Seis polícias militares (PM) envolvidos na operação da festa funk em que morreram nove pessoas no estado brasileiro de São Paulo foram afastados do trabalho de rua nesta segunda-feira, para sua proteção, segundo a imprensa local.

“Os polícias estão preservados. Temos que concluir o inquérito. Eles continuarão nas unidades em serviços administrativos no mesmo horário, mas fazendo outras coisas, porque é uma área complexa. Havendo um outro evento parecido eles poderão ser prejudicados. Então, eles estão a ser preservados”, disse o comandante da PM de São Paulo, coronel Marcelo Vieira Salles, citado pelo portal de notícias G1.

O comandante disse ainda que, inicialmente, foram identificados seis agentes, mas que ainda será feita uma análise aprofundada. Porém, de acordo com o G1, o porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera, declarou no domingo que 38 agentes policiais participaram na ação em causa.

A organização não-governamental (ONG) Human Rights Watch (HRW) lamentou na segunda-feira a morte de nove jovens, que perderam a vida esmagados, durante uma intervenção policial numa grande festa na favela de Paraisópolis, em São Paulo.

“A HRW une-se ao luto pela morte de nove pessoas, incluindo quatro adolescentes, e pelo ferimento de pelo menos 12 pessoas, na favela de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, em 1 de dezembro. A polícia disse que se dirigiu ao baile funk atrás de dois fugitivos numa moto, mas moradores da favela disseram à imprensa que a operação parecia premeditada e não o resultado de uma perseguição”, alertou a ONG.

A organização de defesa de direitos humanos salientou que “o Ministério Público tem competência e obrigação constitucional de exercer o controlo externo sobre o trabalho da polícia”.

Desta forma, deve garantir uma investigação rápida, completa e independente sobre qualquer abuso e uso excessivo da força nesse caso, bem como sobre os ferimentos e as mortes”, apelou a organização internacional.

A intervenção aconteceu durante uma festa de funk, um estilo musical popular entre as comunidades suburbanas do Brasil, realizada numa das maiores favelas da região de São Paulo, onde vivem mais de 55.000 pessoas.

Segundo o boletim de ocorrência da polícia, os agentes estavam a perseguir duas pessoas que se deslocavam de motorizada em Paraisópolis, quando estes dispararam contra a polícia e fugiram para o meio da festa, onde se encontravam mais de 5.000 pessoas. A polícia chamou, de imediato, reforços e entrou no local quando as pessoas estavam a dançar.

Segundo a versão das autoridades, os agentes da polícia foram recebidos com pedras e garrafas, pelo que as equipas da Força Tática da Polícia Militar (PM) usaram “munições químicas” para “dispersar e [conseguir manter] a segurança dos agentes”, como consta de um relatório oficial ao qual a agência de notícias espanhola Efe teve acesso.

Contudo, a HRW frisa que num vídeo gravado por moradores é possível ver polícias a “encurralar dezenas de pessoas” numa viela e a bater-lhes com cassetetes. “As pessoas que sofrem a violência no vídeo parecem não opor nenhuma resistência, mas estarem apenas a tentar sair da área pacificamente. Um porta-voz da polícia militar de São Paulo disse que alguns dos vídeos da operação ‘sugerem abuso e ação desproporcional'”, indicou a ONG.

Numa conferência de imprensa realizada na segunda-feira, o governador de São Paulo, João Dória, negou que as nove mortes tenham sido provocadas pela ação da Polícia Militar. “A letalidade não foi provocada pela PM, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava a acontecer o baile funk. É preciso ter muito cuidado para não inverter o processo”, declarou João Dória à comunicação social local.