A fronteira do que é o livre arbítrio e do que é benéfico, ou não, são “terrenos” de “O futuro próximo”, terceira peça de “O nosso desportivo favorito”, a estrear esta quinta-feira no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

A afirmação é de Gonçalo Waddington, autor do texto e da encenação da terceira parte desta tetralogia, que fica em cena na sala Garrett do teatro e que dá continuidade à saga iniciada em 2016 com “Presente”, e continuada em 2017 com “Futuro distante”.

Bastante mais velhas, as personagens criadas por um cientista, que começaram a saga, na qual Gonçalo Waddington propõe uma reflexão sobre a evolução humana como espécie universal, regressam agora ao palco rodeadas das comodidades necessárias para fintar a morte, ainda que a desejem.

Perceber como e onde falharam é, assim, o objetivo de “O futuro próximo”, peça em que o autor e encenador admite haver “claramente a ideia de um grande líder”.

“Nós, hoje em dia, cada vez vemos mais este populismo todo a regressar (…), entrando assim numa ‘fronteira’ sobre o que é benéfico ou não, o que é salutar ou não, [sobre] o que é o livre arbítrio”, explicou o autor aos jornalistas, no final de um ensaio de imprensa.

A negação total da ciência por parte de quem, por mais evoluído que seja, continua a ser um “primata” é a questão fulcral de “O futuro próximo”.

“Uma das coisas que acho mais interessante é que nós todos vemos isto agora com grandes líderes de potências mundiais. Não preciso de ir muito mais longe do que isto”, afirmou Gonçalo Waddington, exemplificando com a declaração recente de um elemento da entourage “de Jair Bolsonaro, que postou um comentário na rede social Twitter em que referia que os Beatles e o rock só serviram para ajudar as raparigas novas a abortar”.

Apesar de estarmos cada vez mais evoluídos ao nível da tecnologia — e dos que negam a ciência se servirem, precisamente, dos meios tecnológicos mais recentes, para difundirem a mensagem que pretendem — a verdade é que a espécie humana “continua a ser primata”, como a determinada altura uma das personagens da peça afirma.

Ainda temos um “sistema digestivo e um sistema excretor muito parecido ao que tínhamos há milhares de anos, apesar de todas as tecnologias”, sublinhou Gonçalo Waddingnton, à semelhança do que a mesma figura diz na peça.

“A verdade é que nunca estivemos tão bem na vida, nunca tivemos uma qualidade de vida tão boa, obviamente não esquecendo as grandes diferenças sociais (…), é um facto que tecnologicamente somos evoluidíssimos mas nós, seres humanos, não estamos tão evoluídos como certas tecnologias”, referiu o autor e encenador.

Afinal, o que correu mal com as personagens da tetralogia cujo projeto inicial consistia na criação de uma nova espécie humana ou em deixar uma receita com a nova espécie, e que chega agora a “O futuro próximo” numa guerra “entre a vontade, o coração que, se calhar, deseja a morte, e a cabeça que, se calhar, diz para continuar”?

Eventualmente, o que terá corrido mal, segundo Gonçalo Waddington, é que as personagens “esticaram” de tal forma o seu “limite de vida” que estão a tentar perceber “se valeu a pena tudo o que andaram a fazer no passado”.

“Será que toda esta nossa investigação científica, todo este nosso delírio, que chega a ser quase uma seita — e não uma seita religiosa, se calhar quase religiosa mas, certamente, uma seita científica, valeu a pena?”, questionou, admitindo que a ideia inicial do projeto era também refletir sobre a criação artística.

“Há aqui uma clara ponte entre a criação científica, a investigação científica, e a criação artística, em que há uma dada altura em que não deve ser muito difícil alguém perguntar se valeu a pena tanto trabalho”, observou.

Exemplificado que tal acontece, com frequência, na área da Astrofísica ou da Física teórica em que, passados muitos anos, sobre a definição de uma teoria, até já depois de os seus autores terem morrido, é que há capacidade tecnológica para realmente se fazer a experiência.

Essa perspetiva visionária é algo que também acontece com artistas e escritores, disse, exemplificando com Proust e Kafka.

No caso de Proust, “acho que ele tinha noção da grandiosidade da sua catedral”, disse Waddington, numa alusão à obra “Em busca do tempo perdido”. A verdade é que o autor acabou por morrer e quem acabou por editar uma série de volumes foi o irmão, observou.

“Termos envelhecido, termos abdicado de tantas coisas da nossa vida — relações físicas, amorosas, os amores platónicos… tudo –, por causa de uma ideia que se calhar foi mesmo só isso, uma ideia, um ideal, inclusive quase ideologia que, se calhar, nos traiu”, foi na prática o que correu mal.

A interpretar “O futuro próximo” estão Carla Bolito, Carla Maciel, Gonçalo Waddington, Teresa Sobral e Tónan Quito. A cenografia e figurinos são de Ângela Rocha, o desenho de luz, de Nuno Meira, e o desenho de som, de Miguel Lima.

“O futuro próximo — O nosso desporto favorito” vai estar em cena na sala Garrett até 15 de dezembro, com espetáculos de quarta-feira a sábado, às 19h00, às quintas e sextas-feiras, às 21h00 e, aos domingos, às 16h00.

Após a récita de domingo, dia 8, haverá uma conversa com os artistas, enquanto a última, no dia 15, terá interpretação em Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição.

A terceira parte da tetralogia é uma coprodução do TNDMII, Gonçalo Waddington e Carla Maciel. A primeira parte estreou-se em junho de 2016, integrada na programação da 14.ª edição do Festival Alkantara, e, a segunda, em abril de 2017, no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa.