Numa entrevista ao programa semanal da RTP 3 “Tudo é Economia”, o presidente da Câmara Municipal do Porto, que chegou ao poder autárquico em 2013 e conquistou a maioria absoluta em 2017, afirmou que o seu objetivo sempre foi fazer um segundo mandado e não mais do que isso. “Acredito que as coisas fundamentais que eu preciso de fazer em dois mandatos vão ser possíveis de fazer. Se não forem, por questões externas, eu ficarei”, disse, deixando a porta aberta para uma nova candidatura.

Ainda que prefira “não ficar” para “deixar lugar aos outros”, Moreira adianta que ficará “se alguém tentar obstaculizar aquilo que tem de ser feito”, defendendo que os mandatos deveriam ser de cinco anos e renovados apenas uma vez. “Não nos devemos perpetuar no lugar, mas também quando fui para a Associação Comercial do Porto inicialmente pensei que ia ficar oito anos e fiquei 12, porque achei que era preciso.”

Aos 63 anos, Rui Moreira garante que não tem nenhuma ambição nacional. “Nunca mais farei política depois do que estou a fazer, isso posso garantir.” Rejeita também um possível cargo no Futebol Clube do Porto e adianta que irá continuar a fazer a sua vida, mas com mais tempo para o desporto, fotografia, família e livros. “Tenho saudades de escrever calmamente livros.”

Um dos assuntos que bem poderia dar um livro é a sua guerra com o Tribunal de Contas (TdC) pelo chumbo ao projeto do município para o Matadouro de Campanhã. “Há dez meses o TdC chumbou o nosso projeto e deu-nos dez dias para recorrermos (…) Achamos, tal como achou o Sr. Presidente da República, que o modelo é bom e não deveria ter chumbado”, recordou.

Segundo Moreira, a autarquia está há nove meses à espera que o TdC avalie o recurso, porque “tem o tempo que quer e não tem pressa”. “O drama disto é que enquanto não tivermos o recurso não podemos avançar com um plano B”, que, admite, “já está pronto”. Para o autarca, “isto leva-nos ao paradigma do que é hoje a governação em Portugal”. “Temos mandatos de quatro anos e se projetos desta natureza são atrasados em burocracias desta ordem, no mínimo, em dois anos, também começamos a compreender que o país não está preparado para novos desafios.”

Para o município trata-se de um projeto “fundamental” para Campanhã, sendo uma grande aposta para a zona oriental da cidade, mas “subitamente estamos à espera que uns vetustos senhores em Lisboa um dia se dignem a responder ao presidente da câmara”. Rui Moreira concluiu dizendo que “é a própria democracia e a própria liberdade do país que está em jogo”, sendo este um caso “inaceitável” e “uma vergonha para Portugal”.

“O turismo trouxe reabilitação, regeneração e bons negócios”

A entrevista, realizada no edifício Paços do Concelho, começou com a comparação do que era o Porto há seis anos, uma altura em que o turismo era apenas uma miragem. Para Rui Moreira, não foi ele que expulsou as pessoas do centro e sublinha que não se pode imaginar hoje uma cidade com todos os benefícios que o turismo trouxe sem turistas. “Isso não existe.”

Sabemos que temos uma determinada pressão turística. As pessoas de bom senso reconhecem que o turismo trouxe benefícios à cidade, trouxe reabilitação, regeneração e bons negócios, desde o pequeno lojista ao motorista de táxi. Criou emprego e causou um crescimento da economia. Nós gostaríamos de ter isso sem ter turistas, mas isso não é possível.”

O autarca admite que existe “uma determinada pressão urbanística”, adiantando que, através do Plano Diretor Municipal, a câmara “está a tomar as medidas necessária para regular isso”. Também no Orçamento Municipal, Moreira diz ter reduzido “fortemente” o investimento no turismo, pois já não é necessário. “O turismo já nos dá hoje, através da taxa turística, mais do que aquilo que nós investimos, ao contrário do que acontecia há seis anos.”

Sendo uma cidade “muito mais atraente” para o investimento português e estrangeiro, o Porto tem atualmente mais empresas, mais trabalhadores, mais carros, mais trânsito e mais lixo. “Hoje muito do trânsito é causado pela ocupação das passadeiras, por exemplo, na Avenida dos Aliados. Há oito anos o que havia nos Aliados como atividade económica? Um stand de automóveis e, naturalmente, não havia gente.”

Terminal Intermodal de Campanhã, linha de metro e nova ponte a caminho

Um dos grandes problemas da cidade é, admite Moreira, o trânsito. Para o resolver o autarca diz que a solução passa pela aposta na capacidade e na qualidade dos transportes públicos. A partir de janeiro, os municípios da Área Metropolitana do Porto irão ficar com a competência da STCP, ainda que com uma faturação “muito grande” para pagar. “Temos uma fatura que nos próximos anos vai chegar em crescendo até 2024 a qualquer coisa como 11 milhões por ano.”

Nesta matéria, Moreira não deixa de fazer críticas à falta de investimento por parte do Estado. “Os investimentos nos últimos anos dos governos no metro foram zero, nos comboios nem falo e mesmo na STCP foram muito poucos.” O autarca considera um “problema”, o facto de o crescimento da cidade ser “muito mais rápido que a transformação das infraestruturas” e não tem dúvidas de que Portugal “passou os últimos 40 anos sem fazer investimento na ferrovia”.

Consciente da “nova procura” que é preciso responder, o independente do Porto acredita que o Terminal Intermodal de Campanhã, com prazo de conclusão em 2021, vai resolver parte do problema, principalmente para os cidadãos que vêm da periferia.  O que terá de estar pronto em 2022 é uma nova linha de metro (rosa), que ligará a estação de S. Bento e a Casa da Música, e uma nova ponte entre Porto e Vila Nova de Gaia.

“Se a Rosa Mota quiser, já lhe disse, mando lá fazer uma estátua”

Uma das polémicas mais recentes em que o município esteve envolvido foi com a atleta portuense Rosa Mota, que não marcou presença na inauguração do renovado pavilhão, construído em 1952. Numa carta enviada a todos os vereadores da Câmara do Porto, a atleta olímpica disse-se “enganada” pelo executivo. Em causa está a introdução do nome “Super Bock Arena” à frente da toponímia anterior “Pavilhão Rosa Mota” que, segundo a campeã olímpica, resultou de uma decisão feita à revelia do acordado com a autarquia.

“Continua a chamar-se Pavilhão Rosa Mota e tem um nome comercial associado, assim se conseguiu resolver um problema que não se resolvia há 40 anos” defende o presidente nesta entrevista, recordando que a obra foi conseguida sem investimento público e permite à câmara receber dinheiro.

Também Marcelo Rebelo de Sousa fez parte da equação ao não ter estado presente na inauguração do pavilhão em outubro passado, afirmando mesmo que Rosa Mota “é mais importante do que todos os governos ou presidentes de Portugal”. Rui Moreira ironiza e afirma que a também acha Rosa Mota “muito mais importante que o Presidente da República, no desporto naturalmente”.

Ainda que tivesse pena de não ter a atleta olímpica ao seu lado naquele que considerou ser “um dia muito feliz para a cidade”, Rui Moreira considera que a questão “está resolvida”. “E se a Rosa Mota quiser, já lhe disse, mando lá fazer uma estátua.”