O prémio para quem não brincou com o Loum é andar sempre em festa (a crónica do FC Porto-P. Ferreira)

Não há melhor desconto do que ver por 10 euros uma obra de arte como a de Zé Luís mas a história do FC Porto-P. Ferreira (2-0) foi escrita por quem não brincou com o Loum como Uribe e anda em festa.

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AFP via Getty Images

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O fim de semana que começou na sexta-feira e acabou no domingo foi de descontos (porque longe vão os tempos onde a expressão do Black Friday ficava resumida à sua expressão original) mas segunda-feira à noite ainda houve uma promoção que poucos aproveitaram mas muito gostavam de ter visto. Quantos locais conseguem ter obras de arte para serem vistas por dez euros (15 para não sócios)? Alguns, poucos, quase nenhuns, apenas um: o Estádio do Dragão, onde um jogador que andava arredado dos grandes palcos depois de uma lesão que retirou o protagonismo que tinha ganho entrou, parou no peito e marcou de bicicleta com nota artística. Num jogo com poucos remates e dois golos, o momento de magia de Zé Luís valeu por 90 minutos. Mas houve mais do que isso.

Depois da festa de aniversário da mulher, Uribe saiu das opções dos azuis e brancos. Marchesín recuperou o seu lugar na baliza, Luis Díaz tem ficado pelo banco, o colombiano ganhou desde aí cativo na bancada (Saravia também não está nas opções mas nunca chegou verdadeiramente a entrar). Sérgio Conceição viu-se obrigado a mexer na equipa do meio-campo para a frente e mudou com a entrada de Loum para reforçar o poderio no meio-campo. É certo que Uribe tem outra capacidade de ir à frente e de fazer triangulações nos corredores para soltar os alas por dentro ou os laterais por fora, mas o senegalês aumentou a capacidade de choque, deu outra força no jogo aéreo e permitiu que a equipa ganhasse outra estabilidade, como se vê na parte defensiva (um golo sofrido nos últimos quatro encontros). O médio demorou a ganhar lugar mas desde aí que anda sempre em festa.

Ficha de jogo

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FC Porto-P. Ferreira, 2-0

12.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Tiago Martins (AF Lisboa)

FC Porto: Marchesín; Wilson Manafá, Pepe, Marcano, Alex Telles; Danilo, Loum; Otávio (Nakajima, 85′), Corona (Sérgio Oliveira, 67′); Marega e Aboubakar (Zé Luís, 37′)

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Mbemba, Luis Díaz e Soares

Treinador: Sérgio Conceição

P. Ferreira: Ricardo Ribeiro; Bruno Santos, Marco Baixinho, Maracás, Bruno Teles; Luiz Carlos, Diaby (Oleg, 69′), Pedrinho; Hélder Ferreira, Uilton (Murilo, 60′) e Douglas Tanque (Diogo Almeida, 65′)

Suplentes não utilizados: Bertelli, André Micael, Rafael Gava e Vasco Rocha

Treinador: Pepa

Golos: Loum (18′) e Zé Luís (76′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Uilton (20′), Marcano (52′), Bruno Santos (60′), Diaby (62′) e Danilo (81′); cartão vermelho a Pepa (89′)

O encontro começou frio como o tempo, atrasado como as equipas até chegarem ao relvado mas nem por isso com fumo com o que coloriu de azul o topo Sul de um Estádio do Dragão com uma das piores assistências em encontros para o Campeonato, quase como se ainda fosse tempo de Black Friday e a febre das compras superasse a compra de ingresso para uma febre chamada futebol (e se calhar foi mesmo assim, ou não houvesse ali ao lado um centro comercial). No jogo jogado, nem ideias para começar a encher o saco: o FC Porto teve mais bola, tentou ir jogando no meio-campo contrário mas foi encontrando problemas pela forma como o P. Ferreira ia travando da melhor forma o jogo interior dos alas e a subida dos laterais, Wilson Manafá (única novidade) e Alex Telles.

Zé Uilton, numa jogada que começou com Alex Telles por sofrer um toque e com Marcano quase a cair com uma finta, teve o primeiro (e único) remate do quarto de hora inicial, para defesa atenta de Marchesín (14′). Os pacenses esticaram por uma vez a manta e por pouco não encolheram os dragões, os dragões levantaram uma vez a manta e mostraram como os pacenses eram curtos no jogo aéreo: com as torres Pepe, Marcano, Danilo e Loum na área, Alex Telles marcou um canto na direita e o senegalês estreou-se a marcar pelo FC Porto (18′), confirmando a clara preponderância que tinha conseguido em lances pelo ar nos 20 minutos iniciais com Danilo (20 duelos ganhos). Em paralelo, e para não variar, o lateral brasileiro mostrou também a influência que consegue ter em lances ofensivos, tornando-se o jogador com mais assistências na Liga e mais influência em golos da equipa.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do FC Porto-P. Ferreira em vídeo]

A partida manteve as mesmas características mas com os dragões na frente do marcador, o que dava uma outra estabilidade ao jogo da equipa – que também nunca foi particularmente criativo, acrescente-se. Marchesín, que voltou a ocupar a baliza no terreno dos azuis e brancos, voltou a destacar-se numa defesa complicada a remate de Hélder Ferreira na área, esquecido no lado esquerdo (27′) mas bastou uma descoordenação dos visitantes na zona defensiva montada no corredor central para o FC Porto voltar a criar perigo: Otávio recebeu por dentro, conseguiu virar-se com bola, viu a diagonal de Marega entre central e lateral mas o maliano acertou no poste (35′).

Mesmo sem uma exibição brilhante, mesmo sem forçar muito o ritmo, bastava uma mudança de velocidade com a bola a entrar na zona entre linhas para o FC Porto criar perigo. Até porque, além da explosão de Marega, o ataque contava ainda com um rejuvenescido Aboubakar, sem muita bola mas com 100% de eficácia nos passes e nos dribles feitos até aos 38′, altura em que sentiu uma dor na zona da coxa, caiu no relvado e acabou mesmo por ter de ser substituído por Zé Luís, naquela que foi a pior notícia de Sérgio Conceição até ao intervalo, que chegaria ainda com um livre direto de Pedrinho a sair por cima da trave dos azuis e brancos (40′).

Logo no arranque da segunda parte, uma jogada mostrou na perfeição aquilo que o FC Porto ganhou com todas as mudanças operadas na equipa desde o encontro no Bessa (e numa imagem que já se tinha visto na receção ao V. Setúbal para a Taça de Portugal): Danilo ganhou a bola na zona do meio-campo, avançou pela meia direita, passou por dois adversários em força e cruzou ao primeiro poste para a intervenção de Ricardo Ribeiro antes do desvio de Zé Luís. Com Corona mais apagado e Otávio intermitente entre dribles conseguidos e perdas de bola (e com um lance que gerou muitas dúvidas na área, onde levou um toque claro na cara), o internacional português conseguia ir dando safanões para a frente enquanto Loum dominava pelo ar num jogo com pouca ou nenhuma baliza.

À exceção de um remate de Bruno Teles para defesa fácil de Marchesín (63′) e de um remate de Loum para defesa apertada de Ricardo Ribeiro (71′), o perigo andou quase sempre longe das balizas e com o FC Porto a controlar o jogo ainda melhor depois da troca de Corona por Sérgio Oliveira, o que deu outra estabilidade no meio-campo aos azuis e brancos. E, sem gasolina para andar de mota (o mexicano foi exemplo paradigmático dessa falta de frescura física), foi de bicicleta que os dragões confirmaram a vitória: cruzamento largo de Alex Telles (quem mais?) para a área do lado esquerdo, paragem no peito de Zé Luís e remate de costas para a baliza sem deixar cair a bola de pé direito para o golo da jornada que sentenciou um encontro que há muito parecia sentenciado (76′).

No final, os dragões tiveram ainda uma bola no poste (com Ricardo Ribeiro a desviar ainda num lance que parecia ser golo certo) mas a vitória estava confirmada. Depois do desaire com o Rangers na Escócia, a que se seguiu a festa que juntou quatro dos sul-americanos até depois do regulamento interno em termos de horas, o FC Porto acertou os ponteiros dos resultados e somou quatro triunfos seguidos em três competições diferentes com oito golos marcados e apenas um sofrido. A exibição foi a melhor da época? Não. Mas foi segura. E permitiu manter a festa.

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