“Knives Out: Todos São Suspeitos”

Um velho, famoso e multimilionário escritor de policiais aparece degolado na sua mansão e a polícia desconfia dos seus familiares, que tinham todos boas razões para o assassinar. Realizado por Rian Johnson (“Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi”), “Knives Out: Todos São Suspeitos” é parte “pastiche” dos policiais tradicionais ao estilo de Agatha Christie, parte “Cluedo” com atores, tudo atualizado com uma mensagem pró-emigração e anti-Trump embutida no enredo. Tirando esta intromissão “liberal”, a história é engenhosamente sinuosa, a casa da família um excelente cenário para uma intriga com estas características e as interpretações muito agradáveis. Jamie Lee Curtis, Don Johnson, Michael Shannon, Toni Collete e Chris Evans personificam os principais e mais odiosos parentes do assassinado (Christopher Plummer), Ana de Armas é a enfermeira boazinha deste e Daniel Craig diverte-se a cabotinar no papel de um detective privado sulista que exibe um sotaque arrevesadíssimo.

“Onde Estás, Bernadette?”

Custa a acreditar que Richard Linklater, o autor de filmes como a trilogia “Antes do Amanhecer”/”Antes do Anoitecer”/”Antes da Meia-Noite”, “Escola de Rock”, “Me and Orson Welles” ou “Boyhood: Momentos de uma Vida”, seja o autor desta pífia e sensaborona adaptação ao cinema do “best-seller” de Maria Semple, sobre uma genial e célebre arquiteta (Cate Blanchett num dos piores papéis da sua carreira) que abandonou a profissão para se dedicar à família e ao restauro da mansão onde vivem, e que um dia deixa tudo para trás para se “redescobrir” nos gelos antárticos. E é impossível termos qualquer simpatia pela personagem principal, tão exasperante, inconsciente e mimada é Bernadette. Se esta frivolidade não foi um filme puramente alimentar e mercenário para Linklater, então não sei o que lhe terá passado pela cabeça.

“Comportem-se Como Adultos”

Costa-Gavras, autor de clássicos do cinema de intervenção política como “Z — A Orgia do Poder”, “A Confissão” ou “Estado de Sítio”, filma aqui o livro do ex-ministro das Finanças grego Yannis Varoufakis, em que este revela as suas negociações com a União Europeia e a Troika, durante a crise grega de 2015, quando o Syriza estava no poder e a Grécia a um passo da bancarrota e da saída do Euro. Um duelo de David contra Golias, que este ganhou. O realizador é um admirador acrítico de Varoufakis, “Comportem-se Como Adultos” está rodado como um banal telefilme e o final “dançado” é ridículo, mas a fita é um importante testemunho sobre a prepotência, arrogância e hipocrisia de Bruxelas e dos sinistros eurocratas não-eleitos que dominam as cúpulas de decisão europeia, e do seu desprezo pelos governos eleitos e pelas soberanias nacionais.

“O Irlandês”

Disponível em Portugal apenas na Netflix, o novo filme de Martin Scorsese baseia-se no livro de Charles Brandt I Heard You Paint Houses (em calão mafioso, “pintar casas” significa matar a troco de dinheiro – a “pintura” é o sangue da vítima que espirra para as paredes). O filme é contado em “flashback” por Frank Sheeran (Robert De Niro), um “gangster” idoso e doente, que sobreviveu à mulher e a todos os outros mafiosos, tem pouco contacto com as quatro filhas, vive numa casa de repouso e sente a sua hora aproximar-se. Al Pacino, no papel do líder sindicalista Jimmy Hoffa, Joe Pesci (saído da reforma expressamente para entrar em “O Irlandês”), Hervey Keitel, Ray Romano, Anna Paquin, Bobby Cannavale e Stephen Graham constam também do elenco. “O Irlandês” foi escolhido pelo Observador como filme da semana, e poder ler a crítica aqui.