O Presidente dos EUA, Donald Trump, terá desbloqueado o pacote de ajuda militar norte-americana à Ucrânia apenas depois de ter sabido da queixa que motivou a abertura do processo de impeachment na Câmara dos Representantes.

A notícia é do The New York Times, que cita duas fontes, que não identifica. De acordo com aqueles relatos, Donald Trump foi informado pelos seus assessores jurídicos de que um funcionário não-identificado de uma agência de segurança dos EUA, tinha submetido uma queixa à sua hierarquia — informação que terá levado ao desbloqueio imediato de 391 milhões de dólares (355 milhões de euros, no câmbio atual) de ajuda militar à Ucrânia.

Até agora, Donald Trump e os seus defensores na Casa Branca e no Congresso têm sublinhado que, apesar de a ajuda militar à Ucrânia ter sido congelada por sua decisão, esta acabou por ser retomada também por iniciativa do Presidente. Esta nova informação, que a Casa Branca não comentou, pode adensar a tese de que Donald Trump utilizou o pacote de ajuda militar para a Ucrânia como meio de chantagem para obter ganhos eleitorais e que decidiu desbloqueá-lo apenas quando percebeu que havia uma queixa.

O principal momento que lança suspeitas sobre as intenções do Presidente dos EUA é o telefonema que este teve com o seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky. Naquele telefonema, depois de o chefe de Estado da Ucrânia ter feito uma referência àquele pacote de ajuda militar, Donald Trump disse: “Só que gostava que nos fizesse um favor” (“I would like you to do us a favor, though”, no original). E foi aí que referiu o filho de Joe Biden, cuja passagem pela Ucrânia estava a ser investigada pelo amigo e advogado pessoal de Donald Trump, Rudolph Giuliani.

O pacote de ajuda militar acabou por ser desbloqueado em setembro, sem que a Ucrânia tivesse feito esse tal “favor” que Donald Trump referiu.

Duas semanas antes daquele telefonema, no dia 12 de julho, Donald Trump instruiu a sua equipa para que a ajuda militar à Ucrânia fosse congelada. Duas semanas mais tarde (e no dia seguinte ao ex-procurador extraordinário Robert Mueller ter deposto no Congresso sobre as suspeitas de conluio entre o Kremlin e a campanha de Donald Trump em 2016), o Presidente dos EUA fez a chamada com o seu homólogo ucraniano que está na base da queixa que deu origem ao atual processo de impeachment. No dia 27 de setembro, e depois de pressão tanto de democratas como republicanos, o Pentágono confirmou que os EUA tinham desbloqueado os 391 milhões de dólares para ajudar a Ucrânia a defender a sua fronteira de Leste.

A notícia do The New York Times surge menos de uma semana depois de o embaixador dos EUA na União Europeia, Gordon Sondland, ter dito à comissão de inquérito dos serviços secretos da Câmara dos Representantes que Donald Trump o instruiu para passar à Ucrânia a mensagem de que para desbloquear a ajuda militar os Presidente dos EUA exigia em troca uma declaração do seu homólogo ucraniano em como iria ser aberta uma investigação contra o filho de Joe Biden, Hunter Biden, e a sua passagem pela empresa Burisma.