“Desde que eu vim cá para fora eu recebo as histórias das pessoas — ’eu estive contigo aqui, eu ajudei-te a ir para o hospital, eu estive contigo em tua casa’ — e eu vou juntando os recortes para ir montando o meu puzzle”, disse Ângelo Rodrigues, o ator que teve sérios problemas de saúde neste verão, em entrevista a Cristina Ferreira, na SIC. “Há uma semana da minha vida que foi apagada da minha memória”. Por isso, diz ter “dificuldade em sentir o que as pessoas sentiram cá fora”.

Eu estou anestesiado ainda, porque eu tenho percebido, desde que saí, que o impacto foi muito grande cá fora”, disse ainda o ator, que apareceu na conversa com Cristina Ferreira sem aparentes problemas de mobilidade.

O ator de 32 anos foi internado em agosto depois de ter sofrido um choque séptico e uma paragem cardíaca, que foi revertida pelos médicos. Os problemas terão surgido a partir de uma injeção de testosterona mal administrada, que provocou infeções graves numa das pernas de Ângelo Rodrigues.

Depois de ter sido submetido a um tratamento para acelerar a cicatrização das feridas, a saúde do ator começou a melhorar. Ângelo Rodrigues foi ainda submetido a várias operações para reconstruir parte da perna esquerda.

O ator reconhece que a forma como lhe foi comunicado o problema foi importante na recuperação: “Todo o cuidado que houve em não me dizer o que aconteceu durante o tempo em que eu estive lá ajudou-me bastante, fiquei focado naquilo que realmente interessava — a minha sobrevivência e a minha recuperação”.

E recorda como só mais tarde teve noção do que tinha passado: “Sabia que alguma coisa tinha acontecido à minha perna, não quis ver — Cristina, eu estive dois meses sem olhar para a minha perna“, disse o ator. “Só no último dia é que tirei as ligaduras e vi as marcas que este acidente trouxe ao meu corpo”.

Ângelo Rodrigues diz ter ignorado os primeiros sintomas, “a sentir febre, já com princípio de anemia, tinha quebras de força, estava um bocado em baixo”, mas não partilhou os problemas com ninguém. Quando a febre e os vómitos apareceram, Ângelo Rodrigues pensava “que era uma gripe”.

“Passei uma semana antes de ir ao hospital nessa coisa dos antibióticos e, OK, estou a sentir-me mal agora, mas ainda não vou ao hospital porque daqui a três dias vou melhorar. Então passei o período de uma semana — que foi até o período mais crítico, com um quadro clínico assombroso — em que deveria ter ido ao hospital mas não fui”.

Quando acabou por ir ao hospital, “viram que o meu quadro clínico estava péssimo e mandaram-me para casa, em consciência, ou seja, com a minha autorização”, revela o ator, que quis ir para casa “porque no outro dia tinha outro programa e queria lá estar”.

Não tive real noção do que viria aí, nunca na vida imaginava que ia ficar em coma, tanto que, quando acordei do coma, via toda a gente triste à minha volta, mesmo o corpo médico, os enfermeiros, a minha família e os meus amigos, e eu tentava perceber: ‘O que aconteceu? Porque é que estão com essa cara?’”.

Ângelo Rodrigues revela que foi alvo de sete cirurgias. “A primeira vez que vou fazer a reconstrução da minha perna, a cirurgia plástica, eu digo aos médicos: ‘Olha, vou finalmente ser operado’”. Os médicos responderam: “Ângelo, é a sexta vez”. Foi a primeira vez que estava consciente a ser operado. “Todas as outras operações foram durante o coma, para garantir a minha sobrevivência”.