Se as plataformas voltaram em força às ruas, o pioneirismo leva-nos a uma era muito anterior a este regresso. O crédito cabe a Terry de Havilland, o designer britânico que levou cada protagonista a desfilar nas alturas a partir dos seus extravagantes sapatos, e que morreu esta quinta-feira, aos 81 anos.

O historial vertiginoso abrange boa parte do imaginário rock n’roll dos anos 60 e 70, período áureo de uma montra que encontrava o seu pouso na célebre King’s Road londrina. Numa época em que a discrição e o conservadorismo dominam por completo o ritmo de cada passada, Havilland elevou os sapatos a autênticas e desafiadoras obras de arte, que de funcional ou comedido tinham muito pouco.

Em 2013, numa festa em Paris © Getty Images

Nomes como David Bowie, os elementos dos Led Zeppelin, Cher, Bette Midler, Patti Boyd, Bianca Jagger, Marianne Faithfull ou Jerry Hall ousaram com os seus modelos cintilantes, dos efeitos metálicos à pele de  cobra ou crocodilo, sem esquecer os formatos transparentes. Nem a clássica Jackie Onassis escapou à febre das suas botas das suas stiletto boots. A verdade, garante Darla-Jane Gilroy, do London College of Fashion, à WWD, é que “antes de Terry de Havilland” as pessoas não olhavam para os pés. Ele fe-las olhar para baixo”.

O designer habitou os seus clientes a caminhar nas alturas. David Bowie foi uma das lendas que deu vida às suas criações © Shutterstock

Numa fase mais recente, Terry, que trabalhou na Waverley Shoes, o negócio do seu pai (chegando na altura a calçar as coristas do Soho e ricos empresários dos teatros da capital), calçou figuras como Kate Moss, Sienna Miller, Georgia May Jagger e Alison Goldfrapp. O curriculum inclui ainda os pés de Tim Curry em “The Rocky Horror Picture Show”, em 1975, e o calçado de Angelina Jolie em “Lara Croft: Tomb Raider”.

Ao The Guardian, o designer nascido em Barking, no leste de Londres, chegou a admitir que desenhava os seus sapatos sob o efeito do álcool, e não esquecia a mítica festa de abertura da sua loja, onde imperaram os três C’s: “champanhe, cocaína e caviar. Deus sabe quem lá estava — toda a gente”