Ilori, o espelho de uma equipa que não encontra a saída do carrossel (a crónica do Gil Vicente-Sporting)

O Sporting sofreu o primeiro golo depois de um erro de Ilori, sofreu o segundo de penálti e o terceiro numa fase de desnorte. E perdeu com o Gil Vicente após três vitórias seguidas (3-1).

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O segundo golo do Gil Vicente foi marcado de grande penalidade

EPA

O segundo golo do Gil Vicente foi marcado de grande penalidade

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Desde que Silas chegou ao comando técnico do Sporting, no final de setembro, a equipa atravessou dois ciclos curtos mas em tudo semelhantes. Logo depois de chegar, o treinador venceu os dois primeiros jogos e encerrou um mês longo e terrível em que os leões somaram quatro derrotas e um empate em cinco partidas. Seguiu-se a derrocada em Alverca e a eliminação da Taça de Portugal. Depois, três vitórias seguidas a uma aparente nova retoma. No início de novembro, derrota em Tondela.

De lá para cá, o Sporting levava três vitórias: uma na Noruega perante o Rosenborg, outra em casa com o Belenenses SAD e uma goleada em Alvalade, com o PSV com que tinha perdido na Holanda e que valeu o apuramento para os 16 avos de final da Liga Europa. Ora, por muito que os quatro golos contra nenhum sofrido que os adeptos testemunharam a meio da semana contra os holandeses tenham motivado uma equipa que à entrada para a 12.ª jornada sabia que sairia dela como entrou — em quarto lugar –, a verdade é que o ciclo atual tinha demasiadas semelhanças com os dois anteriores.

Ficha de jogo

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Gil Vicente-Sporting, 3-1

12.ª jornada da Primeira Liga

Estádio Cidade de Barcelos, em Barcelos

Árbitro: Hugo Miguel (AF Lisboa)

Gil Vicente: Denis, Fernando Fonseca, Ygor, Rúben Fernandes, Henrique Gomes, Claude Gonçalves, Soares, Kraev, Baraye (João Afonso, 86′), Sandro Lima (Naidji, 73′), Arthur Henrique (Lourency, 45′)

Suplentes não utilizados: Wellington, Romário, Leonardo, Edwin Vente

Treinador: Vítor Oliveira

Sporting: Luís Maximiano, Rosier, Ilori (Eduardo, 83′), Mathieu, Acuña, Doumbia, Wendel (Bolasie, 68′), Bruno Fernandes, Jesé (Rafael Camacho, 76′), Luiz Phellype, Vietto

Suplentes não utilizados:Diogo Sousa, Luís Neto, Borja, Miguel Luís

Treinador: Silas

Golos: Kraev (18′), Wendel (45+4′), Sandro Lima (gp, 55′), Naidji (90+9′)

Ação disciplinar: cartão amarelo para Fernando Fonseca (16′), Doumbia (24′), Kraev (31′), Acuña (53′), Lourency (59′), Claude Gonçalves (80′)

E o jogo deste domingo, em Barcelos, parecia incluir todas as premissas necessárias para colocar um terceiro travão ao trabalho desenvolvido por Silas. O Gil Vicente, que ganhou ao FC Porto na primeira jornada, entrava para este fim de semana ainda sem derrotas em casa para a Primeira Liga e depois de duas vitórias seguidas para o Campeonato, contra o Marítimo e o Desp. Aves. E o discurso do treinador Vítor Oliveira, que recordou que o Sporting “não era tão mau como se dizia há quatro semanas mas nem agora está tão bom como querem fazer parecer”, deixava claro que o Gil Vicente tinha um objetivo real e palpável para a partida deste domingo: atrapalhar, a palavra que Vítor Oliveira usou na antevisão.

As semelhanças da fase atual do Sporting com as duas que o antecederam, porém, tinham uma diferença que anulava a capacidade de fazer previsões. Nos últimos três jogos, além de ter vencido, o Sporting não sofreu qualquer golo: um dado que não é só uma novidade na equipa leonina esta temporada como também nos últimos dois anos, período temporal em que os leões não alcançaram uma série de três jogos sem qualquer golo sofrido. E era por aí, e através da manutenção dessa estatística positiva, que Silas ia tentar quebrar o estigma da derrota depois de várias vitórias consecutivas.

Mesmo com Renan apto, como confirmou na conferência de imprensa de antevisão, e já a integrar a primeira lista de convocados, Silas deixou o guarda-redes brasileiro de fora dos 18 e manteve Luís Maximiano na baliza dos leões. Face à equipa que goleou o PSV em Alvalade, o técnico só fez uma alteração: Jesé entrava para o onze inicial, para o lugar de Bolasie, e fazia companhia a Vietto e Luiz Phellype na frente de ataque leonina. Coates ainda é baixa por lesão e era novamente rendido por Ilori ao lado de Mathieu e Wendel, que voltou de castigo interno contra os holandeses, era outra vez titular no meio-campo em conjunto com Bruno Fernandes e Doumbia. Naquele que era o primeiro de dois jogos no espaço de uma semana contra o Gil Vicente — as duas equipas voltam a encontrar-se na quarta-feira, para a Taça da Liga, e os leões vão ficar em estágio no Minho durante os próximos dias –, o Sporting foi surpreendido por uma pressão alta e quase individualizada por parte dos gilistas nos minutos iniciais e foi obrigado a lateralizar para conseguir avançar.

O modelo de jogo montado por Vítor Oliveira para a receção ao Sporting fazia-se principalmente a partir de um jogador, Kraev, que ao invés de atuar na frente de ataque ao lado de Sandro Lima estava mais recuado. O avançado búlgaro ajudava a manter a superioridade numérica do Gil Vicente no setor intermédio e era um dos elementos que aplicava uma pressão quase homem a homem, de forma a estagnar todas as investidas leoninas pela faixa central. Ainda assim, era Kraev quem aparecia de forma mais frequente no corredor direito, a apoiar Sandro Lima e a testar Acuña, que subia muitas vezes e era obrigado a recuar para dobrar o búlgaro. Assim, e até ao inaugurar do marcador, o Sporting não conseguia chegar com perigo e com a bola controlada à grande área de Denis, apesar da maior percentagem de posse, e tinha dificuldades em criar situações de golo.

A equipa de Vítor Oliveira, que durante toda a primeira parte teve mais remates do que os leões apesar de entregar a iniciativa ao adversário, acabou por chegar à vantagem aproveitando um erro de Tiago Ilori. O central português dobrou Sandro Lima no corredor lateral, para apoiar Rosier, mas acabou por perder a bola para o avançado; depois de entrar na grande área e aguentar a pressão dos defesas leoninos, Lima entregou a Kraev, que marcou à saída de Maximiano (18′). Apesar da desvantagem — e de ter sofrido um golo depois de três jogos de folha limpa –, o Sporting soube reagir e até melhorou, tornando a posse de bola mais assertiva e obrigando o Gil a juntar mais os setores. A dificuldade em colocar bolas verticais que rompessem com a organização defensiva dos gilistas mantinha-se, contudo, e o primeiro remate dos leões só apareceu já nos instantes finais da primeira parte, por intermédio de Wendel (43′).

Foi o próprio Wendel, que a par do inevitável Bruno Fernandes foi o mais inconformado ao longo da primeira parte, que acabou por marcar o golo do empate. Já durante o quarto minuto de descontos antes do intervalo, o médio brasileiro aproveitou um passe longo de Bruno Fernandes e rematou de primeira, rasteiro e na diagonal (45+4′). Denis, que parecia ter segurado a bola para depois a largar e permitir o golo, parece ter tido responsabilidades. O Sporting ia para o intervalo empatado — com Wendel a ter um timing perfeito para motivar a equipa — mas precisava de encontrar mecanismos para quebrar os setores do Gil Vicente e alimentar Vietto, Luiz Phellype e Jesé, todos muito escondidos na defesa adversária e longe dos espaços por onde andava a bola.

[Carregue nas imagens para ver alguns dos melhores momentos do Gil Vicente-Sporting:]

Na segunda parte, Vítor Oliveira trocou Arthur Henrique, um dos jogadores do Gil Vicente mais apagados durante a primeira parte, por Lourency, de forma a dar à equipa critério e discernimento na hora das transições rápidas. Silas não mexeu mas o Sporting entrou aparentemente mais móvel, com Vietto a balançar entre um corredor e outro para oferecer linhas de passe aos dois laterais e tentar arrastar defesas para soltar Luiz Phellype e Jesé. Contudo, e quando ainda não estavam cumpridos dez minutos da primeira parte, Acuña fez falta sobre Baraye dentro da grande área e Sandro Lima converteu a grande penalidade, repondo a vantagem do Gil Vicente (55′).

Novamente em desvantagem e contra uma equipa que estava cada vez mais compacta e recuada, a avançar apenas em contra-ataque e em velocidade, o Sporting continuava a rendilhar demasiado jogo, sem espaço nem abertas para conseguir chegar perto da baliza de Denis. Luiz Phellype estava muito isolado na zona central do ataque, Jesé continuava em claro subrendimento e Wendel quebrou da primeira para a segunda parte, entregando a Vietto e a Bruno Fernandes a principal responsabilidade de desequilibrar.

Silas respondeu à parca reação do Sporting à desvantagem — que tinha como único fator positivo o facto de nunca ter sido descontrolada, ao contrário do que aconteceu várias vezes no início da temporada — com uma alteração técnica que foi também tática. Bolasie entrou para o lugar de Wendel e passou a ocupar o espaço que havia sido de Jesé até àquele momento, na faixa direita, enquanto que o jogador espanhol passou a atuar ao lado de Luiz Phellype numa fase mais adiantada.

Com o Gil Vicente totalmente recuado e a gerir a vantagem, Silas procurou asfixiar o adversário com as entradas de Rafael Camacho e Eduardo, para colocar mais elementos junto de Luiz Phellype e balançar por completo a equipa para a frente. Mesmo com superioridade numérica no setor mais recuado do Gil Vicente, o Sporting só conseguiu fazer tudo aquilo que fez ao longo da partida: ter posse de bola, rendilhar, procurar e ficar longe da baliza. Faltou remate, atrevimento e desequilíbrio aos leões — e ao nono (!) minuto para lá dos 90′, já depois de um período de indecisão em que Hugo Miguel chegou a expulsar Doumbia depois de analisar as imagens do VAR mas voltou atrás quando alertado para o facto de o vídeo-árbitro não poder interferir nos cartões, Naidji ainda aumentou a vantagem da equipa de Vítor Oliveira (90+9′).

Depois de três jogos a ganhar sem sofrer qualquer golo, o Sporting voltou às derrotas e falhou a aproximação ao pódio da Primeira Liga. O Gil Vicente de Vítor Oliveira, depois de vencer o FC Porto na primeira jornada, bateu o Sporting e voltou a mostrar que é uma equipa que sabe organizar-se defensivamente para causar estragos no ataque. Já o conjunto de Silas, na imagem do erro de Tiago Ilori no primeiro golo — e numa altura em que as duas equipas ainda se estudavam e tudo estava em aberto –, voltou a repetir o ciclo que já viveu duas vezes num passado recente e parece não conseguir encontrar a saída do carrossel.

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