliza numa altura em que Mourinho se queixava ao quarto árbitro do tempo de compensação que tinha sido dado.

O golo deu outro alento aos ingleses, que entraram mais fortes para o segundo tempo e chegaram ao empate com apenas cinco minutos jogados num lance onde o apanha-bolas foi determinante (acabando por ser cumprimentado depois por Mourinho, quase que agradecendo pela atenção que revelou): Aurier fez uma reposição rápida num lançamento, Lucas Moura foi à linha de fundo cruzar e Harry Kane rematou na passada para o 2-2.

O jogo parecia inclinado para os visitados mas foi o Olympiacos que ainda teve um período melhor entre dez a 15 minutos, chegando algumas vezes ao último terço mesmo sem criar oportunidades flagrantes para passar de novo para a frente. Percebendo o que se passava, Mourinho abdicou de Lucas Moura, reforçou o meio-campo com Sissokho e ganhou aí o jogo: Aurier, num grande remate cruzado de primeira após bom trabalho de Dele Alli, e Harry Kane, de cabeça após um livre de Eriksen, fizeram a reviravolta (4-2) que deu ao Tottenham o acesso aos oitavos da Liga dos Campeões e colocou Mourinho ao colo do novo adjunto João Sacramento, técnico que foi esta terça-feira muito elogiado em Inglaterra pelo percurso no futebol que tem apesar dos 30 anos.