A Netflix decidiu impedir o encerramento definitivo de um histórico cinema nova-iorquino, o Cinema Paris, alugando o espaço de Manhattan para o utilizar em eventos especiais, estreias e exibição dos seus filmes.

A notícia, que tem vindo a ser difundida na imprensa norte-americana após oficialização do negócio de arrendamento, está a ser considerada uma movimentação de espantosa ironia, dado que não só as receitas de bilheteira dos cinemas estão a cair vertiginosamente como quer a plataforma de produção e distribuição de filmes e séries de televisão quer o seu modelo de streaming têm vindo a ser apontados como causadores da perda do hábito dos espectadores em verem filmes em salas tradicionais.

O arrendamento da sala de cinema pela Netflix é também uma medida que se insere na estratégia da plataforma em expandir-se dos ecrãs de televisão e ecrãs de computador para as salas de cinema, como aponta o The New York Times. Essa expansão é necessária até pelos critérios de muitos festivais de cinema e dos maiores prémios de Hollywood, como os Óscares, que exigem que um filme seja exibido (logo na estreia) numa sala de cinema — independentemente de quem o produz — para ser considerado elegível para distinções.

Os detalhes do contrato, como a duração do aluguer da sala que existe há 71 anos, não foram revelados publicamente. Sabe-se, porém, que apesar de ter arrendado o Cinema Paris para exibir os seus filmes, a Netflix conta continuar a passar as suas longas-metragens em outras salas de cinema da cidade.

O histórico cinema nova-iorquino já estava a ser utilizado pela Netflix antes da formalização do negócio de arrendamento mais duradouro e após ter fechado portas em agosto. Neste momento, por exemplo, a sala que exibe apenas um filme de cada vez (é a única sala de cinema em Manhattan ainda a fazê-lo) e que tem 581 lugares sentados tem exibido o filme da Netflix “Marriage Story”, que tem sido apontado como um dos possíveis candidatos à vítória nos Óscares — assim como “The Irishman”, o novo filme de Martin Scorsese que chegou esta quarta-feira à plataforma de streaming mas que começou a ser exibido antes disso no Cinema Belasco, na Broadway.

A Netflix, que começou por concentrar-se sobretudo em adquirir direitos de filmes e séries para os exibir via streaming, tem vindo a aumentar a sua produção própria quer de longas-metragens quer de séries de televisão. Um dos primeiros grandes filmes da Netflix a ser exibido em salas de cinema antes da sua divulgação digital via streaming foi Roma, do cineasta Alfonso Cuarón, que foi exibido durante três semanas em sala antes de chegar à app digital da produtora e distribuidora.

A fachada do cinema — que será explorado pela Netflix — em 1969 (@ Walter Leporati/Getty Images)

A empresa já se regozijou com o aluguer do teatro. Citado pelo The Guardian, o chefe da equipa de conteúdos da Netflix, Ted Sarandos, afirmou: “Depois de 71 anos, o Cinema Paris tem um legado duradouro e continua a ser o destino para uma experiência de ida ao cinema única. Estamos incrivelmente orgulhosos por preservar esta instituição histórica de Nova Iorque para que continue a ser uma casa do cinema para quem é apaixonado por filmes”.

Antes deste negócio, a imprensa norte-americana avançara já com a hipótese da Netflix adquirir ou alugar uma sala de cinema nos EUA para exibir alguns dos seus filmes. O site Deadline, por exemplo, chegou a avançar recentemente com a hipótese de a produtora e distribuidora comprar o Cinema Egyptian, em Los Angeles, como recorda o site The Verge. Também a revista Variety falou no possível negócio, citando fontes conhecedoras do interesse da Netflix que referiam que o espaço, a ser comprado, seria usado (tal como o será este) como “local de eventos” e promoção da produção da Netflix.

O Cinema Paris tem “um interior elegante, com cadeiras em veludo azul e com uma cortina de cor púpura, além de uma confortável varanda”, descreve o jornal britânico The Guardian. A sala começou a ser utilizada inicialmente para exibir filmes franceses, daí o nome.