Em janeiro de 2018, quando o Liverpool anunciou a contratação de Virgil Van Dijk, poucos conheciam o central que tinha passado as três temporadas anteriores ao serviço do Southampton. Afinal, era um holandês de uma equipa da segunda metade da Premier League, que tinha chamado a atenção do futebol inglês durante os anos que passou no Celtic e que pertencia a uma seleção que perdeu espaço na dianteira internacional na última década. Ainda assim, o nome de Van Dijk não demorou muito a saltar para as manchetes dos desportivos de todo o mundo: de um dia para o outro, Van Dijk tinha-se tornado o defesa mais caro da história, ao custar 84, 5 milhões de euros aos cofres do Liverpool.

Passou um ano e oito meses. Harry Maguire bateu o recorde do holandês, ao transferir-se do Leicester para o Manchester United a troco de 88 milhões, e Van Dijk é já um dos principais nomes do futebol europeu. Desde que trocou Southampton por Liverpool, o central garantiu um segundo lugar da Premier League a um ponto do campeão Manchester City, uma Liga dos Campeões (mais uma final perdida), o prémio de melhor jogador do ano em Inglaterra em 2018/19 e ainda o troféu de Jogador do Ano para a UEFA, numa eleição em que superou Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Esta segunda-feira, depois de já ter ficado em segundo e atrás de Messi no prémio The Best, Van Dijk foi considerado o segundo melhor jogador do mundo pela France Football, que entregou pela sexta vez a Bola de Ouro ao argentino. Mas a verdade é que o central holandês poderia ter ficado muito longe de todos os sonhos que estabeleceu desde criança.

Foi o período no Celtic que levou o central para o futebol inglês

Filho de pai holandês e mãe oriunda do Suriname, começou a jogar nas camadas jovens do Willem II enquanto trabalhava a lavar pratos num restaurante. Depois de ter começado a carreira enquanto ponta de lança, graças ao faro de golo e à forte presença na grande área, depressa o instinto defensivo o levou a assumir uma posição no setor mais recuado. Só que, nos primeiros anos, Van Dijk jogava a lateral direito e nem sequer tinha grande espaço na formação do Willem II, já que era sempre considerado demasiado lento para assumir um lugar onde se espera que o ocupante percorra todo o corredor e tenha fôlego para voltar atrás e defender. Aos 17 anos, depois de crescer 18 centímetros num curto espaço de tempo — e chegar ao metro e 93 que tem atualmente –, acabou por ser colocado a central. Ainda assim, não conseguiu subir à equipa principal, porque o treinador considerava que tinha “demasiadas limitações”, e saiu para o Groningen depois de Martin Koeman, pai de Ronald, o ver jogar.

Foi em Groningen, a jogar na liga holandesa, que o central acabou por atravessar um dos períodos mais difíceis a nível pessoal. Pouco depois de fazer 20 anos, Van Dijk queixou-se de uma dor intensa na zona do abdómen no final de um jogo contra o Excelsior: os responsáveis médicos do Groningen avaliaram o jogador e decidiram que se tratava apenas de um problema gastrointestinal, nada preocupante, e acabaram por receitar alguns fármacos para as dores e para o desconforto. Dias depois, o holandês deslocou-se ao hospital por não aguentar as dores e foi imediatamente internado. Diagnóstico? Uma apendicite que tinha dado origem a uma peritonite e a uma infeção nos rins devido ao tempo que demorou a ser tratada. A mãe de Van Dijk viajou até à cidade holandesa, devido ao estado crítico do central, e o jogador acabou mesmo por ser aconselhado a deixar um testamento porque a probabilidade de morrer era elevada.

O jogador do Liverpool é o capitão de uma seleção holandesa que está a tentar reinventar-se

“Ainda me lembro de estar deitado naquela cama. A única coisa que conseguia ver eram tubos a sair de mim. O meu corpo estava quebrado e eu não podia fazer nada. Naquele momento, os piores cenários começam a aparecer na tua cabeça. A minha vida estava em risco. Eu e a minha mãe rezámos a Deus e discutimos os cenários possíveis. A dada altura, tive de assinar alguns papéis. Era uma espécie de testamento. Se eu morresse, uma parte do dinheiro ia para a minha mãe. Claro que ninguém queria falar sobre aquilo, mas tinha de ser feito. Podia ter acabado ali”, confessou o holandês numa entrevista em 2012. Superado o problema de saúde, Van Dijk voltou aos treinos com menos quilos e debilitado mas recuperou a forma física num tempo recorde e regressou à equipa no espaço de poucas semanas.

Tornou-se a figura principal da equipa, foi oferecido ao Ajax e ao PSV, que não o quiseram, e acabou no Celtic Glasgow. Foi bicampeão escocês em 2014 e 2015 e saiu para o Southampton e para a Premier League para dar o salto que está agora a colher frutos. Em Liverpool, sob a batuta de Jürgen Klopp, tornou-se rapidamente o patrão da defesa e corrigiu alguns erros defensivos e de estratégia que nas últimas temporadas haviam impedido os reds de alcançar os resultados esperados. Virgil, o nome que utiliza na camisola e que prefere, por estar de costas voltadas com o pai, é muitas vezes apelidado erradamente de capitão do Liverpool (quem usa a braçadeira é Henderson), pelo surpreendente e quase imediato papel de liderança que já assume sem ter dois anos de casa. Sendo já o líder de uma seleção holandesa que está a tentar voltar aos tempos de glória e que já marcou presença na final da Liga das Nações, começa agora a ter uma opção de longo prazo para tomar: ou ficar em Anfield e tornar-se uma lenda viva do Liverpool, à semelhança de Gerrard, ou sair para outro gigante europeu e conquistar títulos noutro país, noutra cidade e noutra língua.