Em entrevista ao El País, o ex-Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou a sua inocência nos nove processos em que é arguido e referiu que “certamente começará a ter manifestações no Brasil” à semelhança daquelas que decorrem contra governos de direita na América do Sul, como é o caso do Chile, Colômbia e Peru.

Embora refira que essa onda de manifestações ainda não chegou ao Brasil porque “faz muito pouco tempo que o Bolsonaro foi eleito”, Lula disse que acredita que em breve podem estar reunidas as condições para também naquele país haver protestos do mesmo tipo.

“Se agrava a questão do desemprego, da diminuição da renda, tendo dificuldade de comprar as coisas mínimas para comer, por exemplo, a carne aumentou muito, o gás de cozinha, ou seja, as pessoas estão cada vez ganhando menos. Tem muita gente vivendo com pouco dinheiro e o Governo não fala em política de desenvolvimento. Isto vai criando uma insatisfação. Na medida que essa insatisfação tiver acumulada, certamente começará a ter manifestações no Brasil”, disse o ex-Presidente brasileiro.

“E o povo está passando necessidade”, continuou mais à frente Lula. “Hoje mesmo eu levantei e fiquei sabendo que o preço da carne está insuportável. Uma pessoa que comprava meio quilo de carne moída por 23 reais hoje paga 28, 29 reais. Ou seja, as coisas estão subindo muito. A diferença é que no meu Governo o povo podia comer a melhor carne, fazer churrasco, tomar cerveja todo fim de semana.”

Provar inocência “é uma questão de honra”

Em mais uma entre as várias entrevistas que tem dado desde que foi libertado a 8 de novembro (na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal de Justiça que não o inocentou mas que, ainda assim, determinou a libertação dos presos cujos processos ainda não tenham transitado em julgado), Lula falou de forma geral dos nove casos em que é arguido.

“Mas pode ter [até] 20 casos. Na verdade o que está sendo julgado é o mandato do Lula. E eu quero que seja julgado para o povo compreender o que aconteceu nesse país”, sublinhou.

Lula disse que o seu principal objetivo é a de “provar que todos os processos” em que o seu nome aparece “são falácias, são mentiras, são invenções, tanto dos media quanto do Ministério Público e do juiz Moro”.

“Para mim, é uma questão de honra provar para 210 milhões de brasileiros que eles são mentirosos”, sublinhou.

Sobre o ministro da Justiça Sergio Moro, que enquanto juiz condenou Lula em primeira instância no caso do triplex do Guarujá, o ex-Presidente disse que estar “convencido” da sua inocência e que por isso não fugiu do Brasil agora que está em liberdade. “O juiz Moro sabe, hoje ministro Moro, que eu durmo mais tranquilo do que ele, eu durmo o sono dos inocentes e ele dorme o sono dos mentirosos”, disse.

Esta entrevista foi dada esta quarta-feira, dia em que a sentença de Lula no caso do sítio de Atibaia (paralelo ao caso do triplex do Guarujá, pelo qual o ex-Presidente foi preso em abril de 2018) subiu de 12 anos e 11 meses para 17 anos e 1 mês de prisão.

Disponível para dar uma “ajudazinha” ao PT

Sobre o seu futuro político, Lula demonstrou estar disponível para ajudar o PT, mas não assumiu a possibilidade de vir a ser candidato a nenhumas eleições — algo que, para a acontecer, teria de ser precedido da anulação da sua sentença, tal como da revogação da inabilitação dos seus direitos políticos enquanto condenado em segunda instância, ao abrigo da Lei da Ficha Limpa.

“Quero ajudar a reconstruir o Partido dos Trabalhadores e preparar o partido para disputar as eleições de 2020 para a prefeitura e para presidente em 2022”, assumiu Lula.

Ser candidato, porém, é algo que parece estar fora de hipótese para o ex-Presidente. “Gostaria de não ser porque eu já estou com 74 anos de idade. Em 2022 eu vou estar com 77 anos de idade. Não é recomendável. Agora, eu estou com saúde, estou preparado, se na hora que for colocar o time em campo precisar de uma ajudazinha, eu estou lá para ajudar. Eu posso ser cabo eleitoral de outros candidatos. Já cumpri a minha meta como Presidente”, sublinhou.