Se na passada quinta-feira os funcionários da Cervejaria Galiza liquidaram a fatura de eletricidade, no valor de 3.750 euros, evitando assim o corte de energia no estabelecimento, esta semana foram também confrontados com uma conta de gás no valor de 6.730 euros. E, tal como fizeram com a luz, também vão juntar-se para pagar esta.

“Recebemos uma chamada da empresa EDP Gás a dizer que iria haver um corte caso não pagássemos a fatura”, revela o funcionário António Ferreira ao Observador. O também representante sindical afirmou que os trabalhodores acordaram com a empresa “um pagamento fracionado em duas prestações de 3.365 euros cada uma”. Apesar de não saber ao certo a que meses faz referência o valor a pagar, António deduz “que sejam valores de agosto e setembro”.

Foto: Miguel Nogueira/CMP

Os trabalhadores da cervejaria do Porto já tinham conseguido regularizar a sua situação no que respeita ao pagamento de salário e subsídio de Natal em atraso (relativo a 2018), confirmou à Lusa fonte sindical. “Com a receita desta semana, já liquidaram o subsídio de Natal que estava em falta, regularizando assim a sua situação”, disse Nuno Coelho, do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares.

O coletivo deveria ter-se reunido esta segunda-feira com representantes do Ministério do Trabalho – Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT), com a gerência da cervejaria Galiza e o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares, mas a pedido dos proprietários da empresa o encontro foi adiado.

“O cancelamento da reunião deveu-se ao facto de a advogada da dona do estabelecimento ainda estar em contacto com investidores. Agora estamos a tentar um novo agendamento já no mês de dezembro, entre o dia 5 e o 6”, revelou o funcionário António Ferreira ao Observador.

Autarcas do Porto jantam na Cervejaria Galiza por solidariedade

Na sequência de uma moção apresentada pela CDU, aprovada por unanimidade na reunião de executivo na passada segunda-feira, em que se expressa “pública e institucionalmente um apelo para a superação de todos os obstáculos com vista à viabilização da Cervejaria Galiza”, Ilda Figueiredo, vereadora comunista, organizou um jantar esta terça-feira no restaurante localizado na Rua do Campo Alegre.

A iniciativa, à qual se juntaram Rui Moreira, presidente da autarquia, e membros do Partido Comunista e do Partido Socialista, teve como objetivo prestar solidariedade aos 31 trabalhadores que, desde o dia 11 de novembro, mantêm a porta aberta, apesar das dificuldades enfrentadas nos últimos quatro anos, com dívidas que ascendem os dois milhões de euros às Finanças e à Segurança Social e ainda salários em atraso.

Foto: Miguel Nogueira/CMP

Segundo a deputada comunista, a cervejaria está em “risco iminente de encerramento”, processo que é preciso travar, tendo em conta os postos de trabalho em causa e o manifesto interesse social, histórico e gastronómico para toda a cidade”.

“Acho que é impossível votar contra a sua moção. (…) compreendo a boa intenção e acho que é bom que a cidade, à volta destes estabelecimentos, tenha esta atitude, é por isso que nós somos uma cidade diferente. Eu diria que temos uma cidade patriótica e nós achamos que todas estas coisas fazem parte de nós”, afirmou o presidente da autarquia, Rui Moreira, em resposta à proposta da vereadora.

Também o PS disse apoiar esta moção, salientando o exercício “de cidadania” por parte dos funcionários que não se conformam com esta situação. “Eles não sabem o que se passa, sabem é que está a ser delapidado o património quer do ponto de vista gastronómico e também da própria cidade”, afirmou a socialista Fernanda Rodrigues.

Nas últimas semanas foram muitas as personalidades que regressaram à Cervejaria Galiza em jeito de solidariedade, é o caso de Catarina Martins, José Soeiro ou Jerónimo Martins, mas também D. Januário Torgal Ferreira, bispo emérito das Forças Armadas. Veio prestar o seu apoio “sem espetáculo”, porque embora respeite “tanto o patrão como o funcionário, a parte mais fraca é que tem de ser defendida”, conta ao Observador.

“E tem de ser defendida pelo diálogo, não pela fuga e pelo abandono à sorte de gente que viu no trabalho e no suor de cada dia a sua esperança, quem colaborou com o brilho de uma casa – que o teve, até ser quase uma casa chique, de eleição, onde muita gente veio para se mostrar.”

D. Januário Torgal Ferreira bebeu um café mas pagou mais do que valor dele, um gesto “simbólico”, porque nem que “deixasse um milhão de euros resolvia o problema”. Além de mostrar apreço pela luta dos funcionários, o bispo emérito das Forças Armadas foi à Galiza “mostrar que a justiça salva tudo”.  “É isso que eu desejo para uma casa destas. É uma pena para o Porto uma casa destas fechar“, concluiu.

Fundada a 29 de julho de 1972, a cervejaria detida pela empresa Atividades Hoteleiras da Galiza Portuense é uma das referências do Porto no setor da restauração.