Já podemos ter ultrapassado vários pontos sem retorno para conseguirmos conter as consequências mais graves do fenómeno do aquecimento global. A conclusão é de sete especialistas neste tema que assinam um artigo na “Nature” onde colocam a necessidade de metas mais ambiciosas para a ação política nesta fase, indicando que, apenas através da análise isolada dos “pontos sem retorno” que “estamos num estado de emergência planetária: tanto o risco quanto a urgência da situação são agudos“.

Os cientistas colocam um grande ponto de interrogação à frente das promessas políticas quanto ao objetivo de redução de emissões de gases de efeito de estufa e dizem que mesmo que elas sejam cumpridas, “resultarão em pelo menos 3ºC de aquecimento global. Isto apesar do objetivo do acordo de Paris de 2015 limitar o aquecimento abaixo dos 2ºC”. No entendimento dos sete especialistas, “o aquecimento deve ser limitado a 1,5°C. Isso requer uma resposta de emergência“, escrevem no artigo Timothy M. Lenton, Johan Rockström, Owen Gaffney, Stefan Rahmstorf, Katherine Richardson, Will Steffen e Hans Joachim Schellnhuber.

A conclusão decorre da análise dos “pontos de não retorno”, uma espécie de escala que permite verificar em que ponto uma dada situação ambiental, provocada pelo aquecimento global, é irreversível . Os cientista avisam que já foi considerado que era necessário um aquecimento extremo de 5 °C para passar estes pontos, mas os estudos mais recentes sugerem que isso poderia acontecer logo entre 1 °C e 2 °C.

E há exemplos concretos avançados. Os especialistas mostram que “pesquisas realizadas na década passada mostraram que as alterações do mar de Amundsen na Antártida Ocidental podem ter passado de um ponto de não retorno”, por exemplo.  “A linha onde o gelo, o oceano e a rocha se encontram está a recuar irreversivelmente”, detalham. E a instabilidade dessa região pode provocar um efeito dominó, já que “pode desestabilizar a restante camada de gelo da Antártica Ocidental” e levar “a um aumento de cerca de 3 metros no nível do mar numa escala de tempo de séculos a milénios”.

Outro exemplo apontado: “A camada de gelo da Gronelândia está a derreter a uma velocidade acelerada. Poderia fazer subir em sete metros o nível do mar ao longo de milhares de anos”. Os modelos citados pelos cientistas “sugerem que o manto de gelo da Gronelândia poderia estar condenado a 1,5 ° C do aquecimento, o que poderia acontecer a partir de 2030”. Outro caso preocupante é a perda da floresta na Amazónia. Porque todos os elementos acabam por estar ligados.

Afinal, explicam, a “interação” entre estes sistemas biofísicos pode levar a uma “cascata de pontos de não retorno” — e os cientista acreditam que “vários pontos críticos estão perigosamente próximos”. “Exceder os pontos de inflexão num sistema pode aumentar o risco de cruzá-los noutros” e as interações entre os sistemas são muitas, como exemplificam ao explicarem como o degelo do Ártico e da Gronelândia estão a provocar um “influxo de água fria no Atlântico Norte” e que isso até “pode já ter contribuído para uma desaceleração de 15%, desde meados do século XX, da Circulação Meridional de Viragem do Atlântico (AMOC), uma parte essencial do transporte global de calor e sal pelo oceano” . E isso, por sua vez, “desestabiliza a monção da África Ocidental, desencadeando a seca” e também da Amazónia, do leste asiático e o aumento de calor no Oceano Antártico, acelerando o degelo na Antártica.

Na nossa opinião, a consideração dos pontos críticos ajuda a definir que estamos numa situação de emergência climática e fortalece o coro de pedidos por ações climáticas urgentes — de crianças em idade escolar a cientistas, cidades e países”, escrevem os cientistas.

É por isto que se juntaram para dizer que “a mitigação das emissões de gases de efeito estufa ainda pode desacelerar a inevitável acumulação de impactos”: “Talvez já tenhamos comprometido as gerações futuras a viver com aumentos do nível do mar de cerca de 10 metros ao longo de milhares de ano. Mas essa escala de tempo ainda está sob o nosso controlo” e ainda pode dar tempo para a adaptação das populações a essa realidade inevitável da subida do nível do mar. Ou seja, pode dar tempo para deslocar as os centros populacionais que estão nos níveis mais baixos.

Uma coisa é certa, para este conjunto de especialistas, a análise isolada destes pontos críticos mostra que a Terra está “num estado de emergência”. O cálculo desta “emergência” é feito através de uma fórmula: “A situação é uma emergência se o risco e a urgência forem altos. Se o tempo de reação for maior que o tempo de intervenção restante, perdemos o controlo”. Terminam o artigo a argumentar coma  necessidade de uma “ação internacional — não apenas palavras — que reflicta” esta mesma emergência.