Existem duas formas de olhar para o sorteio de Portugal na fase de grupos do Euro 2020. A primeira, mais pessimista mas também mais imediata, prende-se com o facto de a Seleção Nacional ir encontrar logo na primeira fase do Europeu a atual campeã do mundo e uma equipa com tradição de causar muitos problemas a Portugal. A segunda, mais otimista mas que requer maior análise, recorda que a seleção portuguesa costuma agigantar-se contra os países teoricamente mais complicados e descomplexar os jogos que seriam, à partida, mais difíceis.

Sorteio do Euro 2020. Portugal vai jogar com Alemanha e França no ‘grupo da morte’, mas (vá lá!) fica nas cidades mais próximas

Ora, quer se escolha um ou outro caminho, a única verdade absoluta é que Portugal vai encontrar França e Alemanha no Grupo F do Campeonato da Europa 2020. O terceiro e último adversário só vai ser conhecido em março, por aparecer diretamente do playoff, mas será a Islândia, a Bulgária ou a Hungria (sendo que a Roménia, também neste grupo do playoff, terá de ir para o Grupo C em caso de vitória para disputar pelo menos dois jogos em casa).

França, entre um histórico perigoso e uma boa memória

Mas vamos pelo princípio. A Seleção Nacional vai encontrar a seleção francesa que venceu na final do último Europeu, em julho de 2016, mas que acabou por conquistar o Mundial 2018 na Rússia. A equipa de Didier Deschamps, que se qualificou para a fase final da competição ao ficar em primeiro lugar no Grupo H (onde também estavam Turquia, Islândia, Albânia, Andorra e Moldávia), ganhou oito dos dez jogos do apuramento, tendo empatado um e perdido outro, e assenta nesta altura numa das gerações mais talentosas dos últimos anos.

Com especial preponderância no setor ofensivo — onde estão, entre outros, Mbappé, Griezmann, Giroud, Martial e Lemar –, a qualidade francesa acaba por espalhar-se por todos os setores do relvado. Lloris e Areola, guarda-redes do Tottenham e do Real Madrid, são as opções para a baliza; Varane, titular na defesa merengue ao lado de Sergio Ramos, é o capitão de equipa e patrão de um setor que tem também Pavard, Lucas Hernández e Mendy; e Pogba é um dos pêndulos de um meio-campo que tem como opções N’Golo Kanté, Matuidi, Guendouzi e Ndombélé.

Griezmann e Mbappé são os principais perigos da seleção francesa

Portugal inverteu a história na final do Euro 2016, com o golo de Éder aos 109′ e já no prolongamento: antes da final de Paris, a Seleção Nacional tinha sido eliminada duas vezes pela seleção francesa em grandes competições, primeiro nas meias-finais do Euro 2000 (com golos de Henry e Zidane contra um solitário de Nuno Gomes) e depois também nas meias-finais mas do Mundial 2006 (com uma grande penalidade de Zidane). Pelo meio, em dois particulares, França venceu sempre e o histórico em confrontos entre as duas equipas recorda mesmo que Portugal perdeu 10 dos 18 jogos que disputou com os franceses ao longo dos tempos.

Depois de golear a Croácia na final do Mundial 2018 e tornar-se campeã do mundo 20 anos depois da última vez, a seleção francesa falhou a final four da Liga das Nações ao ficar no segundo lugar do Grupo 1 (de onde saiu a Holanda que acabou por perder a final com Portugal). A eficácia da bem oleada equipa comandada por Didier Deschamps é a principal ameaça às ambições do conjunto de Fernando Santos, já que os franceses marcaram mais de dois golos em cinco dos dez jogos da qualificação.

Para Portugal e da Alemanha, nem bons ventos nem bons casamentos

Depois, a Alemanha. Se o histórico com a seleção francesa não abona a favor das ambições portuguesas, com os alemães Portugal soma 18 derrotas ao longo de 25 jogos. Na última vez que as duas equipas se encontraram, o conjunto de Joachim Löw goleou a Seleção Nacional na altura orientada por Paulo Bento no primeiro dia da fase de grupos do Mundial do Rio, em 2014 (que a Alemanha acabaria por conquistar e onde Portugal não conseguiu sequer chegar aos oitavos de final).

Ainda assim, a Alemanha de Low atravessa desde o verão do ano passado um período turbulento que pode ainda não estar resolvido. Em 2018 e na Rússia, os alemães foram eliminados logo na fase de grupos pela primeira vez na história — numa edição em que eram campeões em título — e na Liga das Nações a equipa ficou no último lugar do Grupo 1, com apenas dois pontos conquistados ao longo de quatro jogos, falhando o acesso à final four da competição. Na qualificação para o Europeu, porém, a Alemanha conseguiu ficar no primeiro lugar do grupo onde também estava a Holanda e garantir desde logo a presença no Pote 1 do sorteio.

Gnabry tem estado em destaque na seleção alemã

Depois de deixar Muller, Boateng e Hummels de fora das opções da seleção durante o apuramento, Löw deve contar com uma equipa muito interessante do ponto de vista ofensivo no Europeu. Além de Timo Werner, que tem mostrado a qualidade ao serviço do RB Leipzig, o selecionador tem ainda à disposição Gnabry, a realizar uma grande temporada no Bayern Munique, o jovem Kai Havertz, Marco Reus e ainda Leroy Sané, lesionado desde o início da época mas provavelmente apto na altura da convocatória. Com jogadores como Kroos, Emre Can, Gündoğan e Julian Brandt no setor intermédio, a principal indefinição da Alemanha acaba por estar na baliza: Neuer e Ter Stegen, os guarda-redes do Bayern Munique e do Barcelona, já foram os protagonistas de uma polémica que envolveu o presidente do clube alemão há alguns meses e vão disputar a titularidade na seleção até às últimas instâncias.

Mais do que a qualidade individual e coletiva, algo aquém daquilo que já demonstrou noutros anos, a principal ameaça da Alemanha acaba por ser a típica e tradicional frieza da equipa de Joachim Löw — a capacidade de desbloquear um jogo em que até estava a ser inferior, a eficácia na hora de resolver partidas complexas e o calculismo defensivo para evitar dissabores.

Islândia, Bulgária e Hungria: as três opções para a última vaga

Com a Roménia fora das opções, por ir parar ao Grupo C para jogar em Bucareste em caso de vitória no playoff, Islândia, Bulgária e Hungria são as principais possibilidades para agarrar a última vaga do grupo onde está Portugal. Os primeiros, que já estiveram no grupo com a Seleção Nacional no Euro 2016, impuseram um empate a Portugal em França e impressionaram nessa mesma competição, tanto pelo apoio dos adeptos como pela surpreendente qualidade dos jogadores, que só caíram nos quartos de final e acabaram por garantir transferências para as grandes ligas europeias. Na qualificação, a Islândia acabou por ser terceira no Grupo H, atrás da França e da Turquia, mas tem em Gylfi Sigurðsson e Albert Guðmundsson, jogadores do Everton e do AZ Alkmaar, os grandes ativos da equipa.

Segue-se a Bulgária. A seleção orientada pelo ex-Sporting Krasimir Balakov até há poucas semanas — demitiu-se depois dos insultos racistas dirigidos por adeptos a jogadores da seleção inglesa — ficou no quarto lugar do Grupo A, atrás de Inglaterra, República Checa e Kosovo. Os búlgaros não vão a um Europeu desde 2004 e contam com Kraev, médio que alinha no Gil Vicente, e ainda Slavchev, jogador que passou pelo Sporting. Por fim, a Hungria. Os húngaros ficaram na quarta posição do Grupo E, atrás da Croácia, do País de Gales e da Eslováquia, e também estiveram no grupo de Portugal no Euro 2016 (também empataram com a seleção portuguesa, num jogo com seis golos e um bis de Ronaldo). O guarda-redes Gulácsi, titular do Rb Leipzig, e o experiente médio Dzsudzsák, agora no Al-Ittihad mas com passagem pelo PSV, são os principais destaques da seleção húngara.